Retrato de Bezerra de Menezes

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Bezerra de Menezes

Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da humanidade. - Allan Kardec

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1. MISSÃO ESPIRITUAL

Ilustração sobre retrato de Bezerra de Menezes“Houve na alocução de Ismael uma breve pausa. Depois, encaminhando-se para um dos dedicados e fiéis discípulos, falou-lhe assim: Descerás às lutas terrestres com o objetivo de concentrar as nossas energias no país do Cruzeiro, dirigindo-as para o alvo sagrado dos nossos esforços. Arregimentarás todos os elementos dispersos, com as dedicações do teu espírito, a fim de que possamos criar o nosso núcleo de atividades espirituais, dentro dos elevados propósitos de reforma e regeneração. Não precisamos encarecer aos teus olhos a delicadeza dessa missão; mas, com a plena observância do código de Jesus e com a nossa assistência espiritual, pulverizarás todos os obstáculos, à força de perseverança e de humildade, consolidando os primórdios de nossa obra, que é a de Jesus, no seio da pátria do seu Evangelho. Se a luta vai ser grande, considera que não será menor a compensação do Senhor, que é o caminho, a verdade e a vida. Havia em toda a assembleia espiritual um divino silêncio. O discípulo escolhido nada pudera responder, com o coração palpitante de doces e esperançosas emoções, mas as lágrimas de reconhecimento lhe caíam copiosamente dos olhos. Ismael desfraldara a sua bandeira à luz gloriosa do Infinito, salientando-se a sua inscrição divina, que parecia constituir-se de sóis infinitésimos. Urna vibração de esperança e de fé fazia pulsar todos os corações, quando uma voz, terna e compassiva, exclamou das cúpulas radiosas do Ilimitado: Glória a Deus nas Alturas e paz na terra aos trabalhadores de boa-vontade! Relâmpagos de luminosidade estranha e misericordiosa clareavam o pensamento de quantos assistiam ao maravilhoso espetáculo, enquanto uma chuva de aromas inundava a atmosfera de perfumes balsâmicos e suavíssimos. Sob aquela bênção maravilhosa, a grande assembleia dos operários do Bem se dissolveu. Daí a algum tempo, no dia 29 de agosto de 1831, em Riacho do Sangue, no Estado do Ceará, nascia Adolpho Bezerra de Menezes, o grande discípulo de Ismael, que vinha cumprir no Brasil uma elevada missão."(Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho, cap. 22)

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2. ORIGEM FAMILIAR

Certidão de Nascimento de Bezerra de MenezesAdolpho Bezerra de Menezes, nasceu em 29 de agosto de 1831, na Fazenda das Pedras, próximo ao Riacho das Pedras, na freguesia do Riacho do Sangue, hoje encravada no município de Jaguaretama, Ceará. Era filho de Antonio Bezerra de Menezes e de dona Fabiana Cavalcanti de Albuquerque. Foi batizado pouco mais de um mês após seu nascimento, na matriz de Nossa Senhora da Conceição, conforme se depreende de seu batistério, exarado nos seguintes termos:

Adolpho, nascido aos vinte e nove de agosto de mil oitocentos e trinta e um e batizado nesta matriz aos dois de outubro do mesmo ano, filho legítimo do capitão Antonio Bezerra de Menezes e de dona Fabiana de Jesus Maria, moradores nesta freguesia, neto paterno do tenente–coronel Antonio Bezerra de Souza e dona Maria da Costa, e materno do capitão José Roiz da Silva e dona Maria Ignacia Cavalcanti. Foram padrinhos: ajudante José Bernardo Bezerra, casado, e dona Joana Antônia Bezerra do Sacramento, solteira, todos moradores nesta freguesia, e para constar fiz este assento. O vigário Antônio Francisco Régis de Leão Saraiva.

Em cima das ruínas da casa da fazenda Santa Bárbara, de seu avô, coronel Antonio Bezerra de Souza, onde há 181 anos nasceu o Médico dos Pobres, funciona há alguns anos o Polo Bezerra de Menezes – PODEBEM -, lugar de assistência social e espiritual e caridade para a população pobre da região, coordenado por voluntários e mantido por meio de doações, inclusive com a escola Fabiano de Cristo.

