Retrato de Bezerra de Menezes

Casa de Recuperação
e Benefícios
Bezerra de Menezes

Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da humanidade. - Allan Kardec

Estude o Esperanto
o idioma universal da Paz!

Logo do Youtube

MUSEU VIRTUAL BEZERRA DE MENEZES

PARA SABER MAIS SOBRE A HISTÓRIA DE NOSSA CASA ACESSE A PÁGINA NOSSA HISTÓRIA.

VISITE TAMBÉM O ACERVO DE MENSAGENS DE BEZERRA DE MENEZES, RECEBIDAS PELA MEDIUNIDADE ABENÇOADA DE AZAMOR SERRÃO.

CONHEÇA IGUALMENTE ALGUMAS DAS OUTRAS PÉROLAS DE ESPIRITUALIDADE RECEBIDAS MEDIUNICAMENTE POR AZAMOR SERRÃO, NA PÁGINA BAÚ DO AZAMOR.

1. MISSÃO ESPIRITUAL

Ilustração sobre retrato de Bezerra de Menezes“Houve na alocução de Ismael uma breve pausa. Depois, encaminhando-se para um dos dedicados e fiéis discípulos, falou-lhe assim: Descerás às lutas terrestres com o objetivo de concentrar as nossas energias no país do Cruzeiro, dirigindo-as para o alvo sagrado dos nossos esforços. Arregimentarás todos os elementos dispersos, com as dedicações do teu espírito, a fim de que possamos criar o nosso núcleo de atividades espirituais, dentro dos elevados propósitos de reforma e regeneração. Não precisamos encarecer aos teus olhos a delicadeza dessa missão; mas, com a plena observância do código de Jesus e com a nossa assistência espiritual, pulverizarás todos os obstáculos, à força de perseverança e de humildade, consolidando os primórdios de nossa obra, que é a de Jesus, no seio da pátria do seu Evangelho. Se a luta vai ser grande, considera que não será menor a compensação do Senhor, que é o caminho, a verdade e a vida. Havia em toda a assembleia espiritual um divino silêncio. O discípulo escolhido nada pudera responder, com o coração palpitante de doces e esperançosas emoções, mas as lágrimas de reconhecimento lhe caíam copiosamente dos olhos. Ismael desfraldara a sua bandeira à luz gloriosa do Infinito, salientando-se a sua inscrição divina, que parecia constituir-se de sóis infinitésimos. Urna vibração de esperança e de fé fazia pulsar todos os corações, quando uma voz, terna e compassiva, exclamou das cúpulas radiosas do Ilimitado: Glória a Deus nas Alturas e paz na terra aos trabalhadores de boa-vontade! Relâmpagos de luminosidade estranha e misericordiosa clareavam o pensamento de quantos assistiam ao maravilhoso espetáculo, enquanto uma chuva de aromas inundava a atmosfera de perfumes balsâmicos e suavíssimos. Sob aquela bênção maravilhosa, a grande assembleia dos operários do Bem se dissolveu. Daí a algum tempo, no dia 29 de agosto de 1831, em Riacho do Sangue, no Estado do Ceará, nascia Adolpho Bezerra de Menezes, o grande discípulo de Ismael, que vinha cumprir no Brasil uma elevada missão."(Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho, cap. 22)

Voltar ao topo

2. ORIGEM FAMILIAR

Certidão de Nascimento de Bezerra de MenezesAdolpho Bezerra de Menezes, nasceu em 29 de agosto de 1831, na Fazenda das Pedras, próximo ao Riacho das Pedras, na freguesia do Riacho do Sangue, hoje encravada no município de Jaguaretama, Ceará. Era filho de Antonio Bezerra de Menezes e de dona Fabiana Cavalcanti de Albuquerque. Foi batizado pouco mais de um mês após seu nascimento, na matriz de Nossa Senhora da Conceição, conforme se depreende de seu batistério, exarado nos seguintes termos:

Adolpho, nascido aos vinte e nove de agosto de mil oitocentos e trinta e um e batizado nesta matriz aos dois de outubro do mesmo ano, filho legítimo do capitão Antonio Bezerra de Menezes e de dona Fabiana de Jesus Maria, moradores nesta freguesia, neto paterno do tenente–coronel Antonio Bezerra de Souza e dona Maria da Costa, e materno do capitão José Roiz da Silva e dona Maria Ignacia Cavalcanti. Foram padrinhos: ajudante José Bernardo Bezerra, casado, e dona Joana Antônia Bezerra do Sacramento, solteira, todos moradores nesta freguesia, e para constar fiz este assento. O vigário Antônio Francisco Régis de Leão Saraiva.

Em cima das ruínas da casa da fazenda Santa Bárbara, de seu avô, coronel Antonio Bezerra de Souza, onde há 181 anos nasceu o Médico dos Pobres, funciona há alguns anos o Polo Bezerra de Menezes – PODEBEM -, lugar de assistência social e espiritual e caridade para a população pobre da região, coordenado por voluntários e mantido por meio de doações, inclusive com a escola Fabiano de Cristo.

Voltar ao topo

3. FORMAÇÃO ESCOLAR:

Liceu do Ceará - FortalezaA vida estudantil de Bezerra iniciou-se no ano de 1838, na escola pública de Riacho do Sangue, onde em dez meses, aos sete anos de idade, aprontou-se em leitura, escrita e contas. Em 1842, na Serra do Martins (RN), matriculou-se na escola de latinidade, fundada em 1831 pelos padres jesuítas e, com apenas dois anos de estudos da língua de origem romana, foi capaz de ser monitor, auxiliando o professor.

Em 1846, de regresso ao Ceará, Bezerra de Menezes fixou-se na capital da província, provavelmente em virtude da terrível seca do ano anterior, que causou a perda quase total dos gados da província e determinou a migração de inúmeras famílias ao litoral. Assim, Adolpho continuou seus estudos em Fortaleza, no Liceu do Ceará.

Em 23 de fevereiro de 1851, meses antes do de falecimento de seu pai – em outubro -, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde, em março do mesmo ano, iniciou os estudos de Medicina na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

No ano seguinte (1852), ingressou como praticante interno ("residente") no hospital da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. Além disso, dava aulas particulares de Filosofia e Matemática.

Obteve o diploma de graduação em 1856, com a defesa da tese: "Diagnóstico do cancro" (estudo teórico). Nesse ano, o Governo Imperial decretou a reforma do Corpo de Saúde do Exército Brasileiro e nomeou para chefiá-lo, como Cirurgião-mor, o Dr. Manuel Feliciano Pereira Carvalho, antigo professor de Bezerra de Menezes, e que o convidou para trabalhar como seu assistente.

Voltar ao topo

4. MEDICINA E MATRIMÔNIO

Bezerra de Menezes e sua segunda esposa, Cândida Augusta Lacerda MachadoA 27 de abril de 1857, candidatou-se ao quadro de membros titulares da Academia Imperial de Medicina com a memória "Algumas considerações sobre o cancro, encarado pelo lado do seu tratamento". O acadêmico José Pereira Rego leu o parecer na sessão de 11 de maio, tendo a eleição transcorrido na de 18 de maio, e a posse, na de 1º de junho do mesmo ano.

Em 1858, candidatou-se a uma vaga de lente substituto da Seção de Cirurgia da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Nesse ano saiu a sua nomeação oficial como assistente do Corpo de Saúde do Exército, no posto de Capitão-tenente e, a 6 de novembro, desposou Maria Cândida de Lacerda, que viria a falecer de mal súbito em 24 de março de 1863, deixando-lhe dois filhos, um de três e outro de um ano de idade.

No período de 1859 a 1861, exerceu a função de redator dos Anais Brasilienses de Medicina, periódico da Academia Imperial de Medicina.

Em 1865 desposou, em segundas núpcias, Cândida Augusta de Lacerda Machado, irmã por parte de mãe de sua primeira esposa. Cândida cuidava de seus filhos até então. Com ela, teve mais 12 filhos.

Por sua atuação generosa e incansável, como médico, cedo tornou-se conhecido como "O Médico dos Pobres". Via na Medicina um sacerdócio, e deixou como um de seus maiores legados exemplos e conselhos inesquecíveis para os jovens médicos de todas as épocas:

"Um médico não tem o direito de terminar uma refeição, nem de escolher hora, nem de perguntar se é longe ou perto, quando um aflito qualquer lhe bate à porta. O que não acode por estar com visitas, por ter trabalhado muito e achar-se fatigado, ou por ser alta noite, mau o caminho ou o tempo, ficar longe ou no morro; o que, sobretudo, pede um carro a quem não tem o que pagar a receita, ou diz a quem chora à porta que procure outro, esse não é um médico, é negociante de medicina, que trabalha para recolher capital e juros dos gastos da formatura. Esse é um infeliz, que manda para outro o anjo da caridade que lhe veio fazer uma visita e lhe trazia a única espórtula que podia saciar a sede de riqueza do seu espírito, a única que jamais se perderá nos vaivens da vida".

Voltar ao topo

5.CARREIRA POLÍTICA

Cãmara Municipal do Rio de Janeiro - 1856Nesse período, a Câmara Municipal do Município Neutro tinha como presidente o médico Roberto Jorge Haddock Lobo, do Partido Conservador. Ao mesmo tempo, Bezerra de Menezes já se notabilizara pela atuação profissional e pelo trabalho voltado à população. Desse modo, em 1860, em uma reunião política, alguns amigos levantaram sua candidatura à Câmara dos Vereadores, pelo Partido Liberal, como representante da paróquia de São Cristóvão, onde então residia.

Abertas as urnas e apurados os votos, Bezerra fora eleito. Seus adversários, liderados pelo dr. Haddock Lobo, impugnaram a posse sob o argumento de que militares não podiam exercer o cargo de vereador. Desse modo, para apoiar o Partido, que necessitava dele para obter a maioria na Câmara, decidiu requerer exoneração do Corpo de Saúde (26 de março de 1861). Desfeito o impedimento, foi empossado no mesmo ano.

Foi reeleito vereador da Câmara Municipal do Município Neutro para o período de 1864 a 1868, e depois, por várias legislaturas consecutivas, até a década de 1880.

Foi eleito deputado Provincial pelo Rio de Janeiro em 1866 e empossado em 1867. A Câmara dos Deputados foi dissolvida no ano seguinte (1868) por várias divergências políticas, assumindo a direção do governo o Partido Conservador.

Na política, atuava como deputado e vereador simultaneamente, o que, à época, era permitido. Ocupou várias vezes a presidência da Câmara Municipal, cargo que corresponderia atualmente ao de prefeito.

Foi eleito deputado pela Província do Rio de Janeiro para as legislaturas da década de 1880, nunca tendo encerrado sua carreira política, pois, por várias vezes, foi candidato, por exemplo, ao cargo de senador.

Voltar ao topo

6. MILITÂNCIA INTELECTUAL:

Capa do romance O Evangelho do FuturoDurante a campanha abolicionista, publicou o ensaio "A escravidão no Brasil e as medidas que convêm tomar para extingui-la sem dano para a Nação" (1869), na qual não só defende a liberdade aos escravos, mas também a inserção e adaptação dos mesmos na sociedade por meio da educação. Nesta obra, Bezerra se auto intitula um liberal, e propõe que se imitasse os ingleses, que, na época, já haviam abolido a escravidão de seus domínios.

Expôs os problemas de sua região natal em outro ensaio publicado, "Breves considerações sobre as secas do Norte" (1877). Foi autor de biografias sobre o visconde do Uruguai, visconde de Caravelas e Pedro II, entre outras personalidades ilustres do Império do Brasil. Atuou no jornal A Reforma, órgão liberal no Município Neutro, e, de 1869 a 1870, redator do jornal Sentinela da Liberdade.

Escreveu também outras obras, como:

Sabe-se que Bezerra de Menezes era fluente em línguas como latim, espanhol e francês.

Voltar ao topo

7. VIDA EMPRESARIAL

Vila Isabel no século XIXFoi sócio fundador da Companhia Estrada de Ferro Macaé e Campos. Empenhou-se na construção da Estrada de Ferro Santo Antônio de Pádua, pretendendo estendê-la até o Rio Doce, projeto que não conseguiu concretizar.

Foi também um dos diretores da Companhia Arquitetônica de Vila Isabel, fundada em Outubro de 1873 por João Batista Viana Drummond (depois barão de Drummond) para empreender a urbanização do bairro de Vila Isabel.

Presidiu igualmente a Companhia Ferro-Carril de São Cristóvão, no período em que os trilhos da empresa alcançavam os bairros do Caju e da Tijuca.

Voltar ao topo

8. APÓSTOLO DO ESPIRITISMO:

Capa de O Livro dos EspíritosO Espiritismo, qual novo maná celeste, já vinha atraindo multidões de crentes, a todos saciando na sua missão de Consolador. Logo que apareceu a primeira tradução brasileira de "O Livro dos Espíritos", em 1875, foi oferecido a Bezerra de Menezes um exemplar da obra pelo tradutor, Dr. Joaquim Carlos Travassos, seu amigo, que se ocultou sob o pseudônimo de Fortúnio e inclusive, em sua tese de formatura sobre queimaduras, escreveu-lhe uma dedicatória.

