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Bezerra de Menezes

Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da humanidade. - Allan Kardec

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JEAN BAPTISTE ROUSTAING,
APÓSTOLO DO ESPIRITISMO

(PAINEL BIOGRÁFICO)

1. ROUSTAING - ORIGEM FAMILIAR

Certidão de Nascimento de Jean Baptiste RoustaingJean Baptiste Roustaing nasceu na comuna de Bègles, cantão de Bordeaux, departamento da Gironde, França, às oito horas da manhã de 15 de outubro de 1805, uma terça-feira. Seus pais foram o Sr. François Roustaing, negociante, então com trinta e três anos e a Sra. Margueritte Robert, sua esposa, residentes em Bordeaux.

Não se sabe ao certo o endereço de residência do casal quando do nascimento de Jean Baptiste, mas a certidão de nascimento de Joseph Adolphe Roustaing, irmão mais velho do nosso biografado, que nasceu no dia 6 de outubro de 1803, na casa de seu pai, indica como endereço da família o número 01 da Porte de la Pont de Saint-Jean. Nada garante que em 1805, quando do nascimento do nosso Roustaing, seus pais continuassem a residir neste endereço. François e Margueritte tiveram ainda mais dois filhos: Jeanne Mathilde (1815-1898) e Alfred.

Mapa de Bordeaux e Cercanias. Destaque para Bégles, onde nasceu RoustaingO significado da palavra Roustaing vem do nome pessoal alemão Hrodstain, composto dos elementos: hrod = destaque e stain = pedra. Nas variações deste nome se incluem: Rostang, Rostand, Roustan e Rostain. A forma latina é Rustanhdus. Ele traduz a noção de pedra principal, pedra de destaque, ou, ainda, pedra gloriosa. Este nome pertence a duas das mais antigas famílias de Talance. Em seus arquivos se encontram textos que registram, no século XIII, a presença dos Roustaing, quando esta vila era uma simples floresta. A história assinala o vultoso Guillaume Roustaing, primeiro habitante de renome de Talance, que fora prefeito de Bordeaux, em 1229. Ainda nesta vila, temos até hoje dois destacados palácios que pertenciam a estas duas famílias, um conhecido como a Velha Torre ou Torre de Roustaing, e outro chamado Prince Noir; todos importantes pontos turísticos da região, e que marcam a importância destas famílias nos aspectos culturais, econômicos e políticos do local. A Ville de Talance, em justa homenagem, dedica o nome de uma de suas principais ruas a estas famílias como um todo, pela importância histórica que representam: rue Roustaing.

Não obstante a nobreza do nome e da origem familiar, Roustaing teve sua infância e juventude marcadas pelas agruras financeiras: “Dera-me Deus por provação ser, desde a juventude, desde o momento em que entrei na vida social, filho de minhas obras, no seio da pobreza, pelo estudo, pela fadiga, pelo trabalho” (QE, I, 57). Seu pai, Sr. François, enfrentou dificuldades ao longo de toda a formação de Jean Baptiste, sacrificando-se até a ponto de esgotarem seus recursos para ajudá-lo nos estudos. Mas valeu! O rapazinho completou seus estudos básicos no famoso Liceu Real de Bordeaux, adquirindo uma educação boa e sólida, e as dificuldades financeiras desse período foram superadas mais à frente.

O presidente da Ordem dos Advogados de Bordeaux, quando do falecimento de Roustaing, em 1879, e responsável pelo discurso fúnebre feito em sua homenagem, Sr. Battar, conta-nos que “ao sair do colégio, era preciso escolher uma carreira, e os sacrifícios, que seu pai se havia imposto para lhe ajudar, haviam chegado ao fim” [...] “Tornou-se professor para poder se transformar em estudante. De um lado, ensinava matemáticas especiais, obtendo, assim, os recursos necessários para fazer face às despesas com taxas de inscrições e às necessidades de sua vida; de outro, seguia assiduamente os cursos da Escola de Direito”.



Liceu Michel Montaigne, onde estudou Roustaing

2. FORMAÇÃO PROFISSIONAL

Faculdade de Direito de Bordeaux, onde estudou RoustaingRoustaing chega a Toulouse em 1823, ano em que completaria 18 anos. Aplicado nos estudos, esgotado pelo excessivo trabalho que lhe tirava muitas horas de sono, foi-se adaptando gradativamente ao mecanismo dos exames, esforçando-se para vencê-los. Aos poucos, as notas magras, sem distinção, vão se elevando, até ser distinguido, no final do curso e na defesa de sua tese. Em 12 de agosto de 1826, emite-se o certificado que informa que J. B. Roustaing defendeu o ato público de licenciatura (tese), tendo recebido a menção: distinguée. Foi o coroamento de seus pungentes esforços... Roustaing especializou-se em direito comercial.