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3. FORMAÇÃO ESCOLAR:

Liceu do Ceará - FortalezaA vida estudantil de Bezerra iniciou-se no ano de 1838, na escola pública de Riacho do Sangue, onde em dez meses, aos sete anos de idade, aprontou-se em leitura, escrita e contas. Em 1842, na Serra do Martins (RN), matriculou-se na escola de latinidade, fundada em 1831 pelos padres jesuítas e, com apenas dois anos de estudos da língua de origem romana, foi capaz de ser monitor, auxiliando o professor.

Em 1846, de regresso ao Ceará, Bezerra de Menezes fixou-se na capital da província, provavelmente em virtude da terrível seca do ano anterior, que causou a perda quase total dos gados da província e determinou a migração de inúmeras famílias ao litoral. Assim, Adolpho continuou seus estudos em Fortaleza, no Liceu do Ceará.

Em 23 de fevereiro de 1851, meses antes do de falecimento de seu pai – em outubro -, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde, em março do mesmo ano, iniciou os estudos de Medicina na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

No ano seguinte (1852), ingressou como praticante interno ("residente") no hospital da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. Além disso, dava aulas particulares de Filosofia e Matemática.

Obteve o diploma de graduação em 1856, com a defesa da tese: "Diagnóstico do cancro" (estudo teórico). Nesse ano, o Governo Imperial decretou a reforma do Corpo de Saúde do Exército Brasileiro e nomeou para chefiá-lo, como Cirurgião-mor, o Dr. Manuel Feliciano Pereira Carvalho, antigo professor de Bezerra de Menezes, e que o convidou para trabalhar como seu assistente.

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4. MEDICINA E MATRIMÔNIO

Bezerra de Menezes e sua segunda esposa, Cândida Augusta Lacerda MachadoA 27 de abril de 1857, candidatou-se ao quadro de membros titulares da Academia Imperial de Medicina com a memória "Algumas considerações sobre o cancro, encarado pelo lado do seu tratamento". O acadêmico José Pereira Rego leu o parecer na sessão de 11 de maio, tendo a eleição transcorrido na de 18 de maio, e a posse, na de 1º de junho do mesmo ano.

Em 1858, candidatou-se a uma vaga de lente substituto da Seção de Cirurgia da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Nesse ano saiu a sua nomeação oficial como assistente do Corpo de Saúde do Exército, no posto de Capitão-tenente e, a 6 de novembro, desposou Maria Cândida de Lacerda, que viria a falecer de mal súbito em 24 de março de 1863, deixando-lhe dois filhos, um de três e outro de um ano de idade.

No período de 1859 a 1861, exerceu a função de redator dos Anais Brasilienses de Medicina, periódico da Academia Imperial de Medicina.

Em 1865 desposou, em segundas núpcias, Cândida Augusta de Lacerda Machado, irmã por parte de mãe de sua primeira esposa. Cândida cuidava de seus filhos até então. Com ela, teve mais 12 filhos.

Por sua atuação generosa e incansável, como médico, cedo tornou-se conhecido como "O Médico dos Pobres". Via na Medicina um sacerdócio, e deixou como um de seus maiores legados exemplos e conselhos inesquecíveis para os jovens médicos de todas as épocas:

"Um médico não tem o direito de terminar uma refeição, nem de escolher hora, nem de perguntar se é longe ou perto, quando um aflito qualquer lhe bate à porta. O que não acode por estar com visitas, por ter trabalhado muito e achar-se fatigado, ou por ser alta noite, mau o caminho ou o tempo, ficar longe ou no morro; o que, sobretudo, pede um carro a quem não tem o que pagar a receita, ou diz a quem chora à porta que procure outro, esse não é um médico, é negociante de medicina, que trabalha para recolher capital e juros dos gastos da formatura. Esse é um infeliz, que manda para outro o anjo da caridade que lhe veio fazer uma visita e lhe trazia a única espórtula que podia saciar a sede de riqueza do seu espírito, a única que jamais se perderá nos vaivens da vida".