Foram palavras do próprio Bezerra de Menezes, ao proceder à leitura de monumental obra: "Lia, mas não encontrava nada que fosse novo para meu espírito, entretanto tudo aquilo era novo para mim [...]. Eu já tinha lido ou ouvido tudo o que se achava no Livro dos Espíritos [...]. Preocupei-me seriamente com este fato maravilhoso e a mim mesmo dizia: parece que eu era espírita inconsciente, ou mesmo, como se diz vulgarmente, de nascença".

Contribuíram também para torná-lo um adepto consciente as extraordinárias curas que ele conseguiu, no início dos anos 1880, do famoso médium receitista João Gonçalves do Nascimento, através do espírito Dr. Dias da Cruz, antigo companheiro de Bezerra como vereador e como deputado – pai do famoso dr. homeopata Francisco Menezes Dias da Cruz. Mais que um adepto, Bezerra de Menezes foi um defensor e um divulgador da Doutrina Espírita.

Em 1883, recrudescia, de súbito, um movimento contrário ao Espiritismo e, naquele mesmo ano, fora lançado por Augusto Elias da Silva o "Reformador", órgão oficial da Federação Espírita Brasileira e periódico mais antigo do Brasil, ainda em circulação. Elias da Silva consultava Bezerra de Menezes sobre as melhores diretrizes a seguir em defesa dos ideais espíritas. O venerável médico aconselhava-o a contrapor-se ao ódio, a praticar o amor e a agir com discrição, paciência e harmonia. Elias também fundou a Federação Espírita Brasileira, em 1884.

Bezerra não ficou, porém, apenas no conselho teórico. Com as iniciais A. M., desde fevereiro de 1883, principiou a colaborar com o "Reformador", emitindo comentários judiciosos.

Embora sua participação tivesse sido marcante até então, somente em 16 de agosto de 1886, aos 55 anos de idade, Bezerra de Menezes, perante grande público, em torno de 1.500 a 2.000 pessoas, no salão de Conferência da Guarda Velha, em longa alocução, justificou a sua opção definitiva de abraçar os princípios da consoladora doutrina.

Daí por diante, Bezerra de Menezes foi o catalisador de todo o movimento espírita na Pátria do Cruzeiro, exatamente como preconizara Ismael. Com sua cultura privilegiada, aliada ao descortino de homem público e ao inexcedível amor ao próximo, conduziu o barco de nossa doutrina por sobre as águas atribuladas pelo iluminismo fátuo, pelo cientificismo presunçoso, que pretendia deslustrar o grande significado da Codificação Kardequiana.

Enquanto presidente da FEB em 1889, implantou o estudo metódico de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, e foi reconduzido ao espinhoso cargo em 1895, quando implantou o estudo da obra Os Quatro Evangelhos de Jean Baptiste Roustaing, em uma época na qual se agigantava a maré da discórdia e das radicalizações no meio espírita. Permaneceu no cargo até 1900, ano em que desencarnou.

Voltar ao topo

9. DEMAIS INFORMAÇÕES E VINCULAÇÕES

Sede do Jornal O PaizDr. Bezerra de Menezes foi membro da Sociedade de Geografia de Lisboa, da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, da Sociedade Físicoquímica, sócio e benfeitor da Sociedade Propagadora das Belas-Artes, membro do Conselho do Liceu de Artes e presidente da Sociedade Beneficente Cearense.

Escreveu em jornais como "O Paiz", “Jornal do Brasil”, “Gazeta de Notícias” e “Gazeta da Tarde”, de 1887 a 1898, e no "Reformador". Utilizava o pseudônimo de Max.

O dicionarista J. F. Velho Sobrinho alinha extensa bibliografia de Bezerra de Menezes, relacionando para mais de 40 obras escritas e publicadas, dentre as quais encontram-se teses, romances, biografias, artigos, estudos, relatórios, etc.

Bezerra de Menezes desencarnou em 11 de abril de 1900, às 11h30min, tendo ao lado a dedicada companheira de tantos anos, Cândida Augusta (Dodoca). Morreu pobre, embora seu consultório estivesse cheio da população mais simples. Foi preciso constituir-se uma comissão para angariar donativos visando a possibilitar a manutenção da família, comissão esta presidida por Quintino Bocayuva, príncipe dos jornalistas brasileiros. Por ocasião de sua morte, assim se pronunciou Leon Denis, um dos maiores discípulos de Kardec:"Quando tais homens deixam de existir, enluta-se não somente o Brasil, mas os espíritas de todo o mundo".

Fontes:

Outros estudos sobre a vida e a obra de Bezerra de Menezes que também nos servem de referência:

Voltar ao topo

10. ENTREVISTA COM BEZERRA

O Reformador, órgão de divulgação da Federação Espírita Brasileira, publicou em 15 de outubro de 1892 um depoimento de Bezerra de Menezes sobre suas convicções religiosas trazidas do berço e sua conversão ao Espiritismo. O referido documento, que encontra-se no segundo capítulo da primeira parte do livro Bezerra de Menezes: Ontem e Hoje, da editora Feb, permitirá ao leitor sentir como se estivesse conversando com o inolvidável Apóstolo do Espiritismo no Brasil. Faça o download do livro clicando aqui.

Voltar ao topo

GALERIA DE FOTOS:

Voltar ao topo

A PALESTRA DE "CONVERSÃO" DE BEZERRA DE MENEZES (TEXTO INTEGRAL)

Senhores,

Reprodução do quadro de Bezerra de Menezes da Câmara dos Vereadores - RJAntes de dizer-vos ao que vim aqui, preciso explicar-vos minha presença aqui.

Será esse o exórdio do meu discurso.

Venho de longes terras, senhores. Venho dos antípodas do Espiritismo. E parece que a narração do meu êxodo, em que talvez não faltasse a coluna de luz e de nuvens e certamente não o providencial maná, não será de todo inútil para os que são tíbios na fé - e para os que a repelem como obras de magia - de loucura - e de diabolismo.

Nunca se perde em conhecer o mundo prático e o progresso íntimo, pelos quais um homem, que não é de todo destituído de talento e de saber - e que absolutamente não é leviano e precipitado, deixou a lei em que nasceu para adorar outra de cunho diferente.

Eu nasci no seio da Igreja romana e criei-me na sua lei.

Como acontece a todos, eu vivi tranquilo em minha fé: na fé que meus pais me deram, seguros de que ela concatenava todas as verdades divinas - seguro de que fora dela não podia haver senão o erro e a mentira.

Como acontece a todos, eu vivi nessa confiança, não porque tivemos passado minhas crenças pelo cadinho da observação e da experiência, ou mesmo, pelo exame da razão e da consciência, senão unicamente pela impressão que deixou em minha alma o ensino paternal.

E é assim, senhores, que se acha constituído o mundo cristão chamado católico - e que as religiões, pelas quais se divide a humanidade, fazem seu proselitismo.

O filho segue a religião do pai.

***

Chegado que fui a idade, em que o espírito, que é cultivado, procura a razão das coisas que o cercam e impressionam - e rerum cognoscere causa(1) -, senti uma necessidade indeclinável de definir minhas crenças que me tinham sido transmitidas por herança.

Parecia-me indigno de Deus e do homem sermos, como um rebanho, tocados por um caminho, de que nem ao menos podíamos inquirir a razão de preferência.

E esta convicção mais se firmou em meu espírito, quando pelo alargamento do círculo dos meus estudos e conhecimentos pude fazer a comparação do ser racional e consciente com o irracional e inconsciente.

O animal propriamente dito foi dotado com todos os órgãos e todos os aparelhos necessários às funções da vida exclusivamente terrena.

O homem teve, também, todos esses órgãos e aparelhos; o que prova: que entre ele e o animal, no que é desta vida, existe a mais perfeita relação natural.

O animal, porém, não dá mais que isso - e o homem demonstra muito mais.

Se, pois, sobressai em nosso ser alguma faculdade, que não foi dada ao resto dos seres animais, é isso prova evidente: de que tal faculdade é destinada a um fim, que não é animal - e que é exclusivamente humano.

O homem apresenta acima dos animais, a razão, faculdade superior e distinta do instinto mais esclarecido dos irracionais - e tem a consciência, de que nenhuma espécie animal oferece, sequer, o mais ligeiro vestígio.

A razão é a luz que Deus nos deu para devassarmos os segredos da criação.

A consciência é outra luz destinada a dar-nos a distinção do bem e do mal.

Uma ilumina o mundo intelectual. A outra ilumina o mundo moral.

Um nos dá o saber - a ciência.

A outra nos ensina o bem e nos guia à virtude.

A ciência e a virtude são, portanto, os fins imediatos a que o homem é destinado na Terra - e aí tendes, meus senhores, explicando o fato: de não poderem os animais possuir a razão e consciência, por não aspirarem, nem à sabedoria nem à virtude.

Se, pois, temos um fim especial, para cuja consecução nos foram dados meios especiais, com a liberdade ampla de usarmos deles como nos parecer, é óbvio; que o Criador nos habilitou a encaminharmo-nos por nós mesmos - e não como um rebanho, pelo caminho que nos é imposto.

Isso valeria por ter-nos o Senhor dado olhos de ver, para tê-los fechados - ouvidos de ouvir, para tê-los cerrados!

A razão e a consciência são, pois natural e logicamente os guias de nossa alma ao destino que lhe foi marcado na vida terrestre.

Nem pode ser de outro modo, porque, então, nosso merecimento consistiria no automatismo irracional - e Deus faria consistir sua maior satisfação em receber os filhos, que não o procuraram, mas que lhe foram empurrados.

Nem pode ser de outro modo, porque o real merecimento do homem está em fazer ele mesmo seu caminho - e a maior satisfação do Pai está em receber o filho, que o procura por seu próprio impulso, descobrindo-o do meio das trevas e correndo por entre espinhos.

É verdade que alega-se como prova de que os meios naturais não bastam ao homem, o fato de ser preciso baixar dos céus a revelação das verdades eternas.

Isso, porém, não prova que a revelação suprima a razão.

É um auxílio que o pai manda ao filho; não é - não pode ser, uma ordem para que este nada faça por si - quebre o instrumento de trabalho, que aquele lhe deu.

A razão corrigida pela consciência e a consciência esclarecida pela razão são os instrumentos dados ao homem para fazer seu destino.

A revelação é um auxílio para que ele abrevie a carreira e chegue mais depressa; se, contudo, assim lhe aprouver, visto que é livre de aceitar ou recusar o dom do céu.

***

Estátua de Bezerra de Menezes no Polo que traz o seu nome, em Jaguaretama - CEPensando assim, julguei-me na obrigação de fazer o exame da doutrina que me foi ensinada por minha santa mãe; para desta arte dirigir-me conscientemente - e, portanto, com verdadeiro merecimento, ao porto da jornada humana - à eterna Sião.

O primeiro ponto com que esbarrei foi o apotegma que consagra o sobrenatural como base essencial da religião.

Se a religião, pensei eu, é a via que conduz o homem ao destino que lhe é posto por Deus - e, se para esse fim, Deus lhe deu a razão e a consciência; de duas, uma: ou a religião está ao alcance da razão, e nesse caso não assenta no sobrenatural - ou assenta no sobrenatural, e nesse caso fica sendo um traste inútil.

Uma hipótese repele a outra - e a Igreja romana sustenta a segunda - e condena os racionalistas.

Proscrevendo a razão, em matéria religiosa, a Igreja proscreve também a liberdade - e estabelece a fé passiva - a fé cega - o crê ou morre dos muçulmanos.

Foi esta a conclusão à que cheguei, no exame deste ponto - e, confesso, senti diante dela abalarem-se-me as crenças primitivas.

Desde logo invadiu-me o espírito uma dúvida, que deve ter perturbado a paz de todos os católicos, por mais fervorosos que sejam:

Que certeza podemos ter de que a nossa religião é a verdadeira, desde que não podemos apreciá-la pela razão e pela consciência!

A fé cega - a fé passiva tem, como nós, o muçulmano - o budista - o masdeísta - o bramanista - e até o fetichista.

Temos, pois, como estes, a mesma razão de crer, até sob o ponto de vista da revelação, pois que todos acreditam que são inspirados seus legisladores.

Entretando, a verdade é única e, portanto, só uma religião pode ser verdadeira.

Porque há de ser a nossa, e não a de Buda que se adorna da mais pura moral?

A Igreja apela para a fé, mas para a fé apelam todas as religiões.

Esta dúvida, que ninguém poderá qualificar de infundada, resolve-se forçosamente pela segunda afirmação:

A fé passiva, baseada no sobrenatural, confunde o Cristianismo com todas as religiões - não dá ao cristão o meio de reconhecer sua superioridade - apaga a luz que Deus deu aos homens.

Só a razão - a razão universal, que é infalível, pode clarear os horizontes - destacar a religião verdadeira das falsas - e dar ao cristão o meio de reconhecer que a sua sobreleva a todas.