Conquistados os seus diplomas, ele não se acomoda, e parte em busca da necessária especialização. Trabalhou em Paris como ajudante de escrivão, e aprendeu, nesta função, a pôr a lei em execução, ganhando assim também um salário providencial, suficiente para se sustentar na grande metrópole e poder, ao mesmo tempo estagiar “com os príncipes da palavra e com os favoritos da fama”. Três anos de estudos e observações se passaram, num dos melhores centros de estudo de Paris. Agora, estava o nosso missionário pronto para voltar a Bordeaux e exercer bem a sua carreira de advogado. Tudo estava preparado para o seu sucesso profissional, como informou o Sr. Battar: “Tinha-se munido de todas as peças”.

3. ROUSTAING:CARREIRA PROFISSIONAL E CASAMENTO

Palácio de Justiça de BordeauxHomem acima do seu e do nosso tempo, Roustaing tinha na honestidade a razão primeira de sua conduta. Era ela a sua grande virtude, que dava valor a tudo que conquistava, quer em prestígio, quer em fortuna. E ele soube adquirir, à força de um trabalho honesto, uma excelente condição de vida, “uma posição independente, adquirida mediante trinta anos de trabalho no gabinete e nos tribunais” (QE, I, 58). Esta virtude da honestidade era tal, que a Revue Spirite, fundada por Allan Kardec, a destaca num artigo sob a responsabilidade da Redação, que, na época, era exercida pelo inesquecível P.-G. Leymarie: “J.-B. Roustaing, homem muito liberal, muito honesto” (RS, 26º ano, julho, 1883, p. 314).

Estudioso dos fatos à exaustão, perseverante e intuitivo, sabia, porém, manter a humildade frente a limites extremos, que devem ser sempre respeitados, para se permanecer no terreno da ética. “Não parava a não ser diante de uma impossibilidade absoluta” – conta-nos Battar. E acrescenta: “Quantas noites passou mergulhado em suas meditações, pesquisando autores e compilações diversas para extrair o que poderia servir às suas defesas. E quando, no dia seguinte, chegava à tribuna, surpreendia seus adversários com a variedade de seus recursos. Quantas vezes ele, assim, com a inspiração feliz pela descoberta imprevista, recuperava causas aparentemente desesperadas”.

Após cerca de dezoito anos de militância na advocacia, Roustaing, em 13 de agosto de 1847, entra para o Conselho da Ordem dos Advogados de Bordeaux, permanecendo nesta função até 2 de agosto de 1855. Pouco depois é eleito Bastonário ou Presidente da Ordem, em 11 de agosto de 1848, para o ano jurídico 1848-1849. Roustaing ainda não havia completado 43 anos. Mais tarde, foi designado Secretário do Conselho, em 10 de agosto de 1852, para o ano jurídico 1852-1853. Assim, de 1847 a 1855, ao todo oito anos, colaborou administrativamente na Ordem, que tanto orgulho tinha em pertencer.


4. QUEM CASA QUER CASA...

Rue Saint Simeón 17, residência do casal RoustaingEm 1850, Jean Baptiste, com quarenta e quatro anos, bem amadurecido nas lutas pela vida e profissionalmente estabilizado, vê chegar a hora de se unir a uma companheira. Ali, bem perto dele, na sua parentela, encontra, ou melhor, reencontra sua querida Elisabeth. Em 24 de agosto de 1850, à tarde, Roustaing, que então residia com seus pais na Rue Trois-Conils, 5, casa-se com Elisabeth Roustaing, sua prima, também com 44 anos, nascida em 13 de dezembro de 1805, em Ladaux, cantão de Targon, e residindo àquela época, em Bordeaux, na Rua D’Aquitaine, 63. Elisabeth era viúva do Sr. Raymond Lafourcade, e não deixou filhos deste primeiro casamento, bem como do segundo, com Roustaing. Imagina-se que fosse estéril, e que dada às limitações da medicina da época, não pôde solucionar tal restrição. Segundo o Sr. Battar, Elisabeth foi a “companheira de sua vida e de suas boas obras”.

Quem casa quer casa - assim diz a sabedoria popular ... com o nosso biografado não foi diferente. Logo, no ano de 1853, o novo casal encontra um confortável imóvel disponível para venda, num excelente ponto de Bordeaux, à Rue Saint Simeón, 17. Mais tarde, nesta residência, Roustaing irá realizar reuniões espíritas diárias. Será aí também o local de sua desencarnação.