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5.CARREIRA POLÍTICA

Cãmara Municipal do Rio de Janeiro - 1856Nesse período, a Câmara Municipal do Município Neutro tinha como presidente o médico Roberto Jorge Haddock Lobo, do Partido Conservador. Ao mesmo tempo, Bezerra de Menezes já se notabilizara pela atuação profissional e pelo trabalho voltado à população. Desse modo, em 1860, em uma reunião política, alguns amigos levantaram sua candidatura à Câmara dos Vereadores, pelo Partido Liberal, como representante da paróquia de São Cristóvão, onde então residia.

Abertas as urnas e apurados os votos, Bezerra fora eleito. Seus adversários, liderados pelo dr. Haddock Lobo, impugnaram a posse sob o argumento de que militares não podiam exercer o cargo de vereador. Desse modo, para apoiar o Partido, que necessitava dele para obter a maioria na Câmara, decidiu requerer exoneração do Corpo de Saúde (26 de março de 1861). Desfeito o impedimento, foi empossado no mesmo ano.

Foi reeleito vereador da Câmara Municipal do Município Neutro para o período de 1864 a 1868, e depois, por várias legislaturas consecutivas, até a década de 1880.

Foi eleito deputado Provincial pelo Rio de Janeiro em 1866 e empossado em 1867. A Câmara dos Deputados foi dissolvida no ano seguinte (1868) por várias divergências políticas, assumindo a direção do governo o Partido Conservador.

Na política, atuava como deputado e vereador simultaneamente, o que, à época, era permitido. Ocupou várias vezes a presidência da Câmara Municipal, cargo que corresponderia atualmente ao de prefeito.

Foi eleito deputado pela Província do Rio de Janeiro para as legislaturas da década de 1880, nunca tendo encerrado sua carreira política, pois, por várias vezes, foi candidato, por exemplo, ao cargo de senador.

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6. MILITÂNCIA INTELECTUAL:

Capa do romance O Evangelho do FuturoDurante a campanha abolicionista, publicou o ensaio "A escravidão no Brasil e as medidas que convêm tomar para extingui-la sem dano para a Nação" (1869), na qual não só defende a liberdade aos escravos, mas também a inserção e adaptação dos mesmos na sociedade por meio da educação. Nesta obra, Bezerra se auto intitula um liberal, e propõe que se imitasse os ingleses, que, na época, já haviam abolido a escravidão de seus domínios.

Expôs os problemas de sua região natal em outro ensaio publicado, "Breves considerações sobre as secas do Norte" (1877). Foi autor de biografias sobre o visconde do Uruguai, visconde de Caravelas e Pedro II, entre outras personalidades ilustres do Império do Brasil. Atuou no jornal A Reforma, órgão liberal no Município Neutro, e, de 1869 a 1870, redator do jornal Sentinela da Liberdade.

Escreveu também outras obras, como:

Sabe-se que Bezerra de Menezes era fluente em línguas como latim, espanhol e francês.

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7. VIDA EMPRESARIAL

Vila Isabel no século XIXFoi sócio fundador da Companhia Estrada de Ferro Macaé e Campos. Empenhou-se na construção da Estrada de Ferro Santo Antônio de Pádua, pretendendo estendê-la até o Rio Doce, projeto que não conseguiu concretizar.

Foi também um dos diretores da Companhia Arquitetônica de Vila Isabel, fundada em Outubro de 1873 por João Batista Viana Drummond (depois barão de Drummond) para empreender a urbanização do bairro de Vila Isabel.

Presidiu igualmente a Companhia Ferro-Carril de São Cristóvão, no período em que os trilhos da empresa alcançavam os bairros do Caju e da Tijuca.