Esse meio, eu pensei e vos digo agora, meus senhores, é a comparação dos dogmas de umas com as outras - e de todas com o critério absoluto da verdade, que é formato pelos atributos do Altíssimo.

Não pode ser verdadeira aquela cujos dogmas ferem as excelsas perfeições.

A verdadeira religião será aquela cujos dogmas se conformarem com aquelas perfeições.

E eis como e porque a razão é a base essencial de nossa religião.

***

Foto mais antiga de Bezerra de MenezesO segundo ponto, que me fez parar no meu exame, foi o que consagra o princípio de não haver salvação fora da Igreja.

"Deus é quem dá aos homens o ensino das verdades eternas - e só dá pela Igreja".

Refleti - e não me conformei.

Se é a própria Igreja quem ensina : que todos os homens são filhos de Deus, que não tem preferências em seu amor, nem parcialidade em sua justiça; como poderá ela explicar o fato autêntico: de só ter sido aquele ensino concedido a um povo - a um filho; com exclusão de todos os outros?

E se fora da Igreja não há salvação, como conciliar-se o amor e a justiça do Pai com o fato de ter Ele criado homens - povos numerosos, que não podem conhecer a Igreja, nem ser por ela conhecidos - e, portanto, fora das irradiações da luz salvadora?

Os selvagens da América; antes da descoberta do novo mundo, foram criados para a eterna condenação?

Nos apologéticos mais autorizados descobri uma tentativa de conciliação entre o aforismo da Igreja e o fato de haver povos a quem não podiam chegar os ensinamentos da Igreja.

S. Agostinho, por exemplo, reconhecendo como aquele aforismo ofendia às infinitas perfeições, procurou salvá-lo do naufrágio, dizendo que o Senhor pôs no coração de todo o homem o instinto do bem - e que, por este instinto, todos têm em si o princípio da salvação, visto que serão tomadas as contas a cada um pelo que recebeu.

Não fiz cabedal dessa irreverência, com quem se atribui à suma sabedoria um sistema tão imperfeito de julgar as obras humanas por balanças individuais.

Feriu-me, porém, a alma: ver a Igreja dizer aos inocentes, por seus catecismos, uma coisa - e aos sábios, por seus filósofos, coisa oposta!

Fora da Igreja não há salvação, mas, fora da Igreja, o que seguir e desenvolver o instinto natural do bem poderá salvar-se, tão bem como o que tiver seguido o ensino da Igreja.

E não vai nesta confissão de S. Agostinho a prova de que a razão e a consciência, que são o instinto natural, foram dadas ao homem como os meios essenciais de alcançarem seu destino?

Como, então, suprimi-los para substituí-los pela fé cega e sobrenatural?

Não foi somente essa falha que notei na defesa às doutrinas da Igreja feita pelo sábio apologista.

Se o instinto natural do bem dá para o homem salvar-se - e Deus é igual para todos os seus filhos; ou não devia dar mais que isto a nenhum - ou, se deu mais a um, devia dar a todos.

Como, então, perguntei eu, deu a uns o simples instinto e a outros a revelação ou o ensino superior?

Procurei nos livros sagrados a explicação desse fato, que necessariamente deveria ter uma, pois que Deus não pode praticar injustiças e não descobri coisa que ressalvasse o Senhor.

À vista disso, concluí que havia deficiências na doutrina da Igreja.

Tal conclusão pedia melhores provas para poder gerar em meu espírito uma convicção, tanto mais carecedora delas, quanto tratava-se de religião e da religião de meus pais.

Continuei, pois, em meu exame, passando em revista a Moral - a Teodiceia - e a Cosmogonia da Igreja.

***

A Moral cristã, ensinada pela Igreja, é a mais sublime que se possa imaginar.

Ela encerra em seus preceitos a prova mais cabal de que sua origem não é humana.

Este único preceito; ama a todos, até o inimigo - faze bem a todos, até ao que te odeia; bastava, quando mesmo todos os outros não lhe fossem harmônicos, para convencer que não foi o homem que confeccionou semelhante Moral.

O homem, meus senhores, quer seja o mais sábio, quer seja o mais virtuoso da Terra, sempre tem os pés de barro da estátua de Nabucodonosor, e jamais poderia arrancar de sua depravada natureza o que está em perfeito antagonismo com essa mesma natureza.

Só um ser que não tenha as fraquezas e as paixões humanas pode ter sido o autor de um preceito que combate-as e arranca-as pela raiz.

A Teodiceia, também ensinada pela Igreja, tem o tipo das criaçoes sobre-humanas, é o reflexo da majestade divina, que não pode senão assim manifestar-se ao homem, sem lhe produzir a cegueira.

Não acontece, porém, o mesmo com a Cosmogonia, em que descobre-se logo o cunho das obras de humano engenho.

"Deus criou o mundo em seis dias".

Aí estão medidas as forças do Onipotente pelas fraquezas humanas.

Como o homem precisa do tempo para fazer qualquer obra, atribuiu-se a Deus, para fazer a sua, o tempo de seis dias.

Se a nossa Cosmogonia não fosse humana, ver-se-ia aí o FIAT fazendo surgir momentaneamente a esplendorosa obra, que, por muito favor, concederam ao Onipotente seis dias para concluir.

"Deus descansou ao sétimo dia".

Ainda se nota aqui a pura concepção humana.

Porque o homem não trabalha sem cansar-se, e cansado, precisa descansar: a Cosmogonia atribuiu a Deus a mesma fraqueza.

Deus, meus senhores, é a vida infinita e a vida é o movimento e a ação.

De toda a eternidade e por toda a eternidade, o Criador esteve e estará em atividade, nessa sublime atividade, de que resulta uma criação constante e eterna.

"Deus criou um homem e só lhe deu uma companheira, porque ele lhe pediu".

Aí temos o imperfeito fazendo o perfeito corrigir ou, pelo menos, alterar seu plano.

"Deus criou os anjos perfeitos e o perfeito, segundo a opipotente volição, tornou-se imperfeito".

"Deus castigou a rebeldia dos anjos que iludiram suas vistas, depois de os ter vencido em uma batalha, cousa inquestionavelmente mundana, e que traz ao pensamento a hipótese de poderem os rebeldes vencer, repelindo-os apenas do céu, mas deixando-lhes o sabor e o poder quase divinos que lhes tinha dado!"

"Deus não pode, ou não quis, tornar impotente o príncipe do mal; tanto que aí está ele todos os dias roubando-lhe as almas que criou para si e, no fim do mundo, será o deus do inferno, como Ele é o do Céu."

"Deus eternizou o mal, portanto, como eternizou o bem!"

Porém, o que mais repugna nesse plano emprestado ao Senhor é ter ele entregado o homem ao anjo poderoso, dizendo-lhe: resiste, quando não, será sua presa eterna!

Para atenuar essa verdadeira crueldade e desamor do Pai, os apologéticos socorrem-se à uma arguciosa evasiva, como a do instinto natural do bem.

Dizem que, embora a luta seja monstruosa pela desigualdade das forças dos dois contendores, Deus acode ao que lhe pede socorro de boa vontade.

A graça divina não é lei, é a causa para certos casos: o que compromete seriamente a justiça eterna, como compromete a onisciência, ou a onipotência, o fato dos anjos não saírem como Deus os quis, e de, rebelados, afrontarem eternamente a Deus!

Quem não vê, nesse conjunto de ideias, uma lenda imaginada pelo homem, em completo antagonismo com a razão e com as infinitas imperfeições?

E, se a tudo isso ajuntarmos a pobreza do plano da evolução humana, em si mesmo inexplicável, teremos a firme e santa convicção de que a Cosmogonia ensinada pela Igreja não tem a origem divina de sua Moral e de sua Teodiceia.

São três peças de um maquinismo, que não se podem ajustar, porque foram vazadas em moldes diferentes e por diferentes maquinistas.

Eu disse que o plano da evolução humana revela pobreza de engenho - e é, em si mesmo, inexplicável.

Foi o que resultou do exame de que vos estou dando notícias - e de que vou exibir os fundamentos.

"O homem é criado para esta vida, neste único mundo, e depois delas, é julgado definitivamente - e remetido para o céu ou para o inferno".

Precisarei demonstrar que isso está abaixo da concepção humana - e tanto que é uma afronta à sabedoria divina atribuir-lho?

Deus criou o espaço infinito, que povoam os astros sem-número; mas deixou tudo mergulhado no silêncio e nas sombras da morte - e concentrou toda a luz - todo o movimento - toda a vida, num dos mais insignificantes planetas do mais imperfeito sistema planetário!

Para que criou os astros, se apenas de um precisava?

Não direi mais nem uma palavra sobre a pobreza deste plano - e passarei a considerar o que ele tem de inexplicável.

"O homem é criado para um fim, pois que Deus nada fez sem alta razão de ser - e esse fim é necessário, deve ser satisfeito, porque a vontade do Eterno não pode ficar sem execução".

Pois bem. Não há em que não morra no ventre materno - logo depois de nascer, ou antes de entrar no exercício de suas faculdades, um sem-número de criaturas humanas.

Essas não preenchem o fim posto à humanidade.

Logo, ou o plano não é perfeito ou a vontade do Criador não é satisfeita.

Ou Deus não é onisciente ou não é onipotente.

Eis a que conduziu o estado da Cosmogonia da Igreja.

"Ela ensina mais: que o Senhor nos dá a vida, para fazermos, nela, por nossa liberdade, mérito ou demérito; de onde, depois dela, o prêmio ou o castigo eterno".

Pois bem. A existência do idiota, que é criado por Deus, como o inteligente desmorona todo esse edifício.

O idiota não tem consciência - nem razão, nem liberdade, nem mesmo o instinto natural do bem. Logo, não pode fazer mérito nem demérito.

O que veio, então, fazer na vida?

E o que há de ser dele depois da morte?

A Cosmogonia da Igreja não pode conciliar este fato com a sua lei, e muito menos com o sumo critério da verdade.

"Ele ensina, por fim, que o Senhor dá o prêmio ou castigo eternos, segundo fizemos boas ou más obras".

Quem não vê, por toda a parte e todos os dias, crianças que, antes de terem o uso da razão e da consciência, manifestam uma natureza boa, ou ruim, uma inteligência lúcida, ou quase impossível de receber cultivo?

***

3a. Parte

Essas disposições não são obra de sua vontade, pois que se manifestam antes da consciência e da razão, e vêm tão encarnadas com o espírito que muitas vezes a educação não pode modificá-las.

Como, então, Deus há de punir aquele a quem deu índole má, porque fez mal - e há de premiar ao que tem índole boa, porque faz bem?

Como há de Ele, que deu naturezas opostas, em relação ao bem - que deu inteligências opostas, para o saber, que é alta condição de salvação, tomar a todos, indistintamente, contas iguais?

Acodem, ainda aqui, os apologéticos, sustentando: que Deus não toma contas iguais; mas que toma-as a cada um na medida do que lhe foi dado.

Não se vê nessa variadíssima disposição da força original uma imperfeição, que é crime de lesa-majestade divina atribuir-lhe?

Senhores. Meu exame foi muito além; mas eu não preciso, nem poderei dar-vos dele uma cópia completa; e por isso limito-me ao que vos tenho exposto perfunctoriamente.

***

Desse exame, precisarei dizê-lo? Resultou-me a dúvida sobre as verdades religiosas - dúvida que, por um processo psicológico natural, embora ilógico, arrastou-me ao ceticismo.

Bossuet atribui ao racionalismo as heresias contra a Igreja - e o reconheci por mim: que não somente essas como até o mais lastimoso dos erros humanos: o materialismo, são a consequência necessária de se trancarem as arcas da religião ao exame dos racionalistas.

A fé cega é tão contrária à natureza do homem que o revolta.

Eu quis substituí-la pela fé esclarecida e caí no estado de descrença.

A razão foi, em primeiro lugar, o crê ou morres da Igreja, e foi, em segundo lugar, a falta de elementos corretivos de certos princípios humanos que se inculcam como divinos.

O espírito esclarecido não pode aceitar o que se lhe dá por verdade - e não tendo além o que seja mesmo verdade; para manter-se na fé, descamba para a incredulidade e cai muita vez no materialismo.

Eu cheguei a esse estado, mas aquela divina Moral e a sublime Teodiceia, que me encantaram, chamavam-me dos abismos para onde me atirou a Cosmogonia romana.

Eu fiquei, senhores na dolorosa posição de Jouffroy(2) e podia repartir com ele "eu era um incrédulo e abominava a incredulidade".

Tanto é verdade que o crer é uma lei de nossa natureza, que a religiosidade é uma propensão invencível da humanidade e que, a religião é, ao mesmo tempo, uma necessidade e um dever do homem.

***

Talvez porque fui ter ao ceticismo, procurando conscienciosamente e de boa vontade a pura verdade, o Pai do Céu usou para comigo de sua misericórdia.

No meio do mais descuidoso cortejo de venturas domésticas, fui rápida e inesperadamente ferido no que mais caro me era ao coração.