Outro imóvel adquirido por Jean Baptiste e Elizabeth foi uma bela quinta, em 1855, que viria a se transformar num dos maiores epicentros na explosão do espiritismo na França. Depoimentos da época indicam que a propriedade situava-se próxima à Bordeaux, na região de Entre-deux-Mers, cantão de Targon, localidade de Arbis. Chamava-se “a quinta de Tribus”. Roustaing produzia, aí, em larga escala: trigo, vinho tinto e vinho branco.


5. ROUSTAING, DISCÍPULO DE ALLAN KARDEC

Residência do Sr. Sabò, onde Roustaing inicia suas experiências de Espiritismo prático por orientação de KardecEm janeiro de 1858, algum tipo de enfermidade afasta Roustaing da vida militante na advocacia. Seus relatos indicam que o período mais intenso desse mal, por nós desconhecido, mas apontado por feliz intuição do nosso saudoso Indalício Mendes como estafa providencial, se estendeu até janeiro de 1861, quando chegou a julgar-se completamente restabelecido (QE, I, 58), mas em vão. Contrariamente às suas expectativas, a situação se estendeu ao longo do tempo...

Neste período de convalescença, porém, um fato extraordinário muda a vida de nosso historiado: “Um distinto médico daquela cidade [Bordeaux] me falou da possibilidade das comunicações do mundo corpóreo com o mundo espiritual, da doutrina e da ciência espíritas” (QE, I, 58). Supõe-se que esse médico seja o seu clínico particular, o Dr. Lablay, grande amigo. Outra possibilidade é que o Dr. Alphonse Bouché Vitray, distinto médico e bom amigo de Roustaing, o tenha alertado quanto às comunicações entre os dois mundos.

Corria o ano de 1860... Sua primeira reação foi de incredulidade, registrada por ele mesmo, mas “bem sabia que uma impressão não é uma opinião e não pode servir de base a julgamento; que, para isso, é necessário, antes de tudo, que nos coloquemos em situação de falar com pleno conhecimento de causa” (QE, I, 58).

O Apóstolo de Bordeaux não se permitia ordenar silêncio à razão (QE, I, 58); nem se satisfazia com a superficialidade do sobrenatural ou do milagre (QE, I, 59). Então, só lhe restava uma solução, a única que não afrontava a sua consciência: “Com a minha vida inteira irresistivelmente presa à pesquisa da verdade, na ordem física, moral e intelectual, deliberei informar-me cientificamente, primeiro pelo estudo e pelo exame, depois pela observação e pela experimentação, do que haveria de possível, de verdadeiro ou de falso nessa comunicação do mundo espiritual com o mundo corpóreo, nessa doutrina e ciência espíritas”. (QE, I, 59).

Roustaing começa então sua viagem pelo imenso campo da Doutrina espírita precisamente por onde deve iniciar quem pretende percorrer a longa estrada, sem desvios e atalhos: “Li O Livro dos espíritos. Nas páginas desse volume encontrei: uma moral pura, uma doutrina racional, de harmonia com o espírito e progresso dos tempos” (QE, I, 59). Leu em seguida O livro dos médiuns, então recém anunciado por Kardec nas páginas da Revista espírita: “nele se me deparou uma explicação racional: da possibilidade das comunicações do mundo corpóreo com o mundo espiritual” e “das vias e meios próprios para essas comunicações”. (QE, I, 59)

Concluído o estudo inicial das obras principais até então existentes de Allan Kardec, era necessário buscar complementos. Sentar junto de quem já havia percorrido mais o longo caminho do espiritismo. Recorre, então, ao seu colega da Corte de Lyon, o ilustre advogado Jacques André Pezzani, que “com ele penetrou na babel da ortodoxia cristã e perlustrou a história das suas heresias; que lhe mostrou o que era Docetismo, levando-o a percorrer-lhe a trajetória com o auxílio das obras de Santo Inácio, de Polycarpo, de S. Irineu, de Eusébio (História Eclesiástica), de Teodoreto, de Clemente de Alexandria, de Beaussobre (História do Maniqueísmo), de Bergier, de Feller, de Floquet, de Matter” (QE, I, 1942, 104).

Capa da Edição Original de O Livro dos EspíritosEstes estudos foram devidamente reconhecidos por Kardec, que vê em seu discípulo de Bordeaux um iniciado recente, porém aplicado: “estudou, séria e profundamente, o que lhe permitiu apanhar, com rapidez, todas as consequências dessa grave questão do Espiritismo, não se detendo, em sentido oposto a muita gente, na superfície” (RE, 1861, junho, p. 258).