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8. APÓSTOLO DO ESPIRITISMO:

Capa de O Livro dos EspíritosO Espiritismo, qual novo maná celeste, já vinha atraindo multidões de crentes, a todos saciando na sua missão de Consolador. Logo que apareceu a primeira tradução brasileira de "O Livro dos Espíritos", em 1875, foi oferecido a Bezerra de Menezes um exemplar da obra pelo tradutor, Dr. Joaquim Carlos Travassos, seu amigo, que se ocultou sob o pseudônimo de Fortúnio e inclusive, em sua tese de formatura sobre queimaduras, escreveu-lhe uma dedicatória.

Foram palavras do próprio Bezerra de Menezes, ao proceder à leitura de monumental obra: "Lia, mas não encontrava nada que fosse novo para meu espírito, entretanto tudo aquilo era novo para mim [...]. Eu já tinha lido ou ouvido tudo o que se achava no Livro dos Espíritos [...]. Preocupei-me seriamente com este fato maravilhoso e a mim mesmo dizia: parece que eu era espírita inconsciente, ou mesmo, como se diz vulgarmente, de nascença".

Contribuíram também para torná-lo um adepto consciente as extraordinárias curas que ele conseguiu, no início dos anos 1880, do famoso médium receitista João Gonçalves do Nascimento, através do espírito Dr. Dias da Cruz, antigo companheiro de Bezerra como vereador e como deputado – pai do famoso dr. homeopata Francisco Menezes Dias da Cruz. Mais que um adepto, Bezerra de Menezes foi um defensor e um divulgador da Doutrina Espírita.

Em 1883, recrudescia, de súbito, um movimento contrário ao Espiritismo e, naquele mesmo ano, fora lançado por Augusto Elias da Silva o "Reformador", órgão oficial da Federação Espírita Brasileira e periódico mais antigo do Brasil, ainda em circulação. Elias da Silva consultava Bezerra de Menezes sobre as melhores diretrizes a seguir em defesa dos ideais espíritas. O venerável médico aconselhava-o a contrapor-se ao ódio, a praticar o amor e a agir com discrição, paciência e harmonia. Elias também fundou a Federação Espírita Brasileira, em 1884.

Bezerra não ficou, porém, apenas no conselho teórico. Com as iniciais A. M., desde fevereiro de 1883, principiou a colaborar com o "Reformador", emitindo comentários judiciosos.

Embora sua participação tivesse sido marcante até então, somente em 16 de agosto de 1886, aos 55 anos de idade, Bezerra de Menezes, perante grande público, em torno de 1.500 a 2.000 pessoas, no salão de Conferência da Guarda Velha, em longa alocução, justificou a sua opção definitiva de abraçar os princípios da consoladora doutrina.

Daí por diante, Bezerra de Menezes foi o catalisador de todo o movimento espírita na Pátria do Cruzeiro, exatamente como preconizara Ismael. Com sua cultura privilegiada, aliada ao descortino de homem público e ao inexcedível amor ao próximo, conduziu o barco de nossa doutrina por sobre as águas atribuladas pelo iluminismo fátuo, pelo cientificismo presunçoso, que pretendia deslustrar o grande significado da Codificação Kardequiana.

Enquanto presidente da FEB em 1889, implantou o estudo metódico de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, e foi reconduzido ao espinhoso cargo em 1895, quando implantou o estudo da obra Os Quatro Evangelhos de Jean Baptiste Roustaing, em uma época na qual se agigantava a maré da discórdia e das radicalizações no meio espírita. Permaneceu no cargo até 1900, ano em que desencarnou.

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9. DEMAIS INFORMAÇÕES E VINCULAÇÕES

Sede do Jornal O PaizDr. Bezerra de Menezes foi membro da Sociedade de Geografia de Lisboa, da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, da Sociedade Físicoquímica, sócio e benfeitor da Sociedade Propagadora das Belas-Artes, membro do Conselho do Liceu de Artes e presidente da Sociedade Beneficente Cearense.

Escreveu em jornais como "O Paiz", “Jornal do Brasil”, “Gazeta de Notícias” e “Gazeta da Tarde”, de 1887 a 1898, e no "Reformador". Utilizava o pseudônimo de Max.