E como, no dizer de Cosette (3), raras vezes se é incrédulo chorando junto a um túmulo, a dor arrancou à minha natureza um ato de fé espontâneo contra o qual não há ceticismo possível: - Meu Deus! Meu Deus!

Senti renascer em mim o desejo - a necessidade de crer.

Voltei aos livros sagrados e profanos que me pudessem ser fonte onde saciar a sede.

Lia-os com sofreguidão de quem procura, para além desta vida, uma estrela - uma luz, uma esperança.

Foi na permanência desse sentimento que um amigo ofereceu-me O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec.

Percorri as páginas dessa obra, que ensina uma nova Cosmogonia, e conheci pelo pórtico do majestoso edifício, a mão do Supremo Arquiteto, que traçou o da Moral e o da Teodiceia, que tanto me haviam arrebatado a alma.

Não é que eu encontrasse ali cousa diversa do que já havia lido no Evangelho, em que se funda exclusivamente a nova doutrina, mas é que ela me deu luz para ver o que nunca pude ver.

A Cosmogonia espírita deriva do Evangelho de Jesus Cristo, do mesmo modo como a Cosmogonia deriva da Igreja.

Como, então, perguntar-me-ão: tendo a mesma origem, divergem tanto, que enquanto uma ascende, a outra apaga a fé?

A resposta é simples. O Espiritismo apanha o espírito da doutrina de Jesus, enquanto a Igreja fica aferrada à letra do divino ensino.

O que é certo é que meu espírito ressurgiu das trevas do ceticismo por obra daquela leitura.

***

Agora sim, exclamei possuído de indescritível satisfação. As três peças da máquina ajustam-se perfeitamente, mostrando que tiveram o mesmo fabricante - e que foram vazadas em moldes harmônicos!

Agora desapareceram todos os motivos de dúvidas, que me arrastaram ao ceticismo!

A Cosmogonia espírita exalta o Criador e a criatura humana.

A um porque lhe atribui uma obra excelsa, um plano impossível ao engenho humano.

A outra porque reconhece-lhe a autonomia, como deve ter o rei da criação, a obra-prima do Criador.

O Senhor cria todos os espíritos em igualdade de condições, inocentes e ignorantes.

O Senhor marca a todos o mesmo destino: a perfeição pelo saber e pela virtude, a que se liga o inefável gozo da eterna felicidade.

O Senhor dá a todos para subirem da inocência primitiva à suma virtude, e da ignorância nativa à suma sabedoria, exatamente os mesmos meios.

O Senhor dá a todos para desenvolverem esses meios a mesma liberdade, a ampla liberdade que os constitui senhores absolutos de seu destino.

Igualdade de condições em tudo e para todos.

Se uns se adiantam e outros ficam atrás, culpa é só deles, do modo porque usam de sua liberdade.

Em respeito a esse inestimável dom, o Senhor não marcou prazo para a longa excursão. Cada um toma o que quer.

Como, porém, há tíbios e transviados, o Pai dividiu o longo curso em estações, ou vidas corpóreas, depois das quais castiga-os com penas corretivas, à semelhança do pai terrestre que pune os filhos pelos erros e faltas que cometem, para chamá-los ao bom caminho.

Estas penas servem de correção e de estímulo.

Pluralidade de existências, pelos infinitos mundos que enchem o espaço e penas corretivas, eis o fecho do sublime edifício cosmogônico-espírita, em que o Criador se apresenta ao homem, como o pai amoroso e justo, sem preferências nem exceções.

***

CONCLUSÃO

E não há, nesse plano cosmogônico, tão superior ao engenho humano, quanto é o da Moral e o da Teodiceia, coisa sobrenatural, que nossa razão não possa abraçar.

Ao contrário, tudo nele é tão elevado e ao mesmo tempo tão simples, que não se sabe o que mais admirar: se a sua grandeza majestosa, se o modo como se torna transparente à nossa razão.

Marchamos para o nosso destino - para esse que a razão nos diz ser o único compatível com a bondade e o amor do Pai do céu, escolhendo o caminho - apressando ou demorando o passo, segundo nossa vontade - empregando sempre os meios que nos foram dados, com a mais perfeita liberdade.

Temos os olhos de ver e ouvidos de ouvir, para nos guiarmos por eles - e não para tê-los cerrados, marchando, como um rebanho, por onde e para onde nos queiram levar.

Chegamos ao Pai por nosso próprio esforço, e não por estranho impulso; o que lhe deve ser de sumo agrado.

Esta sublime doutrina tirou de cima de minha alma o pesadelo do sobrenatural e substituiu a fé passiva pela fé consciente.

Nenhuma religião tem este caráter superior - e, portanto, ela assinala a superioridade do Cristianismo espírita.

O blasfemo princípio: de ser o ensino divino dado exclusivamente à um filho, com preterição de outros, dissipa-se à luz da Cosmogonia espírita, que ensina, de perfeito acordo com a razão, e na medida de sua capacidade para suportá-la: sem que fique um só dos espíritos criados privados dela.

Se numa existência, uns tantos, por seu atraso, não poderão recebê-la, tê-lo-ão em ulteriores existências.

Assim, o selvagem americano voltará à Terra em melhores condições de progresso; e então encarnará entre gente que lhe dê o ensino do Cristo.

Não há, pois, essa partilha desigual: do simples instinto do bem a uns e do amplo ensino do céu a outros.

As fantasias da criação de um homem único e da criação dos anjos, com que se representa a Deus, imperfeito e fraco, são substituídas pela criação única de espíritos, que, em suas diversas fases, representam o que hoje se chama: o homem - o anjo - e o demônio.

Anjo é o espírito humano purificado e elevado ao seu maior grau de perfeição.

Demônio é o mesmo espírito, enquanto se acha atrasado e afeiçoado ao mal.

A morte precoce das crianças deixa de ser uma falha no plano da criação ou uma volição frustrada do Criador, desde que o espírito, perdendo, por obra de uma lei natural, o instrumento corpóreo destinado a seu progresso, não fica privado de tomar outro, para realizar esse progresso.

A condição do idiota, na terra, fica perfeitamente explicada: desde que a vida aqui é de expiação. O idiotismo é um de seus modos.

As inclinações boas ou más e as inteligências lúcidas e rudes, dão a medida do adiantamento ou do atraso dos espíritos que as manifestam.

Os espíritos surgem aqui no grau de progresso em que acabaram a última existência, salvo quando têm podido progredir no espaço, ou quando vêm cumprir sentença de expiação.

É assim que o idiota pode ter um espírito, que tenha sido um vulto de grandíssimo saber e que foi condenado a representar um papel ignominioso e humilhante.

***

Em vista do que suscintamente vos tenho exposto sobre a impressão que produziu em minha alma o exame da Cosmogonia da Igreja, e a leitura da Cosmogonia espírita, parece-me dispensável dizer-vos que à dúvida, à descrença, ao ceticismo, substituiu a fé ardente: não essa que não sabe por que crê, puro fanatismo, mas a fé esclarecida pela perfeita compreensão do que fui, do que sou, do que hei de ser.

A Cosmogonia espírita deu-me os elementos corretivos das falhas que notei na da Igreja, e, pois, minha fé, além de esclarecida e consciente, é completa.

Convencido da verdade espírita, que tenho sujeitado ao mais sério exame, e até à experiência, venho em obediência ao preceito do Cristo confessá-lo em público, para que me possa Ele reconhecer em seu reino.

Confesso, pois, a fé cristã segundo o Espiritismo, dando graças a Deus, por ter abalado minhas entranhas, como Moisés abalou a dura rocha, fazendo brotar dela a pura linfa de minhas crenças religiosas.

E acrescentarei que só pude compreender e admirar as excelsas belezas e as incomparáveis grandezas da doutrina do Cristo quando as estudei à luz do Espiritismo.

Aí tendes, meus senhores, a explicação da coragem de que dou prova afrontando o juízo dos que, sem estudo sério de tão superior assunto, atribuem-se, entretanto, o direito de escarnecer dos que se deram a esse trabalho, qualificando-os de loucos ou possessos.

Agora reconhecereis que tive razão de lhes dizer que venho dos antípodas do Espiritismo e de minha exposição verificareis: se houve no meu êxodo a coluna de luz e de nuvens e o maná do céu.

O exórdio foi além da medida que lhe é própria, em vosso prejuízo e dano de minhas forças. Peço perdão desta falta.

Para não rescindir nela seria preciso dar-vos um discurso proporcional, e a tal castigo não quero sujeitar-vos.

Ficai, pois, com o exórdio só, e dar-vos-eis o discurso noutra ocasião.

(Transcrito do volume "Os Bezerra de Menezes e o Espiritismo", de Jorge Damas Martins, Ed. Novo Ser, Cap. 26, com a reprodução integral do texto original, publicado na revista O Reformador, da Federação Espírita Brasileira, em 1886, devidamente revisto e atualizado)

(1) Dr. Bezerra faz aqui referência à expressão latina "felix qui potuit rerum cognoscere causas", que, segundo o Dicionário Priberan, se traduz por "feliz aquele que pôde perscrutar as causas das coisas".

(2) Théodore Simon Jouffroy (06/07/1796-04-02-1842) foi um filósofo francês. Filho de um preceptor, recebeu educação muito religiosa, mas desde a juventude foi influenciado pela leitura de Rousseau e Voltaire. Mais tarde, na Escola Normal, atravessoou uma crise espiritual da qual deixou um relato. - Fonte: Wikipédia

(3) Dr. Bezerra provavelmente faz menção, aqui, à Euphrasie Fauchelevent, mais conhecida como Cosette, uma das personagens principais do romance Os Miseráveis de Victor Hugo. Cosette é apresentada como uma pobre criança amplamente maltratada pelo casal que a acolhe a pedido de Fantine, sua mãe.

Voltar ao topo

ESTUDOS FILOSÓFICOS

Capa do Volume 1 da série Estudos Filosóficos, de Bezerra de MenezesO Patrono de nossa CASA. Bezerra de Menezes, produziu quando encarnado a mais importante coleção de artigos espíritas já publicada em lingua portuguesa. Em cerca de dez anos, entre 1887 e 1899, foram redigidos aproximadamente 480 artigos, publicados sempre nos principais jornais laicos de sua época, nominadamente O Paiz, Gazeta de Notícias, Jornal do Brasil e Gazeta da Tarde. Essa admirável coleção foi reunida a primeira vez em livro em 19071, pela Federação Espírita Brasileira. No final dos anos setenta, do século passado, o confrade Freitas Nobre publicou em dois volumes parte desse material. Mais recentemente a editora FAE foi além e no-lo ofereceu em três substanciosos volumes, com os artigos de 1887 a 1893, mas o restante da coleção, que segue de 1894 a 1898, permanece inédito. Todas as edições citadas praticamente se esgotaram, tornando difícil e às vezes custoso o acesso a esse valioso manancial de estudos doutrinários. Como esse conteúdo é todo do século XIX e, portanto, de domínio público, decidimos transcrevê-lo TODO aqui, em nosso site, em nosso Museu Virtual Bezerra de Menezes. Começamos abaixo, com a publicação do volume I, e pouco a pouco completaremos o trabalho, de modo a ter tudo disponível o mais brevemente possível. Esperamos que apreciem e que nos ajudem na divulgação de mais essa iniciativa. Aos que desejarem conhecer pouco melhor essa Obra de nosso Patrono convidamos também a assistir e participar do grupo de estudo que temos aos quartos sábados de cada mês, das 10,30h às 12hs, quando estudamos metódicamente toda essa série de artigos e mais a obra OS QUATRO EVANGELHOS, de Roustaing. Paz e Bem!

NOTAS:

(1) Texto original alterado. Informações gentilmente oferecidas pelo biógrafo de Dr Bezerra, o escritor e conferencista Jorge Damas Martins.






















BEZERRA DE MENEZES E SUA REENCARNAÇÃO COMO ZAQUEU

A revelação de ter sido Dr. Bezerra, em uma de suas encarnações, Zaqueu, o publicano, personagem das narrações evangélicas de Lucas, no seu capítulo XIX, foi recebida quase simultânamente, aqui no Rio de Janeiro, no início dos anos 60, tanto pela inesquecível Yvone Pereira, durante a psicografia de "Ressurreição e Vida", de autoria do grande escritor russo, Léon Tolstói, quanto pela nossa "antena celeste", Azamôr Serrão, em mensagem psicográfica com o título "Deus é Pai", constante do volume editado por nossa CASA - Antena Celeste. Transcrevemos, abaixo, algumas valiosas mensagens mediúnicas, relativas ao momento da conversão gloriosa de nosso Patrono, pelos valiosos exemplos e ensinos que contêm, para todos nós. Esperamos que apreciem!