Agora eram necessárias a observação e a experimentação, como a fase complementar da ciência espírita. Inteligente e inspirado, Roustaing escreve a Kardec, que recomenda ao discípulo integrar-se ao Grupo do Sr. Sabô. O Almanach spirite de 1865 (pp. 67-8) informa que o Sr. Émile A. Sabò foi o primeiro espírita de Bordeaux a confessar suas íntimas convicções, em 1860. Ele era chefe da contabilidade da Companhia Ferroviária do Sul (RE, 1862, março, p. 125). Sua residência, nesta época, estava localizada na Rue Barennes, 13. No prefácio de Os quatro Evangelhos há um pouco da história desta fase de trabalhos espíritas de Roustaing com os confrades de sua cidade: “Entreguei-me, auxiliado por eles, diariamente, a trabalhos de experimentação e de observação, com o espírito disciplinado pelo estudo das ciências puras e aplicadas” (QE, I, 62).

Esse período foi decisivo para a consolidação de sua fé racional e sua convicta e pública adesão ao espiritismo: “Depois de ter visto e ouvido, minha fé se firmou de modo inabalável” (QE, I, 63).

Kardec louva publicamente, nas páginas da Revista espírita, os resultados desses esforços: “o Sr Roustaing passou a mestre em assunto de apreciação. [...] Devemos felicitar o Sr. Roustaing”. (RE, junho, 1861, pp. 258-60).


6. CHAMAMENTO ESPIRITUAL DE ROUSTAING

Quinta de Tribus, casa de campo de RoustaingEram comuns temporadas de Roustaing em Arbis. Há registros que mostram que elas deviam ser frequentes, no mínimo anuais, e acredita-se que foi numa dessas, a de junho de 1861, que idealizou o seu Grupo espírita ou Grupo Roustaing, e suas famosas domingueiras em Tribus... É aí, também, que recebe seu primeiro chamamento espiritual.

Tudo começa na presença de um excelente médium que se encontrava em sua companhia, e com o qual trabalhava diariamente. Ele ora, então, fervorosamente, no silêncio de uma prece, para que os Espíritos de João Batista, de seu pai e de seu guia protetor pudessem, com a permissão divina, se comunicar através desse médium, que se encontrava em sua companhia: “Essas manifestações se produziram espontaneamente, com surpresa do médium, a quem eu deixara ignorante da minha prece”. (QE, I, 64). Uma semana depois, no domingo seguinte, 30 de junho, dia dedicado pela Cristandade ao Apóstolo Pedro, aproveitando-se de toda a psicosfera que animava as reuniões do Grupo Roustaing, este mavioso Espírito também se comunica: “O Espírito do apóstolo Pedro se manifestou a 30 de junho, de modo inesperado, tanto para mim como para o médium” (QE, IV, 65).

Estas comunicações, analisadas em seu conjunto, deram imensa alegria a Roustaing. À semelhança de Maria de Nazaré, canta ele também no imo d´alma o seu Magnificat: “minha súplica fora ouvida e que Deus me aceitava por seu servo” (QE, IV, 65). Estava finalmente pronto para desempenhar a missão para a qual foi chamado. A Bhagavad gita, em sua sabedoria milenar, ensina: “Quando o discípulo está preparado, o mestre aparece”.


7. O ENCONTRO DE KARDEC E ROUSTAING

Retrato de Allan KardecPouco tempo depois, em outubro do mesmo ano (1861), Kardec e Roustaing finalmente se encontram pessoalmente pela primeira vez, quando da inauguração da Sociedade Espírita de Bordeaux, a 14 de outubro de 1861.

Todos estavam muito felizes. Podemos imaginar a alegria de J. B. Roustaing, entre quase trezentos confrades (RE, 1861, novembro, p. 511), em poder ter o prazer, tão desejado, e já expresso, de conhecer pessoalmente Kardec, e de poder apertar fraternalmente a sua mão, numa comunhão inolvidável. Os discursos, efusivos, se sucederam ao longo do encontro e um deles, o do Dr. Vitray, chegou a citá-lo pessoalmente: “Hoje, o reconhecimento me obriga a inscrever nesta página o nome de um de meus bons amigos, que me abriu os olhos à luz, o do Sr. Roustaing, advogado distinto e, sobretudo, consciencioso, destinado a representar um papel marcante nos fatos do Espiritismo. Devo esta homenagem passageira ao reconhecimento e à amizade” (RE, 1861, novembro, p. 486). Finalmente estavam ali, face a face, juntos, a coluna do Espiritismo, Kardec, e o discípulo, Roustaing, destinado, pelas revelações recebidas, a tornar-se o Apóstolo de Bordeaux. Eles estenderam as mãos, em sinal de comunhão. O prazer tão ardentemente desejado por Roustaing estava materializado. Valeu a pena esperar, como dizia Paulo de Tarso: “O amor ... tudo espera” (I Co., 13: 7).

O Codificador termina a visita a Bordeaux, dias mais tarde, com palavras de reconhecimento sinceras e inesquecíveis: “Incluirei minha primeira estada em Bordeaux entre os mais felizes momentos de minha vida” (RE, 1861, novembro, p. 511).