O dicionarista J. F. Velho Sobrinho alinha extensa bibliografia de Bezerra de Menezes, relacionando para mais de 40 obras escritas e publicadas, dentre as quais encontram-se teses, romances, biografias, artigos, estudos, relatórios, etc.

Bezerra de Menezes desencarnou em 11 de abril de 1900, às 11h30min, tendo ao lado a dedicada companheira de tantos anos, Cândida Augusta (Dodoca). Morreu pobre, embora seu consultório estivesse cheio da população mais simples. Foi preciso constituir-se uma comissão para angariar donativos visando a possibilitar a manutenção da família, comissão esta presidida por Quintino Bocayuva, príncipe dos jornalistas brasileiros. Por ocasião de sua morte, assim se pronunciou Leon Denis, um dos maiores discípulos de Kardec:"Quando tais homens deixam de existir, enluta-se não somente o Brasil, mas os espíritas de todo o mundo".

Fontes:

Outros estudos sobre a vida e a obra de Bezerra de Menezes que também nos servem de referência:

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10. ENTREVISTA COM BEZERRA

O Reformador, órgão de divulgação da Federação Espírita Brasileira, publicou em 15 de outubro de 1892 um depoimento de Bezerra de Menezes sobre suas convicções religiosas trazidas do berço e sua conversão ao Espiritismo. O referido documento, que encontra-se no segundo capítulo da primeira parte do livro Bezerra de Menezes: Ontem e Hoje, da editora Feb, permitirá ao leitor sentir como se estivesse conversando com o inolvidável Apóstolo do Espiritismo no Brasil. Faça o download do livro clicando aqui.

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GALERIA DE FOTOS:

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A PALESTRA DE "CONVERSÃO" DE BEZERRA DE MENEZES (TEXTO INTEGRAL)

Senhores,

Reprodução do quadro de Bezerra de Menezes da Câmara dos Vereadores - RJAntes de dizer-vos ao que vim aqui, preciso explicar-vos minha presença aqui.

Será esse o exórdio do meu discurso.

Venho de longes terras, senhores. Venho dos antípodas do Espiritismo. E parece que a narração do meu êxodo, em que talvez não faltasse a coluna de luz e de nuvens e certamente não o providencial maná, não será de todo inútil para os que são tíbios na fé - e para os que a repelem como obras de magia - de loucura - e de diabolismo.

Nunca se perde em conhecer o mundo prático e o progresso íntimo, pelos quais um homem, que não é de todo destituído de talento e de saber - e que absolutamente não é leviano e precipitado, deixou a lei em que nasceu para adorar outra de cunho diferente.

Eu nasci no seio da Igreja romana e criei-me na sua lei.

Como acontece a todos, eu vivi tranquilo em minha fé: na fé que meus pais me deram, seguros de que ela concatenava todas as verdades divinas - seguro de que fora dela não podia haver senão o erro e a mentira.

Como acontece a todos, eu vivi nessa confiança, não porque tivemos passado minhas crenças pelo cadinho da observação e da experiência, ou mesmo, pelo exame da razão e da consciência, senão unicamente pela impressão que deixou em minha alma o ensino paternal.

E é assim, senhores, que se acha constituído o mundo cristão chamado católico - e que as religiões, pelas quais se divide a humanidade, fazem seu proselitismo.

O filho segue a religião do pai.

***

Chegado que fui a idade, em que o espírito, que é cultivado, procura a razão das coisas que o cercam e impressionam - e rerum cognoscere causa(1) -, senti uma necessidade indeclinável de definir minhas crenças que me tinham sido transmitidas por herança.

Parecia-me indigno de Deus e do homem sermos, como um rebanho, tocados por um caminho, de que nem ao menos podíamos inquirir a razão de preferência.

E esta convicção mais se firmou em meu espírito, quando pelo alargamento do círculo dos meus estudos e conhecimentos pude fazer a comparação do ser racional e consciente com o irracional e inconsciente.

O animal propriamente dito foi dotado com todos os órgãos e todos os aparelhos necessários às funções da vida exclusivamente terrena.