O SERVO BOM

Reprodução do quadro de William Brassey Hole (1846-1917 )A condenação das riquezas se firmara no espírito dos discípulos, com profundas raízes, a tal ponto que, por várias vezes, foi Jesus obrigado a intervir de maneira a pôr termo a contendas injustificáveis. De vez em quando, Tadeu parecia querer impor aos assistentes das pregações do lago a entrega de todos os bens aos necessitados; Filipe não vacilava em afiançar que ninguém deveria possuir mais que uma camisa, constituindo uma obrigação tudo dividir com os infortunados, privando-se cada qual do indispensável à vida.

— E quando o pobre nos surge somente nas aparências? replicava judiciosamente Levi. Conheço homens abastados que choram na coletoria de Cafarnaum, como miseráveis mendigos, apenas com o fim de se eximirem dos impostos. Sei de outros que estendem as mãos à caridade pública e são proprietários de terras dilatadas. Estaríamos edificando o Reino de Deus, se favorecêssemos a exploração?

Tudo isso é verdade — redarguia Simão Pedro. — Entretanto, Deus nos inspirará sempre, nos momentos oportunos, e não é por essa razão que deveremos abandonar os realmente desamparados.

Levi, porém, não se dava por vencido e retrucava:

— A necessidade sincera deve ser objeto incessante de nosso carinhoso interesse; mas, em se tratando dos falsos mendigos, é preciso considerar que a palavra de Deus nos tem vindo pelo Mestre, que nunca se cansa de nos aconselhar vigilância. É imprescindível não viciarmos o sentimento de piedade, a ponto de prejudicarmos os nossos irmãos no caminho da vida.

O antigo pobrador de impostos expunha, assim, a sua maneira de ver; mas Filipe, agarrando-se à letra dos ensinos, replicava com ênfase:

— Continuarei acreditando que é mais fácil a passagem de um camelo pelo fundo de uma agulha do que a entrada de um rico no Reino do Céu.

Jesus não participava dessas discussões, porém sentia as dúvidas que pairavam no coração dos discípulos e, deixando-os entregues aos seus raciocínios próprios, aguardava oportunidade para um esclarecimento geral.

***

Reprodução do quadro de Pietro Mônaco (1707-1772), Conversão de ZaqueuPassava-se o tempo e as pequenas controvérsias continuavam acesas.

Chegara, porém, o dia em que o Mestre se ausentaria da Galileia para a derradeira viagem a Jerusalém. A sua última ida a Jericó, antes do suplício, era aguardada com curiosidade imensa. Grandes multidões se apinhavam nas estradas.

Um publicano abastado, de nome Zaqueu, conhecia o renome do Messias e desejava vê-lo. Chefe prestigioso na sua cidade, homem rico e enérgico, Zaqueu era, porém, de pequena estatura, tanto assim que, buscando satisfazer ao seu vivo desejo, procurou acomodar-se sobre um sicômoro, levado pela ansiosa expectativa com que esperava a passagem de Jesus. Coração inundado de curiosidade e de sensações alegres, o chefe publicano, ao aproximar-se o Messias, admirou-lhe o porte nobre e simples, sentindo-se magnetizado pela sua indefinível simpatia. Altamente surpreendido, verificou que o Mestre estacionara a seu lado e lhe dizia com acento íntimo:

— Zaqueu, desce dessa árvore, porque hoje necessito de tua hospitalidade e de tua companhia.

Sem que pudesse traduzir o que se passava em seu coração, o publicano de Jericó desceu de sua improvisada galeria, possuído de imenso júbilo. Abraçou-se a Jesus com prazer espontâneo e ordenou todas as providências para que o querido hóspede e sua comitiva fossem recebidos em casa com a maior alegria. O Mestre deu o braço ao publicano e escutava, atento, as suas observações mais insignificantes, com grande escândalo da maioria dos discípulos. “Não se tratava de um rico que devia ser condenado?” — perguntava Filipe a si próprio. E Simão Pedro refletia intimamente: — “Como justificar tudo isto, se Zaqueu é um homem de dinheiro e pecador perante a lei?”

A breves instantes, porém, toda a comitiva penetrava na residência do publicano, que não ocultava o seu contentamento inexcedível. Jesus lhe conquistara as atenções, tocando-lhe as fibras mais íntimas do Espírito, com a sua presença generosa. Tratava-se de um hóspede bem-amado, que lhe ficaria eternamente no coração.

Foto de um sicômaro, à semelhança daquele de que se serviu Zaqueu para visualizar a JesusAproximava-se o crepúsculo, quando Zaqueu mandou oferecer uma leve refeição a todo o povo, em sinal de alegria, sentando-se com Jesus e os seus discípulos sob um vasto alpendre. A palestra versava sobre a nova doutrina e, sabendo que o Mestre não perdia ensejo de condenar as riquezas criminosas do mundo, o publicano esclarecia, com toda a sinceridade de sua alma:

— Senhor, é verdade que tenho sido observado como um homem de vida reprovável; mas, desde muitos anos, venho procurando empregar o dinheiro de modo que represente benefícios para todos os que me rodeiem na vida. Compreendendo que aqui em Jericó havia muitos pais de família sem trabalho, organizei múltiplos serviços de criação de animais e de cultivo permanente da terra. Até de Jerusalém, muitas famílias já vieram buscar, em meus trabalhos, o indispensável recurso à vida!...

— Abençoado seja o teu esforço! - replicou Jesus, cheio de bondade.

Zaqueu ganhou novas forças e murmurou:

Os servos de minha casa nunca me encontraram sem a sincera disposição de servi-los.

— Regozijo-me contigo, — exclamou o Messias —, porque todos nós somos servos de Nosso Pai.

O publicano, que tantas vezes fora injustamente acusado, experimentou grande satisfação. A palavra de Jesus era uma recompensa valiosa à sua consciência dedicada ao bem coletivo. Extasiado, levantou-se e, estendendo ao Cristo as mãos, exclamou alegremente:

— Senhor! Senhor! tão profunda é a minha alegria, que repartirei hoje, com todos os necessitados, a metade dos meus bens e, se nalguma coisa tenho prejudicado a alguém, indenizá-lo-ei, quadruplicadamente.

Jesus o abraçou com um formoso sorriso e respondeu:

— Bem-aventurado és tu que agora contemplas em tua casa a verdadeira salvação.

Vitrau da Igreja do Bom Pastor, em Jericó - Zaqueu recebe a JesusAlguns dos discípulos, notadamente Filipe e Simão, não conseguiam ocultar suas deduções desagradáveis. Mais ou menos aferrados às leis judaicas e atentando somente no sentido literal das lições do Messias, estranhavam aquela afabilidade de Jesus, aprovando os atos de um rico do mundo, confessadamente publicano e pecador. E como o dono da casa se ausentasse da reunião por alguns minutos, a fim de providenciar sobre a vinda de seus filhos para conhecerem o Messias, Pedro e outros prorromperam numa chuva de pequeninas perguntas: Por que tamanha aprovação a um rico mesquinho? As riquezas não eram condenadas pelo Evangelho do Reino? Por que não se hospedarem numa casa humilde e, sim, naquela vivenda suntuosa, em contraposição aos ensinos da humildade? Poderia alguém servir a Deus e ao mundo de pecados?

O Mestre deixou que cessassem as interrogações e esclareceu com generosa firmeza:

— Amigos, acreditais, porventura, que o Evangelho tenha vindo ao mundo para transformar todos os homens em miseráveis mendigos? Qual a esmola maior: a que socorre as necessidades de um dia ou a que adota providências para uma vida inteira? No mundo vivem os que entesouram na Terra e os que entesouram no Céu. Os primeiros escondem suas possibilidades no cofre da ambição e do egoísmo e, por vezes, atiram moedas douradas ao faminto que passa, procurando livrar-se de sua presença; os segundos ligam suas existências a vidas numerosas, fazendo de seus servos e dos auxiliares de esforços a continuação de sua própria família. Estes últimos sabem empregar o sagrado depósito de Deus e são seus mordomos fiéis, à face do mundo.

Os apóstolos ouviam-no, espantados. Filipe, desejoso de se justificar, depois da argumentação incisiva do Cristo, exclamou:

— Senhor, eu não compreendia bem, porque trazia o meu pensamento fixado nos pobres que a vossa bondade nos ensinou a amar.

— Entretanto, Filipe — elucidou o Mestre —, é necessário não nos perdermos em viciações do sentimento. Nunca ouviste falar numa terra pobre, numa árvore pobre, em animais desamparados? E acima de tudo, nesses quadros da natureza a que Zaqueu procura atender, não vês o homem, nosso irmão? Qual será o mais infeliz: o mendigo sem responsabilidade, a não ser a de sua própria manutenção, ou um pai carregado de filhinhos a lhe pedirem pão?

Como André o observasse, com grande brilho nos olhos, maravilhado com as suas explicações, o Mestre acentuou:

— Sim, amigos! ditosos os que repartirem os seus bens com os pobres; mas, bemaventurados também os que consagrarem suas possibilidades aos movimentos da vida, cientes de que o mundo é um grande necessitado, e que sabem, assim, servir a Deus com as riquezas que lhes foram confiadas!

***

Em seguida, Zaqueu mandou servir uma grande mesa ao Senhor e aos discípulos, onde Jesus partiu o pão, partilhando do contentamento geral. Impulsionado por um júbilo insopitável, o chefe publicano de Jericó apresentou seus filhos a Jesus e mandou que seus servos festejassem aquela noite memorável para o seu coração.

Nos terreiros amplos da casa, crianças e velhos felizes cantaram hinos de cariciosa ventura, enquanto jovens em grande número tocavam flautas, enchendo de harmonias o ambiente.

Foi então que Jesus, reunidos todos, contou a formosa parábola dos talentos, conforme a narrativa dos apóstolos, e foi também que, pousando enternecido e generoso olhar sobre a figura de Zaqueu, seus lábios divinos pronunciaram as imorredouras palavras: “Bem-aventurado sejas tu, servo bom e fiel!”

(Capítulo 23 do volume "Boa Nova", de Humberto de Campos, psicografado por Francisco Cândido Xavier, ed. FEB)

Voltar ao topo

ZAQUEU, O RICO DE HUMILDADE

O Chamado de Zaqueu - Painel Ortodoxo RussoSegregados, os publicanos ou arrecadadores de impostos constituíam classe detestável, vivendo sob chuvas de ódios e sarcasmos.

O pão, adquirido com o suor da aflição, carreava a angústia daqueles que estavam constrangidos ao resgate das pesadas taxas, impostas pelas hostes vitoriosas que dominavam Israel.

Jericó era um centro de atividades comerciais e urbe famosa, que hospedara Cleópatra, no passado, a qual se encantara com seu leve, perfumado ar.

Embelezada por Herodes e Arquelau, o seu casario suntuoso e suas vivendas palacianas de mármore destacavam-se pela austeridade e beleza de linhas.

Situada um pouco sobre o vale do Jordão, beneficiava-se, nos dias tórridos, com as lufadas e a brisa fresca e nos dias frios a temperatura mantinha-se agradável sem quedas baixas.

Conhecida por seu centro comercial, era escolhida pelos negociantes, cambistas, peregrinos e caravanas que demandavam os diversos países do Oriente, recendendo, ao entardecer, o aroma das rosas abundantes, espalhadas em toda parte.

Campos e relvados eram sombreados por sicômoros, romãzeiras, amendoeiras e salpicados por flores de vermelho forte e amareladas, em tons de ouro. Suas rechãs cobertas de trigos e canas-de-açúcar rivalizavam em esplendor com as plataformas coloridas pela balsamina abundante que lhe oferecia um ar de beleza risonha e primaveril. As tamareiras, as mais célebres de Israel, produziam três espécies distintas, e suas tâmaras possuíam o dulcíssimo sabor de mel.

Sua alfândega regurgitava, e os negócios atingiam altas e expressivas somas.

Jericó, esplendente e de economia pujante, era rota para Jerusalém...

***

São Zaqueu - Ícone cristão ortodoxoZaqueu adquirira, com a vitória em hasta pública, o direito à arrecadação dos impostos, em Jericó, e com eles a herança amaldiçoada que os acompanhava.

Residindo em suntuoso palacete, amealhara alto cabedal de moedas, adornando o reduto doméstico com obras de arte vindas de muitos países e se cercara de luxo, de modo a encher de bens externos o vazio do coração, por saber-se detestado por toda a cidade.

De índole afável, no entanto, justificava o ofício com a explicação de que não eram poucos os filhos de Israel que o disputavam diante dos emissários de César.

Quanto possível, procurava dissipar as nuvens carregadas de malquerença e animosidade que lhe sombreavam os dias.

Tentativas e tentativas, porém, redundavam inúteis.

Redobrava esforços e o descoroçoamento era desanimador.

Escutava, algo irritado, as ameaças escapadas entre dentes, daqueles que se viam obrigados a liberar-se do infamante dever de pagar o tributo a César, através dele...

De estatura baixa, o que lhe somava mais aflição às angústias, e gordo, Zaqueu era o espécime vivo característico da idiossincrasia da cidade.