8. TESTAMENTO DE ROUSTAING
EM FAVOR DA OBRA DE ALLAN KARDEC

1o. Testamento de Roustaing em favor da Obra de Allan KardecRoustaing havia programado para o inverno de 1861, depois de sua volta de mais uma temporada no campo, a realização de seu testamento. Assim, decidido, recolhe-se no lazer e na solidão do campo para refletir e, depois, realizar o registro de suas últimas vontades. Um substancioso legado é então destinado à Sociedade Espírita de Paris, vontade essa comunicada por carta à mesma, que a leu em sua sessão de 20 de dezembro de 1861, sexta-feira, cabendo a Allan Kardec, em nome da Sociedade, agradecer: “Às generosas intenções do testador em favor do Espiritismo, e de o felicitar pela maneira por que compreende a sua finalidade e o seu alcance” (RE, 1862, janeiro, p. 53).

No resumo das principais doações de Roustaing, neste primeiro testamento, o legado feito em favor da promoção do Espiritismo é destacamente o maior de todos, conforme abaixo: “10º) 20.000 francos para: “Sr Allan Kardec, em sua qualidade de Presidente da Sociedade Espírita de Paris residente atualmente em Paris, rua Ste Anne nº 59 Parte coberta da Ste Anne, e em caso de morte anterior a mim do Sr. Allan Kardec, àquele que for, na ocasião da minha morte, presidente dessa sociedade”.

Este foi o 1º testamento do grande apóstolo de Bordeaux. Houve outras redações / ajustes desse texto primeiro e principal, ao longo do tempo, mas a cláusula em favor da Sociedade Espírita de Paris jamais sofreu modificações. Até 1879, quando desencarnou, ao que se saiba, foi ele o maior doador de recursos para as obras de Allan Kardec...


9. INÍCIO DA MISSÃO DE ROUSTAING

Os Quatro Evangelhos, Tomo IEm sua primeira visita a Bordeaux, em outubro de 1861, Kardec pôde também observar um caso de mediunidade excepcional, que o impressionou vivamente; uma moça de dezenove anos produzira um desenho notável, surpreendente: “Trata-se de um quadro planetário (un tableau planétaire) de quatro metros quadrados de superfície, de um efeito tão original e tão singular que nos seria impossível dar uma idéia pela sua descrição” (RE, 1861, novembro, p. 475). O trabalho é desenhado em lápis negro, em pastel de diversas cores e em esfuminho. Kardec viu a médium em plena execução e ficou maravilhado com a rapidez e o nível de precisão: “Inicialmente, e à guisa de treino, o Espírito a fez traçar, com a mão levantada e de um jato, círculos e espirais de cerca de um metro de diâmetro e de tal regularidade, que se encontrou o centro geométrico perfeitamente exato” (RE, 1861, novembro, p. 475).

Outro fato que o ilustre visitante fez questão de ressaltar é que o pai da médium era pintor: “Como artista, achava que o Espírito obrava contrariamente às regras da arte e pretendia dar conselhos. Por isso o Espírito o proibiu de assistir o trabalho, a fim de que a médium não lhe sofresse a influência” (RE, 1861, novembro, p. 476).

Os Quatro Evangelhos, Tomo IIMais curioso ainda nesta história é que, pouco mais tarde, em dezembro do mesmo ano – 1861 – Roustaing é igualmente convidado a conhecer a mesma peça, e assim, passamos a saber mais detalhes sobre a médium desse tão impressionante desenho, e sobre seus pais. A narração do episódio é do próprio Roustaing: “Em dezembro de 1861, foi-me sugerido ir à casa de Mme. Collignon, que eu não tinha a satisfação de conhecer e a quem devia ser apresentado, para apreciar um grande mediunicamente desenhado, representando um aspecto dos mundos que povoam o espaço” (QE, I, 64).

Evidentemente que estamos diante do mesmo quadro, seja pelas suas dimensões, em si incomuns, seja pelo aspecto planetário ... Outro ponto importante é que Charles Collignon, esposo da médium Émilie Collignon, de Os quatro Evangelhos, era pintor e espírita.

Os Quatro Evangelhos, Tomo IIIAmbos – Charles e Émilie – eram portanto os pais da médium mecânica de cerca de dezenove anos, Jeanne Colligon, em família chamada Jeannine, nascida em 1843, mais precisamente em 15 de dezembro deste ano. Foi então graças à mediunidade desta jovem que encontraram-se, pela primeira vez Roustaing e Collignon, os dois grandes missionários que, dias mais tarde, começariam a captação de uma das maiores obras mediúnicas de todos os tempos: “Os Quatro Evangelhos”...