O homem teve, também, todos esses órgãos e aparelhos; o que prova: que entre ele e o animal, no que é desta vida, existe a mais perfeita relação natural.

O animal, porém, não dá mais que isso - e o homem demonstra muito mais.

Se, pois, sobressai em nosso ser alguma faculdade, que não foi dada ao resto dos seres animais, é isso prova evidente: de que tal faculdade é destinada a um fim, que não é animal - e que é exclusivamente humano.

O homem apresenta acima dos animais, a razão, faculdade superior e distinta do instinto mais esclarecido dos irracionais - e tem a consciência, de que nenhuma espécie animal oferece, sequer, o mais ligeiro vestígio.

A razão é a luz que Deus nos deu para devassarmos os segredos da criação.

A consciência é outra luz destinada a dar-nos a distinção do bem e do mal.

Uma ilumina o mundo intelectual. A outra ilumina o mundo moral.

Um nos dá o saber - a ciência.

A outra nos ensina o bem e nos guia à virtude.

A ciência e a virtude são, portanto, os fins imediatos a que o homem é destinado na Terra - e aí tendes, meus senhores, explicando o fato: de não poderem os animais possuir a razão e consciência, por não aspirarem, nem à sabedoria nem à virtude.

Se, pois, temos um fim especial, para cuja consecução nos foram dados meios especiais, com a liberdade ampla de usarmos deles como nos parecer, é óbvio; que o Criador nos habilitou a encaminharmo-nos por nós mesmos - e não como um rebanho, pelo caminho que nos é imposto.

Isso valeria por ter-nos o Senhor dado olhos de ver, para tê-los fechados - ouvidos de ouvir, para tê-los cerrados!

A razão e a consciência são, pois natural e logicamente os guias de nossa alma ao destino que lhe foi marcado na vida terrestre.

Nem pode ser de outro modo, porque, então, nosso merecimento consistiria no automatismo irracional - e Deus faria consistir sua maior satisfação em receber os filhos, que não o procuraram, mas que lhe foram empurrados.

Nem pode ser de outro modo, porque o real merecimento do homem está em fazer ele mesmo seu caminho - e a maior satisfação do Pai está em receber o filho, que o procura por seu próprio impulso, descobrindo-o do meio das trevas e correndo por entre espinhos.

É verdade que alega-se como prova de que os meios naturais não bastam ao homem, o fato de ser preciso baixar dos céus a revelação das verdades eternas.

Isso, porém, não prova que a revelação suprima a razão.

É um auxílio que o pai manda ao filho; não é - não pode ser, uma ordem para que este nada faça por si - quebre o instrumento de trabalho, que aquele lhe deu.

A razão corrigida pela consciência e a consciência esclarecida pela razão são os instrumentos dados ao homem para fazer seu destino.

A revelação é um auxílio para que ele abrevie a carreira e chegue mais depressa; se, contudo, assim lhe aprouver, visto que é livre de aceitar ou recusar o dom do céu.

***

Estátua de Bezerra de Menezes no Polo que traz o seu nome, em Jaguaretama - CEPensando assim, julguei-me na obrigação de fazer o exame da doutrina que me foi ensinada por minha santa mãe; para desta arte dirigir-me conscientemente - e, portanto, com verdadeiro merecimento, ao porto da jornada humana - à eterna Sião.

O primeiro ponto com que esbarrei foi o apotegma que consagra o sobrenatural como base essencial da religião.

Se a religião, pensei eu, é a via que conduz o homem ao destino que lhe é posto por Deus - e, se para esse fim, Deus lhe deu a razão e a consciência; de duas, uma: ou a religião está ao alcance da razão, e nesse caso não assenta no sobrenatural - ou assenta no sobrenatural, e nesse caso fica sendo um traste inútil.

Uma hipótese repele a outra - e a Igreja romana sustenta a segunda - e condena os racionalistas.

Proscrevendo a razão, em matéria religiosa, a Igreja proscreve também a liberdade - e estabelece a fé passiva - a fé cega - o crê ou morre dos muçulmanos.