Muitas vezes, acarinhando os filhinhos, atormentado, considerava, o Publicano, o futuro, e alinhava planos.... Quando possuísse muitos bens e pudesse abandonar a ignóbil tarefa, deixaria a cidade, recomeçaria vida nova, longe de Jericó, muito longe... O sorriso aflorava-lhe aos lábios e a esperança mal dominada emoldurava-lhe o coração, dava-lhe forças para resistir a todas as dores tormentosas do momento. O futuro pertencia-lhe. Bastava, somente, esperar...

Zaqueu ouvira falar de Jesus.

As notícias que lhe chegaram aos ouvidos mais pareciam uma mensagem de amor, cantando esperanças. Parecia-lhe irreal que alguém pudesse amar tanto. Também ele tinha sede de amor. Ansiava por afeição, amigos.... Faziam-lhe falta as orquestrações sonoras da amizade, os largos sorrisos do entendimento e da compreensão.

A informação de que Ele comia com pecadores e até palestrava com os publicanos, fê-lo chorar interiormente. E as lágrimas aljofraram mais fortes, quando seus auxiliares, na alfândega, disseram, com segurança, que entre os que O seguiam com ardor, um havia, publicano também, que Ele arrancara de uma Coletoria...

Admiração e afeto empolgaram Zaqueu por aquele Desconhecido!

Às vezes, meditando, anelava vê-lO, ouvi-lO, conversar com Ele. No imo acreditava que Ele fosse o Messias.

Sua palavra viajava no ar; Seus feitos eram de todos, em todo lugar conhecidos.

Amavam-nO os infelizes, os deserdados de esperança, os espezinhados, os prolletari. Odiavam-nO os que O temiam, porque n'Ele reconheciam o Salvador!

***

Conversão de Zaqueu - Ilustração de Arthur O. ScottBartimeu, o cego, vivia em Jericó desde quando Zaqueu podia recordar. Com a escudela miserável, mendigava pelas ruas e nas estradas.

Na Alfândega, com frequência, Zaqueu o socorria. Gostava de atender a miséria, amenizar a dor, ele que sabia o travo da soledade. Esses, os sofredores, não lhe denegavam a moeda amiga, que os puritanos e zelosos da Lei recusavam ofertar, guardando no semblante de falsa pureza a expressão constante de asco...

Bartimeu, cego e desprezado, tinha algo em comum com ele, Zaqueu: a soledade em que caminhavam ambos, no meio do povo.

Em pleno março do ano 30, em certo entardecer, Jericó tomara aspecto festivo. Desde há alguns dias, a cidade hospedava peregrinos que demandavam a Páscoa, que seria celebrada com toda a pompa, em Jerusalém.

No entanto, àquela tarde, o movimento era inusitado.

Falavam que o Rabi arrancara Bartimeu à cegueira e que o antigo infeliz se adentrara pela cidade, após vencida a Porta, entoara hosanas e exibira os claros olhos banhados de indefinível luz.

Milagre!—,exclamavam uns.

Farsa! —,bradavam, coléricos, outros.

Todos queriam falar ao ex-cego, informar-se.

O tumulto se fazia natural na algaravia desordenada a que todos se entregavam, quando alguém gritou com voz estertorada: “Eis que o Rabi Galileu se aproxima e logo mais chegará à cidade!"

Houve uma explosão emocional na alma de Zaqueu. Mal se podia conter.

O Esperado chegava!

Este era o seu momento; o mais precioso momento da vida.

Necessitava fitá-lO.

Não ousaria falar-Lhe, é certo, no entanto...

Se perdesse a ocasião, nunca mais, oh! certamente, teria outra!

Sôfrego, com o suor álgido a escorrer em bagas, pôs-se a correr e, - perdendo até a postura de dignidade que a si mesmo se impunha, - seguiu correndo na direção da porta da cidade.

A Conversão de Zaqueu - Ilustração Alemã - Século 18A multidão se adensava pela via.

Era imperioso vê-lO, vê-lO apenas, vê-lO passar.

Agoniado, sob o domínio de mil inquietações, de relance — sabendo-se impossibilitado de vislumbrá-lO sequer, pois que, baixo, não podia olhá-lO, obstaculado pelos que se postavam à frente, à orla da estrada; e, detestado, náo encontraria quem lhe cedesse lugar, - enxergou velho e vetusto sicômoro de fácil acesso, e desgalhado por sobre o caminho. As raízes alteavam-se, rugosas e curvas, acima do solo.

O Publicano não titubeou; avançou, resoluto, e galgou a árvore.

Viu o Mestre, sereno, que avançava, acompanhado pelo povo.

Gritos e exclamações espocavam em ovação ao estranho Caminhante, que parecia envolto em diáfana claridade...

Zaqueu deixou que a voz estrangulada na garganta irrompesse cristalina e, sem o perceber, uniu-se ao entusiasmo geral, tocado de entusiasmo também.

Como era belo o Rabi! Jamais vira beleza igual àquela, cheia de majestade e transparência!

O Senhor estacou o passo junto ao sicômoro e fitou Zaqueu.

Foi rápido; no entanto, naquele momento, toda a vida do cobrador de impostos lhe perpassou fulminante pela tela do pensamento.

Reviu-se....

— Zaqueu — falou o Visitante Sublime — desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa.

Não podia ser verdade. Sonhava! Zumbido forte nos ouvidos e torpor na mente dominavam-no. “Desce depressa”, gritava-lhe firme o Espírito.

O homem escorregou figueira abaixo, transfigurado pela emoção, a sós, esquecido de tudo, como se flutuasse no ar embalsamado do entardecer. Desejou sorrir, protestar aquiescência. Não pôde, nada podia dizer ou fazer.

O cérebro parecia sofrer uma brasa viva a arder.

Sabia-se rico - e os ricos eram detestados.

Publicano - e a Lei mosaica o condenava.

Reconhecia-se indigno — e Israel não o perdoaria nunca...

Mas a Voz continuava a ordenar: “hoje me convém pousar em tua casa.”

Rompeu o torpor e demandou o lar. Era indispensável preparar a recepção.

As lágrimas desatavam nos seus olhos cansados e o coração estuava, após tão longa solidão. A esposa, a ele abraçada, chorava também.Procurava uma forma de apequenar-se na grandeza da casa luxuosa, engrandecer-se na pequenez em que a aflição o colocava, para receber o Rabi, o Amigo Único...

É quase noite.

Uma fímbria de ouro forte borda os montes de luz, no poente, e derrama um leque de plumas irisadas que adornam ligeiras nuvens passantes...

À porta da casa, com a família reunida, emocionado, Zaqueu aguarda.

Teme, porém, que o Rabi não lhe adentre o lar.

Não se sente digno de hospedá-lO, mas tudo daria para receber tal honra.

— Senhor! —, exclama alguém. — Pernoitarás na casa desse publicano?...

Zaqueu e Pedro em Cesareia = Painel ortodoxoPublicano! Espoca a palavra aos ouvidos de Zaqueu. A marca insculpe no dorido e ansioso coração de Zaqueu, a dor, em fogo!

— Senhor, — tartamudeia o arrecadador das taxas — eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado. Entra na minha casa!

Não pôde continuar, pois que, lívido e afásico, momentaneamente, foi dominado por inextricável comoção.

Jesus sorriu, um riso leve e bom como um hausto de amor.

— Hoje — disse suave — veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão. Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido.

Após uma pausa, em que se ouviam as murmurações da noite chegando, o Senhor narrou a inconfundível parábola das dez minas, tomando, como imagem preliminar, o príncipe israelita Arquelau, que “partiu para uma terra remota, a fim de tomar para si um reino e voltar depois”...

Zaqueu apequenou-se e engrandeceu-se.

Submeteu-se à humilhação, e glorificou-se na humildade.

Contam narradores dos eventos evangélicos, que transcorridos muitos anos após a epopeia da Cruz, por solicitação de Simão Pedro, o antigo publicano foi dirigir florescente igreja cristã em terras de Cesaréia, rico de amor e humildade, dirigido por Jesus...

(Amélia Rodrigues, por Divaldo Franco, em "Primícias do Reino", Cap. 15)

Voltar ao topo

O REINO DE DEUS

Ilustração sobre a vida de Zaqueu, o publicanoTendo-lhe feito os fariseus esta pergunta: “Quando virá o reino de Deus?” Respondeu-lhes Jesus: “O reino de Deus não virá com mostras exteriores. Nem dirão: Ei-lo aqui; ou: Ei-lo acolá. Porque eis que o reino de Deus está dentro de vós”.(Lucas, 17:20 e 21)

E, tendo entrado em Jericó, atravessava Jesus a cidade. E vivia nela um homem chamado Zaqueu, e era ele um dos principais entre os publicanos, e pessoa rica. E procurava ver Jesus, para saber quem era, mas não o podia conseguir, por causa da muita gente, porque era pequeno de estatura. E correndo adiante subiu a um sicômoro para o ver, porque por ali havia Ele de passar. E quando Jesus chegou àquele lugar, levantando os olhos, ali o viu, e lhe disse: “Zaqueu, desce depressa, porque importa que Eu fique hoje em tua casa”. E desceu ele a toda pressa, e recebeu-o satisfeito. Vendo isso, todos murmuravam, dizendo que tinha ido hospedar-se em casa de um homem pecador. Entretanto, Zaqueu, posto na presença do Senhor, disse-lhe: “Senhor, eu estou para dar aos pobres metade dos meus bens, e naquilo em que eu tiver defraudado alguém, pagar-lhe-ei quadruplicado”. Ao que lhe disse Jesus: “Hoje entrou a salvação nesta casa, porque este também é filho de Abraão. Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido”. (Lucas, 19:1 a 10)

Eu trouxera para a vida do Além o desejo sincero de aprender a amar e servir o meu próximo. Creio mesmo que nos últimos tempos de minha vida intuições protetoras, bondosamente alimentadas por amigos celestes, que se compadeciam do meu pesar por não me haver sido possível ser tão fraterno para com os outros, como o desejara, falavam-me de rumos novos que deveria tomar, bem diversos daqueles que a sociedade viciosa do meu tempo me apontara.

Carreguei para o túmulo esse pesar. E esse pesar se acentuou aquém do túmulo e se transformou em aflição. Em vergonha depois. E em remorso. Compreendi por isso que, além dos umbrais da morte, o mérito que se nos permite é aquele que o amor confere. E eu, que desejara amar, sem realmente ter amado; que fora rancoroso quando devera ser brando de coração; que usara da impaciência e do desdém — quantas vezes?! — onde se recomendariam a ternura e o interesse complacente, entendi que nada sabia, que nada fizera de bom e que urgia reaprender tudo o que uma alma necessita para a reabilitação de si mesma ante o próprio conceito.

Um dia (direi um dia para que os homens me entendam, porque nestas plagas espirituais não se poderá expressar assim, visto que se desconhecem os dias e as noites, para somente se integrar a mente no eterno momento), um dia roguei, Àquele que é, a piedade de me proporcionar ensejos de um aprendizado de legítimo amor ao próximo, mas um aprendizado que saciasse a minha alma até as suas remotas fibras, fazendo desaparecer o complexo da ideia do desamor em que me considerava ter vivido.

Foto de Léon TolstoiPus-me a “passear” pelo Espaço ilimitado, pensativo e compungido, e por vezes recordando meus antigos passatempos pela floresta de Iasnaia-Poliana, ao passo que confabulava com a própria consciência, estabelecendo resoluções definidas e programas urgentes.

Havia pouco tempo que abandonara aos vermes aquilo que fora a minha personalidade social humana, a mente, afeita desde o berço às paisagens russas, figurava para si própria os quadros habituais de minha terra natal: estepes geladas a se confundirem com o horizonte, onde o vento soprava levantando a neve, para reuni-la em montículos que se multiplicavam a perder de vista; as aldeias com suas isbás, movimentadas pelo trabalho dos moradores sempre preocupados com suas lides; o gado rumorejando à hora do repouso; as camponesas palrando ou cantarolando ao recolherem as roupas que secavam ao vento desde manhã; os trenós e as troikas(1) regressando com seus nédios proprietários, bem aquecidos e ainda mais tranquilos sob suas peliças, depois de vencerem 5 ou 8 verstas(2), satisfeitos com os resultados de suas compras e vendas...

Mas de súbito tudo mudou.

Vi-me perdido em campo azul-pálido, lucilante de uma aurora cujo resplendor matizava de doces coloridos a região imensa. E acolá, sentado, meditativo, como a contemplar algo que eu era impotente para também distinguir, entrevi um vulto atraente, cujo aspecto me surpreendeu. Dir-se-ia encontrar-me em presença de um daqueles discípulos do Nazareno, daqueles que, no anonimato, o seguiam em suas idas e vindas pelos contrafortes da Judeia e as planícies de trigo da Galileia.

Reparando de mais perto, e mais atentamente, compreendi que o vulto discursava para a pequena assembleia de ouvintes sentados pelo chão, à sua volta, como de uso no Oriente, e como se concedesse uma entrevista ou uma aula. Em derredor, estendia-se um panorama oriental recordando as descrições bíblicas. Veio-me a impressão de que o tempo recuara dois milênios, transportando-me, sem que eu o percebesse, à Galileia da época da peregrinação do Senhor por suas paragens.