J. B. Roustaing se sente bem recebido na primeira visita aos Collignon e resolve voltar lá, para agradecer: “Oito dias depois voltei à casa de Mme. Collignon, com o intuito de lhe agradecer o acolhimento que me dispensara por ocasião da visita que lhe fizera para ver aquela produção mediúnica” (QE, I, 64). Pretedia que fosse breve esse segundo contato, mera formalidade social: “Ao cabo de breve conversação sobre generalidades, como sói acontecer entre pessoas que mal se conhecem e que ainda não se acham ligadas por quaisquer relações de sociedade, tratei de retirar-me” (QE, IV, 68).

Os Quatro Evangelhos, Tomo IVÉ nesta hora, entretanto, que os Espíritos se revelam, convidando estes dois missionários para a consecussão dos Les quatre Évangiles: “No momento que me preparava para sair, Mme. Collignon sentiu na mão a impressão e a agitação fluídicas bem conhecidas dos médiuns, indicadoras da presença de um Espírito desejoso de se manifestar. A instância minhas, ela condescendeu em se prestar à manifestação mediúnica e, no mesmo instante, à mão, fluidicamente dirigida, escreveu o seguinte” (QE, I, 64).

Imediatamente segue a bela mensagem anunciando a mais completa obra mediúnica sobre os Evangelhos de N. S. Jesus-Cristo. Um verdadeiro monumento em forma de livro. J. B. Roustaing e Émilie Collignon foram tomados de uma surpresa imensa, “Cheio ao mesmo tempo de alegria e do temor de não sermos capazes nem digno do encargo que nos era desferido” (QE, I, 66). Os Espíritos indicaram a semana seguinte para o início dos trabalhos. O Alto tem coisas que a nossa razão desconhece: “O trabalho ia ser feito por dois entes que, oito dias atrás, não se conheciam” (QE, I, 66). Aos discípulos, como servos, só é permitido aceitar, agradecer a oportunidade, pedir ajuda e trabalhar: “Chamados desse modo a executar essa obra da revelação, que certamente de nosso moto próprio não ousaríamos tentar, incapazes, ignorantes e cegos que éramos, metemos ombro à tarefa” (QE, I, 66)

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10. ROUSTAING, O APÓSTOLO DA FÉ

Foto aérea da Quinta de Tribus (no topo da foto, ao fundo)Ninguém é grande de um salto. As responsabilidades espirituais são dadas num crescendo. Não se dá o mais, se não se souber administrar o menos. É matemática inviolável. E Jesus confirma na Parábola das dez minas: “Muito bem, servo bom; porque foste fiel no pouco terás autoridade sobre dez cidades” (Lc. 19: 17).

Roustaing recebeu muito e não se descuidou de administrar com fidelidade os talentos materiais que a vida lhe confiou, para multiplicá-los em benefício de muitos. Seja na cidade ou na fazenda, realizava uma intensa atividade de imensos benefícios sociais. Era mesmo conhecido pela sua generosidade no esmolar, mesmo antes de tornar-se espírita. Jean Guérin, talvez o seu mais próximo discípulo, escreve sobre seus gestos caritativos na Revue Spirite: “Sempre deu generosamente do que tinha aos que não tinham” (Revue Spirite, 1879, março, pp. 116). E o próprio Roustaing dizia com frequência: “Para o outro mundo não se leva senão o que se deu; e aquele que dá é quem tem que agradecer” (Revue Spirite, 1879, março, p. 116)

J. B. Roustaing soube também abraçar a caridade espiritual com amor cristão. Sabia ele ser dever do espírita não se esquecer dos Espíritos desencarnados e sofredores. Por isso promovia, todas as noites, às 19 horas, em sua residência, reuniões de prece e esclarecimento aos Espíritos sofredores.

Numa outra frente de atuação espírita, exercia seu apostolado divulgando a Doutrina dos espíritos no célebre Grupo Roustaing, um dos mais destacados de toda a França, conforme a descrição de Alexandre Delanne, pai de Gabriel Delanne: “Pela primeira vez, em 1860, eu visitava os grupos espíritas dessa cidade [Bordeaux]; nela já havia um número bastante grande. Os mais frequentados eram os da Sra. Collignon, da Srta. O’kine, dos Srs. Roustaing, Krell, Alexandre, etc. (Le spiritisme – organe de l´union spirite française (Gerente: Gabriel Delanne), no. 23, 1ª quinzena de fevereiro de 1884, p. 6. Redação e administração: Passage Choiseul, 39 & 41, Paris).