Foi esta a conclusão à que cheguei, no exame deste ponto - e, confesso, senti diante dela abalarem-se-me as crenças primitivas.

Desde logo invadiu-me o espírito uma dúvida, que deve ter perturbado a paz de todos os católicos, por mais fervorosos que sejam:

Que certeza podemos ter de que a nossa religião é a verdadeira, desde que não podemos apreciá-la pela razão e pela consciência!

A fé cega - a fé passiva tem, como nós, o muçulmano - o budista - o masdeísta - o bramanista - e até o fetichista.

Temos, pois, como estes, a mesma razão de crer, até sob o ponto de vista da revelação, pois que todos acreditam que são inspirados seus legisladores.

Entretando, a verdade é única e, portanto, só uma religião pode ser verdadeira.

Porque há de ser a nossa, e não a de Buda que se adorna da mais pura moral?

A Igreja apela para a fé, mas para a fé apelam todas as religiões.

Esta dúvida, que ninguém poderá qualificar de infundada, resolve-se forçosamente pela segunda afirmação:

A fé passiva, baseada no sobrenatural, confunde o Cristianismo com todas as religiões - não dá ao cristão o meio de reconhecer sua superioridade - apaga a luz que Deus deu aos homens.

Só a razão - a razão universal, que é infalível, pode clarear os horizontes - destacar a religião verdadeira das falsas - e dar ao cristão o meio de reconhecer que a sua sobreleva a todas.

Esse meio, eu pensei e vos digo agora, meus senhores, é a comparação dos dogmas de umas com as outras - e de todas com o critério absoluto da verdade, que é formato pelos atributos do Altíssimo.

Não pode ser verdadeira aquela cujos dogmas ferem as excelsas perfeições.

A verdadeira religião será aquela cujos dogmas se conformarem com aquelas perfeições.

E eis como e porque a razão é a base essencial de nossa religião.

***

Foto mais antiga de Bezerra de MenezesO segundo ponto, que me fez parar no meu exame, foi o que consagra o princípio de não haver salvação fora da Igreja.

"Deus é quem dá aos homens o ensino das verdades eternas - e só dá pela Igreja".

Refleti - e não me conformei.

Se é a própria Igreja quem ensina : que todos os homens são filhos de Deus, que não tem preferências em seu amor, nem parcialidade em sua justiça; como poderá ela explicar o fato autêntico: de só ter sido aquele ensino concedido a um povo - a um filho; com exclusão de todos os outros?

E se fora da Igreja não há salvação, como conciliar-se o amor e a justiça do Pai com o fato de ter Ele criado homens - povos numerosos, que não podem conhecer a Igreja, nem ser por ela conhecidos - e, portanto, fora das irradiações da luz salvadora?

Os selvagens da América; antes da descoberta do novo mundo, foram criados para a eterna condenação?

Nos apologéticos mais autorizados descobri uma tentativa de conciliação entre o aforismo da Igreja e o fato de haver povos a quem não podiam chegar os ensinamentos da Igreja.

S. Agostinho, por exemplo, reconhecendo como aquele aforismo ofendia às infinitas perfeições, procurou salvá-lo do naufrágio, dizendo que o Senhor pôs no coração de todo o homem o instinto do bem - e que, por este instinto, todos têm em si o princípio da salvação, visto que serão tomadas as contas a cada um pelo que recebeu.

Não fiz cabedal dessa irreverência, com quem se atribui à suma sabedoria um sistema tão imperfeito de julgar as obras humanas por balanças individuais.

Feriu-me, porém, a alma: ver a Igreja dizer aos inocentes, por seus catecismos, uma coisa - e aos sábios, por seus filósofos, coisa oposta!

Fora da Igreja não há salvação, mas, fora da Igreja, o que seguir e desenvolver o instinto natural do bem poderá salvar-se, tão bem como o que tiver seguido o ensino da Igreja.

E não vai nesta confissão de S. Agostinho a prova de que a razão e a consciência, que são o instinto natural, foram dadas ao homem como os meios essenciais de alcançarem seu destino?

Como, então, suprimi-los para substituí-los pela fé cega e sobrenatural?