A luz da aurora, inalterável, incidia suavemente sobre o grupo e a pradaria em torno, com irradiações de madrepérola esbatendo claros e sombras tão singulares que eu desafio, a todos os artistas que têm passado pela Terra, a reproduzirem em suas telas um só daqueles celestes reflexos que então tive a ventura de contemplar.

Aproximei-me de mansinho do grupo entrevisto, discreto, algo curioso. E me considerei discípulo daquele provável mestre, como os outros que o rodeavam. E eis o que ouvi e presenciei:

Ilustração sobre a vida de Zaqueu, o publicano— Retornaremos a qualquer momento para nova experimentação terrena, mestre Zaqueu... Fala-nos de ti mesmo, dos tempos apostólicos, das pregações do Nazareno expondo a sua Boa Nova, que provavelmente ouviste... Seria de muito bom proveito que levássemos detidos nas comportas da consciência, algo estimulante, deslumbrador, desse tempo... para que, uma vez nos sentindo novamente homens, pouco a pouco se fossem destilando, pelos escapamentos da intuição, essas lições salvadoras que sabes contar, à guisa de reminiscências levadas deste plano espiritual em que nos encontramos... — rogaram sorrindo os discípulos, todos atraentes personagens, muito agradáveis de ver.

Sobressaltei-me.

“Zaqueu?...” — pensei. — “Mas seria aquele que subiu ao sicômoro, quando o Senhor entrava em Jericó, para vê-lo passar?... Seria aquele em cuja casa Jesus se hospedara? que oferecera ao Mestre um festim, enquanto o reino de Deus fora mais uma vez ensinado aos de boa vontade, entre os convivas?... Seria possível, mesmo, que eu me encontrasse em presença de um Espírito que fora publicano ao tempo do Senhor, na Judeia; que viesse a conhecer alguém que, por sua vez, houvera conhecido a Jesus Cristo?...”

Excitado, aproximei-me ainda mais. Pus-me à sua frente, sentado como os outros, a olhar para ele.

Ao que observava, aquela sociedade retratava uma democracia modelar, superior em moral e fraternidade mesmo à que eu sonhara outrora para a Rússia e o mundo, nas horas de desesperança, quando observava o mal perseguindo o bem, a força dominando o direito, a treva sobrepondo-se à luz. Eu chegava ali sem credenciais, sem apresentações. Sentava-me entre todos, confiante, como se compartilhasse benefícios da casa paterna entre irmãos. Imiscuía-me para junto do mestre que discursava e ninguém me censurava a impertinência, não me pediam satisfações pela intromissão. Mais tarde eu soube que, se tal acontecia, era devido a mera questão de afinidades. Somente o fato de havermos todos gravitado para aquele plano valeria pela credencial, que outra não era senão aquela mesma. Quem estivesse ali, estava porque poderia e deveria estar. Mais nada. Eu estava ali. Devia estar. No Além não existem dubiedades nem meias medidas. O que é, é! E era por isso que ninguém me enxotava de junto do mestre que discursava. Eu tinha direitos de estar junto daquele mestre. E estava.

Gravura de Zaqueu, o PublicanoOlhei-o, àquele a quem haviam chamado Zaqueu. Semblante sereno, bondoso, enternecido, ainda jovem. Olhos cintilantes e perscrutadores, como alimentados por uma resolução invencível. Lábios finos, queixo estirado, com pequena barba negra em ponta, recordando o característico fisionômico dos varões judaicos. Tez alva, sobrancelhas espessas, mãos pequenas, pequena estatura, coifa discreta, listrada em azul forte e branco, manto azul forte, barrado de galões amarelos e borlas na ponta — eis a materialização do homem que teria sido, há dois mil anos, aquele Espírito que assim mesmo se apresentava a seus ouvintes do mundo espiritual, disposto a cativá-los por meio da “regressão da memória” a essa personalidade remota que tivera sobre a Terra.

Confesso que durante meus antigos estudos sobre o Evangelho nutrira grande simpatia por essa personagem que vemos, nas páginas santas, admiradora incondicional de Jesus, dotada de inclinações generosas a serviço do próximo, desejando repartir entre a pobreza parte da própria fortuna, desinteresse raro em qualquer tempo, sobre a Terra. Eu a entrevia, então, pelos versículos de Lucas, um caráter profundamente terno, simples, um idealista disposto ao auxílio aos semelhantes, não obstante tratar-se de pessoa que, embora poderosa e influente na localidade em que vivia, como chefe dos cobradores de impostos que era, se via, por isso mesmo, repelida e moralmente estigmatizada por aquela sociedade preconceituosa. E foi com o coração excitado por todos os raciocínios consequentes de tais lembranças que a ouvi atender à solicitação dos discípulos:

— A bondade do Mestre galileu, honrando-me com uma visita e uma refeição em minha casa, eu, um renegado pela sociedade porque um publicano, tocou-me para sempre o coração, meus amados, conforme sabeis... — ia ele dizendo. — Ele compreendeu as minhas necessidades morais de estímulo para o bem, o meu aflitivo desejo de ser bom. Penetrou, com sua solicitude inesquecível, os mais remotos escaninhos do meu ser moral; contornou, com seu amor de arcanjo, todas as aspirações do meu Espírito, filho de Deus, que sofria por algo sublime que lhe aclarasse as ações... E conquistou-me assim, por toda a consumação dos séculos...

“Muito sofri e chorei quando esse Mestre foi levantado no suplício da cruz. Não, eu não o abandonei jamais, desde aquele dia em que passou por Jericó! Segui-o. E o pouco que ainda viveu depois disso teve-me em suas pegadas para ouvi-lo e admirá-lo. Eu não me ocultei das autoridades, receando censuras ou prisão, nem tive preconceitos, e tampouco me importunou a vigilância dos tiranos de Roma ou o despeito dos asseclas do Templo de Jerusalém. Achava-me bem visível entre o povo, transitando pelas ruas, embora ignorado, humilhado pela minha condição de funcionário romano... e assisti aos estertores da agonia sublime, naquela tarde do 14 de Nisan... Soube, é certo, da ressurreição que a todos revigorou de esperanças... Mas não logrei tornar a ver e ouvir o Mestre, não fui bastante merecedor dessa ventura imensa... Ele só se apresentou, depois da ressurreição, aos discípulos — homens e mulheres — e aos Apóstolos...

“Inconsolável por sua ausência e sentindo em mim um vazio aterrador, meu recurso para não desesperar ante a saudade e o pesar pelo desaparecimento desse Amigo incomparável foi insinuar-me entre seus discípulos, a fim de ouvir falarem dele...

“Fui a Betânia, quantas vezes?!... e tentei tornar-me assíduo da granja de Lázaro, de tão gratas recordações... Mas tudo ali estava tão mudado e tão triste, depois do 14 de Nisan...

“No entanto, ali, na granja de Lázaro, sob o frescor das figueiras viçosas que Marta plantara; à luz do luar, junto das oliveiras que farfalhavam docemente, ao impulso das virações que desciam do Hermon; no próprio pátio onde rescendiam os lírios que Maria plantara, perdido entre o anonimato dos forasteiros que acorriam a Betânia quando ali o sabiam hospedado, eu ouvira pregações do Mestre pouco antes da sua morte, saciando-me até a alegria e o deslumbramento com as palavras daquela doutrina que Ele concedia ao povo, o qual ignorava que a dois passos se ergueria a cruz, arrebatando-o da nossa vista...

Cristo na casa de Zaqueu - Flemish, 1590-1622“Visitei Pedro, esperando consolar a minha grande dor ouvindo-o dissertar sobre aquele que se fora do alto do Calvário, com a eloquência com que sempre soube arrebatar as multidões.

“Perlustrei, choroso e desarvorado, as praias de Cafarnaum e de Genesaré, sem saber o que tentar em meu próprio socorro, mas esperançado de que os irmãos Boanerges, filhos de Zebedeu, me compreendessem e adotassem para discípulo do seu bando, como eu via que acontecia a tantos outros...

“Mas nenhum deles sequer prestava atenção em minha insignificante pessoa... Não me olhavam, não me viam, e eu temia importuná-los dirigindo-lhes a palavra... Eram tantos os pretendentes ao aprendizado do amor, ao redor deles! Eles tinham tantas preocupações, preparando- -se chocados, para o heroico apostolado!... E como eu era publicano, um malvisto cobrador de impostos da alfândega romana, convenci-me, erroneamente, de que era por isso que não me recebiam, não obstante saber que entre os doze principais havia também um publicano, o qual fora diretamente convidado pelo próprio Nazareno...

“Recolhi-me então à minha mágoa imensa, sem, todavia, deixar de seguir, discretamente, os Apóstolos, orando para que não tardasse o socorro a vir fortalecer a fé e a esperança que eu depositava naquele Reino de Deus que havia de vir, Reino cujas leis me fora dado entrever do verbo e das ações do próprio Messias esperado pelos homens de Israel.

“Recolhi-me, mas não desanimei.

“Continuava percebendo que aquele amor que, um dia, não se diminuíra em visitar minha casa, sentar-se à minha mesa e repousar sob o meu teto, continuava incentivando-me, prolongando suas atenções em torno dos meus passos. No fim de pouco tempo, de tanto ouvir as pregações dos seus Apóstolos e dos outros setenta — fosse pelas sinagogas, aos sábados, pela praias e praças públicas ou pelos domicílios domésticos dos santos, então frequentados pelos outros santos — eu aprendera os pormenores da doutrina já exposta pelo Senhor.

“Por esse tempo, eu deixara Jericó, desligara-me das funções aduaneiras, dera parte dos meus bens aos pobres, conforme prometera a Jesus, provera, com a outra parte, recursos para minha família, distribuíra minhas terras entre os camponeses mais necessitados, reservando o estritamente necessário à minha manutenção pelos primeiros tempos. Fizera-me errante e vagabundo para acompanhar os discípulos e ouvi- -los contar às multidões as conversações íntimas que o Senhor entretivera com eles, antes do Calvário e depois da gloriosa ressurreição.

“Como eu conhecesse bem as letras e as matemáticas, falando mesmo o grego, tão usado em Jerusalém, e também o latim, igualmente usado graças à influência romana, à parte os nossos dialetos da Síria, da Galileia e da Judeia, se me escasseavam recursos apresentava-me às escolas mantidas pelas sinagogas. Empregava-me ali como adjunto dos escribas, para as lições aos jovens, ou então nas casas particulares ricas, como professor, e assim ganhava meu sustento. Se não houvesse lições a transmitir era certo que nunca faltariam madeiras a serrar, aqui ou ali; águas a carregar, a fim de saciar a sede das famílias; paredes a reparar nas casas dos romanos, os quais, se eram agressivos no trato pessoal com o povo hebreu, sabiam, no entanto, remunerar com justiça aqueles que os serviam, desde que não se tratasse de escravos.

* * *

Cristo na casa de Zaqueu - Flemish, 1590-1622“Um dia — foi em Jerusalém — correra a nova sensacional de que certo jovem fariseu, responsável pelo apedrejamento e morte do nosso querido Estevão, a quem o Espírito do Senhor inspirava com tantas glórias, acabara por se converter à Causa, porque o Senhor lhe aparecera em ressurreição triunfante, exatamente quando ele entrava na cidade de Damasco, para onde se dirigia tencionando prender os nossos santos domiciliados naquela localidade. Aparecera-lhe o Senhor e convidara-o diretamente para o seu ministério, como o fizera aos outros doze, antes de sua paixão e morte. E que, agora, já inteiramente submisso aos desejos do Mestre Nazareno, com tremendas responsabilidades pesando-lhe nos ombros, conferidas pelo mesmo Mestre, pela primeira vez ia falar à assembleia dos discípulos, em Jerusalém, narrando o que se passara.

“Fui ouvi-lo.

“Esse fariseu era Saulo (Saul), o de Tarso, “que é também chamado Paulo”.

“Contou ele, à assembleia silenciosa e atenta, o seu colóquio com o Nazareno, à entrada de Damasco, e logo conquistou o coração de muitos que se achavam presentes. Foi de pé (alguns se ajoelharam) que ouvimos os pormenores da aparição do Senhor a Paulo, e a conversa que tivera com ele mesmo, Paulo, e a sequência dos acontecimentos que envolveram Ananias, um dos nossos amados santos de Damasco. Muitos choraram, eu inclusive, e também Paulo.

“Se, no entanto, essa aparição fez a redenção de Paulo, de certo modo contribuiu para minha definitiva estabilidade na doutrina do Mestre, porque daquele dia em diante tudo se modificou em minha vida.

“Nunca mais deixei Paulo, até hoje!

“Procurei-o então, em Jerusalém. Fui recebido com afeto e bondade.

Fiz-lhe a minha confissão, o que não tivera coragem de fazer aos demais discípulos. Narrei-lhe os meus sofrimentos íntimos por Jesus. Quisera servi-lo, a Ele, Jesus. Sinceramente o queria! Mas não sabia como iniciar nem o que fazer.