A consolidação do Grupo Roustaing garantiu à população de Bordeaux e das cidades vizinhas, a partir de 1864, reuniões mensais e às vezes semanais concorridíssimas, onde os Evangelhos eram comentados à luz dos ensinamentos espíritas. As reuniões aconteciam no primeiro domingo de cada mês. Foi assim que, no dia 4 de setembro de 1864, o Sr. Armand Lefraise, uma das lideranças do movimento espírita da Gironde, esteve assistindo às atividades deste Grupo e, impressionado, num misto de alegria e esperança no futuro desta bela Doutrina, escreveu um artigo sobre a famosa domingueira, e o estampou no seu Le sauveur, na seção Variétés (1º ano, no 33, domingo, 11 de setembro de 1864, p. 4):

Mapa da região de Entre-deux-Mers“A cada dia de reunião, vê-se chegar a Tribus, de todas as regiões vizinhas, pessoas que, sentindo-se melhoradas, renovadas pela nova revelação posta à capacidade de sua inteligência, vêm dos arredores e de vários lugares ao redor agrupar-se em torno daquele cuja palavra eloquente e convicta lhes explica de maneira clara e penetrante a realidade da existência de Deus, da imortalidade da alma e de sua individualidade após a morte, pelas relações do mundo invisível dos Espíritos com o nosso. Em geral, essas reuniões são compostas de pessoas que habitam o campo, honestos agricultores ou artesãos, entre os quais se encontra um grande número de médiuns, todos surpresos por obter comunicações que os sábios ou os distintos literatos não renegariam [...] no último domingo, os vastos salões da casa do Tribus eram muito pequenos para conter a multidão [...]”.

As atividades de seu Grupo deram fama a Roustaing em toda a vasta região de Entre-deux-Mers. A Revue Spirite, através de um aviso assinado pelo Comitê de leitura deste periódico, descreve seu apostolado espírita com estas significativas palavras: “Na Gironde, em Langoiran, La Sauve, Créon, Naujean, Brasne, Frontenac, Arbis, Ladaux, Letourne, Langon, Targon, Blézignac, Fougères, Latrème, Mazères, Villenave-de-Rions, Capian, etc., etc., há mais espíritas que oficialmente se poderia reunir em Paris, todos partidários de Allan Kardec, e que J.-B. Roustaing iniciou em nossas crenças; eles consideram Allan Kardec e J.-B. Roustaing dois mestres venerados” (Revue spirite, 26º ano, 1883, agosto, p. 363).

Essas palavras foram escritas pelo Sr. P.-G. Leymarie, quando de sua visita missionária, em 1883, àquela região. Logo, ele observou in loco e, por isso, suas palavras são de fé: “Em todas as comarcas de Entre-deux-Mers, a lembrança de J.-B. Roustaing permanece bem viva; os adeptos do espiritismo e aqueles que se interessam por nossa filosofia aí se contam aos milhares; todos se recordam das reuniões em Arbis, nas quais, todo domingo, o antigo bastonário da ordem dos advogados de Bordeaux discorria sobre o espiritismo; seja em seu salão, seja diante da relva vizinha ao seu château, e sobre a qual ficavam seus numerosos ouvintes; o terreno foi bem semeado” (Revue spirite, 26º ano, no 7, 1883, julho, p. 299)

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11. ROUSTAING E A
ORGANIZAÇÃO E PUBLICAÇÃO
DE "OS QUATRO EVANGELHOS"

Capa da edição original de Os Quatro EvangelhosA missão de Roustaing diante da obra Les quatre Évangiles não é só a de compilador, ao contrário do que comumente se imagina. Roustaing foi mais que isto. Podemos chamá-lo de organizador. E isto porque ele não só ordenou os ditados, que, aliás, não foram recebidos na sequência comumente conhecida das escrituras sacras, mas pôde participar, com perguntas elucidativas, que muito facilitaram o esclarecimento e o aprofundamento das revelações espirituais. Além disso, cabia a ele uma Introdução que apresentaria todo o trabalho, fora as correções e os acordos com a gráfica e os livreiros, de Bordeaux e Paris.

O trabalho era grande e demandava dedicação e cuidado todo especial. Os Espíritos reveladores, em dezembro de 1861, já haviam recomendado, tanto a ele como à Sra. Collignon: “Ponde-vos mãos à obra; trabalhai com zelo e perseverança, coragem, atividade e não esqueçais nunca que sois instrumentos” (QE, I, 65).

No mês de maio de 1865, reunidos todos os ditados, tanto sobre os Evangelhos, como sobre os Mandamentos, Roustaing recebe pela mesma médium Sra. Collignon uma mensagem com a orientação para a publicação da obra: “trabalha com a maior presteza possível, mas sem ultrapassar os limites de tuas forças, de tal sorte que a publicação esteja concluída em agosto de 1866. Coragem, bons trabalhadores. O Mestre saberá levar em conta a vossa boa-vontade”. - Moisés, Mateus, Marcos, Lucas, João, Assistidos pelos apóstolos.

J. B. Roustaing colocou mãos à obra, e cheio de presteza adiantou o trabalho o máximo possível. Recolheu os ditados, priorizou a ordem dos textos dos Evangelhos, corrigiu o que era preciso, respeitando plenamente o conteúdo da revelação espiritual. Em alguns meses o manuscrito estava pronto para ser entregue ao impressor.

Homem respeitado entre os grandes da Gironde, para ele não foi difícil acertar a impressão da obra na famosa tipografia: Imprimerie Lavertujon, uma das mais importantes da França em sua época. Só alguém muito influente e bem relacionado no meio cultural e político teria a honra de ver uma obra sua publicada por tão destacada empresa. O local de lançamento e de venda de Os quatro Evangelhos fez também juz à excelcitude da obra: a Librairie Centrale, 24, Boulevard des Italiens, em Paris. O fino da Belle époque.

Os dois primeiros volumes, com os comentários sobre os evangelhos sinópticos, de Mateus, Marcos e Lucas, vieram a público em 5 de abril de 1866. O terceiro e último volume, com anotações sobre o Evangelho de João, foi lançado a 5 de maio do mesmo ano.

Allan Kardec saúda o lançamento da magnífica obra compilada por J. B. Roustaing, fazendo o seu anúncio na Revista Espírita, em junho de 1866, com seu importante comentário: “É um trabalho considerável e que tem, para os Espíritas, o mérito de não estar, em nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada em O Livro dos espíritos e em OLivro dos médiuns. As partes correspondentes às que tratamos em O Evangelho segundo o Espiritismo o são em sentido análogo. [...] será consultada pelos Espíritas sérios”.


12. ROUSTAING: DESENCARNAÇÃO E
LEGADO ESPIRITUAL

Atestado de Óbito de Elizabeth RoustaingElizabeth Roustaing desencarna a 8 de novembro de 1878. O jornal de Bordeaux, La Gironde, estampou o Anúncio Fúnebre. O corpo foi sepultado no jazigo da família, em Le Cimetière de la Chartreuse. Jean Baptiste conclui sua tarefa apenas dois meses mais tarde...

Quando do registro de seu segundo testamento, após a desencarnação da sua “companheira de vida e de boas obras”, o nosso advogado bordelense se encontrava bastante doente. Este quadro clínico veio a revelar-se fatal, pois logo depois, em 2 de janeiro de 1879, numa quinta-feira, Roustaing desencarnava, aos 73 anos, em sua residência em Bordeaux.

Os principais jornais da cidade de Bordeaux noticiaram o falecimento de seu ilustre cidadão. A família de Roustaing, católica, resolveu mandar celebrar uma cerimônia religiosa em favor da alma de J. B. Roustaing, de corpo presente, na igreja de Saint-Pierre, que fica nas imediações da Rue Saint-Siméon. O sepultamento ocorreu no jazigo da família, no cimetière de la Chartreuse. A Revue Spirite, o principal órgão de difusão do espiritismo na época, pública na sua edição de março uma nota de Jean Guérin, seu fiel discípulo, repleta de sentimentos:

Atestado de Óbito de Roustaing“Anuncio-vos a morte, segundo a carne, de nosso excelente irmão e amigo, Sr. Roustaing, ex-bastonário da Ordem dos Advogados de Bordeaux, ocorrida no dia 2 de janeiro deste mês, após uma longa moléstia e vivos e cruéis sofrimentos, em seu domicílio, em Bordeaux, na Rua Saint Siméon, 17, com a idade de 73 anos. [...] Ensinou pela palavra e pelo exemplo. Humilde de espírito e de coração, sempre deu generosamente do que tinha aos que não tinham. “Ficai certos, dizia nas reuniões mensais a que presidia, que ‘para o outro mundo não se leva senão o que neste se deu; e que aquele que dá é quem tem de agradecer”. Em Villeneuve-de-Rion, 6 de janeiro de 1879 - J. Guérin” (Revue spirite, 1879, março, pp. 116-7. Trad. Luciano dos Anjos).

No aniversário da comemoração dos mortos, ainda em fins de 1879, a Sociedade para continuação das obras espíritas de Allan Kardec lembrou os que mereceram reconhecimento por haverem defendido a doutrina pela palavra e pelos atos. Entre os lembrados estava J.B. Roustaing: “Sr. Roustaing, antigo professor de Filosofia, homem culto, jurisconsulto muito conhecido, bastonário da Ordem dos Advogados de Bordeaux [...] deixou a reputação de um espírito justo, leal, íntegro, amigo do progresso” (Revue spirite, 1879, dezembro, p. 487).


13. ROUSTAING E AS TRADUÇÕES DE
OS QUATRO EVANGELHOS