“Pelo amor de Jesus, Paulo ouviu-me com solicitude digna daquele mesmo Mestre que o admoestara em Damasco. E aconselhou-me, e guiou-me!

“Desse dia em diante, em vez de apenas ouvir as pregações sobre a doutrina do Senhor e meditar sobre ela, pus-me a trabalhar também, por amor do mesmo Mestre, sob orientação de Paulo, que, como aquele, não desprezava publicanos. Ele deu-me incumbências:

“— Não te limites à adoração inativa, que poderá cristalizar-se em fanatismo. A doutrina de Jesus é afanosa por excelência... E Ele precisa de servos trabalhadores, enérgicos, ágeis para mil e uma peripécias, de boa vontade para a propagação da Verdade que nos trouxe... Tu, que possuis noções da prática da beneficência, porque já a havias mais ou menos praticado antes do teu encontro com o Mestre, testemunha o teu amor por Ele, servindo também aos teus irmãos que sofrem ou erram, pois tal é o segredo da boa prática da nova doutrina. Nenhum de nós será tão pobre que não possa favorecer o próximo com algo que possua para distribuir: o pão, o lume, o agasalho, o bom conselho, a advertência solidária, a assistência moral no infortúnio, o ensinamento do bem, a lição ao ignorante, a visita ao enfermo, o consolo ao encarcerado, a esperança ao triste, o trabalho ao necessitado de ganhar o próprio sustento honrosamente, a proteção ao órfão, o seu próprio coração de amigo e irmão em Cristo, a prece rogando aos Céus bênçãos que aclarem os caminhos dos peregrinos da vida, o perdão àqueles que nos ferem e nos querem mal...

Zaqueu, por Charles Lemeire“De tais conselhos fiz, então, o meu lema.

“Em vez de só ouvir falar do Mestre, pus-me a falar, eu mesmo, dele e da sua doutrina, que teoricamente eu já conhecia bastante; dos seus atos, das maravilhas que operara por entre os doentes, os pecadores e os desgraçados, pois eu o conhecera, estava devidamente informado a seu respeito. E, se não curei leprosos, estanquei a aflição de muitas lágrimas com exposições a respeito dele. Se não levantei paralíticos, pelo menos ergui a coragem da fé em muitos corações desanimados ante a incúria pelas coisas santas. Se não expulsei demônios, é certo que alijei o ateísmo, recuperando almas para o dever com Deus. E se não ressuscitei mortos, renovei esperanças na alma de muitas matronas desgostosas com a indiferença dos próprios filhos na prática do bem, revigorei a decisão de muitos pecadores que temiam procurar o bom caminho, porque envergonhados de se apresentarem a Deus, pela oração, a fim de se renovarem para jornadas reabilitadoras. E, assim, minha alma se alegrava em Cristo, dilatavam-se os meus propósitos de progresso... E eu sentia que, de dia para dia, quando orava, mais incidiam sobre mim forças e novas bênçãos para mais me desdobrarem em operações objetivas, que tendiam a me fazer comungar com a vontade daquele Unigênito dos Céus, que um dia penetrou os umbrais pecaminosos de minha casa para me levar a salvação.

“E encontrei, então, dentro de mim próprio, aquele reino de Deus que Ele anunciara... Encontrei-o na paz do dever cumprido, que me embalava o coração...”

Eu ouvia, embevecido, a empolgante exposição daquele Zaqueu, cujo nome, no Evangelho, atraía as minhas simpatias, mas a quem as referências são mínimas, no Livro Santo. Mas acontecia que a força mental do humilde discípulo do Nazareno distendera em torno um círculo de luz fulgurante, o qual nos envolveu a todos, e nos levou a vibrar com ele, e nos dominou a vontade, submetendo nossas vontades à vontade dele próprio, nosso pensamento ao seu pensamento, nosso sentimento ao seu sentimento, nosso raciocínio ao seu raciocínio, tal se, completamente mergulhados nas ondas das suas irradiações, ficássemos à sua mercê para lhe obedecermos às sugestões. Era a “faixa vibratória” dele mesmo, onda transmissora do pensamento, capaz dos mais belos feitos psíquicos, que nos atingia e dominava. Então, o mais edificante foi que o pensamento de Zaqueu e suas recordações, revividas nos haustos de uma expansão solene, criaram novamente os fatos passados e nos deram a presenciar com ele tudo quanto era narrado. Seguimo-lo, assim, em suas idas e vindas atrás dos discípulos do Cristo. Presenciamos suas silenciosas lágrimas, seus sofrimentos ante a dificuldade em iniciar o ministério do bem, expandindo objetivamente o que já existia no íntimo do seu coração. Com ele vagamos chorosos, pelas praias de Cafarnaum, recordando as prédicas sublimes que não mais se ouviam, mas às quais os discípulos nunca deixavam de se referir durante as exposições da Boa Nova para o povo... E, desse modo, quantas vezes com ele subimos o Calvário, sob a nostalgia do crepúsculo, vendo-o chorar, sozinho e sofredor, a saudade daquele que ali expirara para legar ao mundo o patrimônio do amor! E aprendemos com ele, vendo-o agir, como se pratica o verdadeiro bem, como se estancam as lágrimas da desgraça e se recupera o pecador para o dever, ocultamente, silenciosamente, sem os alardes da vaidade nem os elogios da História, fiel a um ministério santo, incansável, em torno das criaturas sofredoras, pelo amor de Jesus Cristo...

* * *

Foi esse um dos mestres que encontrei além do túmulo. Seus ensinamentos, os exemplos de ternura em favor do próximo, que me deu, revigoraram minhas forças. Sob seus conselhos amorosos orientei-me, dispondo-me a realizações conciliadoras da consciência.

E se tu, meu amigo, desejas encontrar aquele reino de Deus de que Jesus dá notícias, ama os desgraçados! Cada lágrima que enxugares em seus olhos, cada conselho bom que dispensares ao pobre desarvorado da vida é mais um passo que darás em direção a esse reino que, finalmente, encontrarás dentro do teu próprio coração, que assim aprendeu o cumprimento da suprema Lei: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo...

(Léon Tolstói, por Yvone Pereira em "Ressurreição e Vida", Cap. 1)

Voltar ao topo

UMA MATERIALIZAÇÃO DE BEZERRA DE MENEZES

Retrato de Carlos MirabelliNessa mesma reunião, minutos após a constatação do caso anterior, o médium (Carlos Mirabelli) caiu novamente em transe, teve alguns espasmos violentos, debateu-se e foi logo seguro. Sobre a mesa havia uma campainha de mão. Essa campainha oscilou, produzindo um tinido, chamando a atenção dos assistentes e, em seguida, levitou, pairou no ar, e, agitada por força invisível, começou a tocar. Com o tinir da campainha, o médium despertou e, olhando em direção à mesa, disse aos presentes estar vendo um vulto de um homem idoso, de barbas brancas, aspecto nobre, vestido com uma túnica branca e contornado por resplendente halo de luz azul celeste, entremeado de nuvens brancas, alvíssimas, e todo contornado por rutilantes focos dourados. A campainha, sempre no ar, continuava a tinir com um som agudo. De repente, com susto geral, ouviu-se um forte estrondo, como um bater de botas sobre o assoalho de madeira. Surgiu, perto da mesa, a figura de um ancião, como o descrito pelo médium, que empunhava a campainha, tocando-a, ainda, por uns instantes. No mesmo momento, os Srs. Cel. Joaquim Soares e Dr. Otávio Moreira Cavalcanti declararam estar ali presente o Dr. Bezerra de Menezes, conhecidíssimo clínico, de saudosa memória, que foi, em vida, conhecido como o "médico dos pobres" e post-mortem como o "Kardec brasileiro", "Unificador do Espiritismo no Brasil" e, também, "Apóstolo do Espiritismo no Brasil", tamanha foi a importância de seu trabalho na beneficência e no movimento espírita brasileiro.

O recém-chegado, com maneiras afabilíssimas, modos de um perfeito cavalheiro, dirigiu-se aos presentes, falou-lhes de sua pessoa e confirmou ser o próprio Bezerra. A sua linguagem, tão elevada quanto distinta, impressionou a todos. O ampliador de sons acusou a sua voz. Muitas chapas fotográficas foram batidas e os Drs. Asunción e Archimedes Mendonça, após estas preliminares, dirigiram-se ao Mentor Espiritual e fizeram-lhe um exame completo, o qual durou quinze minutos, findos os quais, em voz alta, declararam aos presentes tratar-se efetivamente de uma pessoa normal, cuja constituição anatômica e funções orgânicas eram perfeitas. E o próprio visitante espiritual, com evidente intuito de melhor frisar a sua presença, apertou a mão de todos os presentes, apesar do retraimento de alguns. O Espírito estava descalço. Falou novamente, anunciando a sua partida e logo pendeu, em plano vertical, até ficar flutuando no ar, de face voltada para o chão, qual um dirigível, e, então, começou a desaparecer, a partir de suas pernas e ventre. Restavam só o busto e os braços flutuando no ar, quando o Dr. Archimedes Mendonça exclamou:

- Mas isto é demais!

Precipitando-se, agarrou-se àquela metade de corpo humano, porém, ao fazer isso, deu um grito agudo e caiu desmaiado, como se tivesse levado um choque elétrico. A forma espiritual materializada, que pairava no ar, desapareceu instantaneamente. O Dr. Archimedes, ao ser socorrido, voltou a si e relatou que apertou entre os dedos uma massa flácida e esponjosa e recebeu um choque fortíssimo. O médium estava abaladíssimo e foi desalgemado. A comissão reexaminou o ambiente, percorrendo as portas fechadas e lacradas, encontrando todos os sinetes intactos.

(Episódio narrado no volume "Mirabelli, um Médium Extraordinário", de L. Palhano Jr. ed. CELD, Cap. VI, págs. 73-74)

Voltar ao topo

BEZERRA DE MENEZES E O MÉDIUM HENRY SLADE

Foto do médium Henry SladeQuando o famoso médium norte-americano Henry Slade esteve no Rio de Janeiro, em 20 de Junho de 1888, uma Comissão da Federação Espírita Brasileira dirigiu- se certo dia ao local onde ele se hospedara.

Eis, a seguir, o relato do que aconteceu nessa visita, feito por Bezerra de Menezes nas páginas do Reformador de 15 de Março de 1889:

«Seria uma hora da tarde, quando eu, o Dr. Saião, o médium Nascimento e o professor Alexandre nos apresentamos na casa de pensão, morro da Glória, onde se achava Slade hospedado.Acolhidos amavelmente, ficaram na sala de recepção.

Nascimento e Alexandre, levando-nos a mim e a Saião para uma saleta, onde havia uma mesa, sobre a qual estavam duas ardósias.

Deu uma a Saião e outra a mim, para que as examinássemos e limpássemos, o que foi feito com o maior cuidado, e, sem que mais permitíssemos que Slade nelas tocasse, demos princípio ao trabalho.

A saleta tinha uma janela aberta para fora, de modo que a luz do dia lhe dava a mais completa claridade.

Slade mandou Saião depor sua ardósia sobre a mesa, pôs sobre ela uma insignüicante porção de lápis, e disse-me que assentasse a minha ardósia sobre a outra, de modo que a partícula de lápis ficou entre as duas.

Feito isto, mandou-me tomar as duas pedras com a mão direita, de modo a tê-Ias unidas, e levou minha mão com as pedras. à altura do meu ombro esquerdo, onde as apoiei. Slade colocou suas duas mãos sobre a mesa, e com as duas de Saião e a minha esquerda livre formou a cadeia magnética.

Começamos a ouvir estalidos na mesa, e em menos de dois minutos ouvimos, entre as pedras, bem sensivelmente, o cricri do lápis.

Assim que cessou o ruído, eu abri as pedras, e encontrei, na face interna de uma, duas comunicações, separadas por um traço de lápis.

A primeira, assinada por L. de Mond, estava escrita em francês, e dizia: «Un homme sage est QIU dessus de toutes les injures qu´on peut lui dire. La grande response qu´on doit faire aux outrages c´est la moderation et la patiense.

Parece que o Espírito escolheu um conceito adequado às minhas condições.

A segunda, escrita em inglês, continha estas palavras:

«YeS, mty friend, flhe above i8 quite tTtuzf aU men iooulâ act to tbe above it would be much. better for all. l'om. Dr. Daois .»

Por minha honra afirmo que este fato estupendo passou-se como o refiro, e o pode confirmar o ilustre Dr. Saião.

Não tendo as pedras, que limpámos, saído de minhas mãos, e tendo eu ouvido claramente o ruído do lápis sobre o meu ombro, tenho certeza de que nenhum dos três presentes foi autor daquelas notáveis comunicações.

(a) Dr. BEZERRA DE MENEZES."

pelo «GRUPO ISMAEL»

("Grandes Espíritas do Brasil", de Zêus Wantuil, 2a. Ed. FEB, págs. 145 e 146)

Voltar ao topo