Não foi somente essa falha que notei na defesa às doutrinas da Igreja feita pelo sábio apologista.

Se o instinto natural do bem dá para o homem salvar-se - e Deus é igual para todos os seus filhos; ou não devia dar mais que isto a nenhum - ou, se deu mais a um, devia dar a todos.

Como, então, perguntei eu, deu a uns o simples instinto e a outros a revelação ou o ensino superior?

Procurei nos livros sagrados a explicação desse fato, que necessariamente deveria ter uma, pois que Deus não pode praticar injustiças e não descobri coisa que ressalvasse o Senhor.

À vista disso, concluí que havia deficiências na doutrina da Igreja.

Tal conclusão pedia melhores provas para poder gerar em meu espírito uma convicção, tanto mais carecedora delas, quanto tratava-se de religião e da religião de meus pais.

Continuei, pois, em meu exame, passando em revista a Moral - a Teodiceia - e a Cosmogonia da Igreja.

***

A Moral cristã, ensinada pela Igreja, é a mais sublime que se possa imaginar.

Ela encerra em seus preceitos a prova mais cabal de que sua origem não é humana.

Este único preceito; ama a todos, até o inimigo - faze bem a todos, até ao que te odeia; bastava, quando mesmo todos os outros não lhe fossem harmônicos, para convencer que não foi o homem que confeccionou semelhante Moral.

O homem, meus senhores, quer seja o mais sábio, quer seja o mais virtuoso da Terra, sempre tem os pés de barro da estátua de Nabucodonosor, e jamais poderia arrancar de sua depravada natureza o que está em perfeito antagonismo com essa mesma natureza.

Só um ser que não tenha as fraquezas e as paixões humanas pode ter sido o autor de um preceito que combate-as e arranca-as pela raiz.

A Teodiceia, também ensinada pela Igreja, tem o tipo das criaçoes sobre-humanas, é o reflexo da majestade divina, que não pode senão assim manifestar-se ao homem, sem lhe produzir a cegueira.

Não acontece, porém, o mesmo com a Cosmogonia, em que descobre-se logo o cunho das obras de humano engenho.

"Deus criou o mundo em seis dias".

Aí estão medidas as forças do Onipotente pelas fraquezas humanas.

Como o homem precisa do tempo para fazer qualquer obra, atribuiu-se a Deus, para fazer a sua, o tempo de seis dias.

Se a nossa Cosmogonia não fosse humana, ver-se-ia aí o FIAT fazendo surgir momentaneamente a esplendorosa obra, que, por muito favor, concederam ao Onipotente seis dias para concluir.

"Deus descansou ao sétimo dia".

Ainda se nota aqui a pura concepção humana.

Porque o homem não trabalha sem cansar-se, e cansado, precisa descansar: a Cosmogonia atribuiu a Deus a mesma fraqueza.

Deus, meus senhores, é a vida infinita e a vida é o movimento e a ação.

De toda a eternidade e por toda a eternidade, o Criador esteve e estará em atividade, nessa sublime atividade, de que resulta uma criação constante e eterna.

"Deus criou um homem e só lhe deu uma companheira, porque ele lhe pediu".

Aí temos o imperfeito fazendo o perfeito corrigir ou, pelo menos, alterar seu plano.

"Deus criou os anjos perfeitos e o perfeito, segundo a opipotente volição, tornou-se imperfeito".

"Deus castigou a rebeldia dos anjos que iludiram suas vistas, depois de os ter vencido em uma batalha, cousa inquestionavelmente mundana, e que traz ao pensamento a hipótese de poderem os rebeldes vencer, repelindo-os apenas do céu, mas deixando-lhes o sabor e o poder quase divinos que lhes tinha dado!"

"Deus não pode, ou não quis, tornar impotente o príncipe do mal; tanto que aí está ele todos os dias roubando-lhe as almas que criou para si e, no fim do mundo, será o deus do inferno, como Ele é o do Céu."

"Deus eternizou o mal, portanto, como eternizou o bem!"

Porém, o que mais repugna nesse plano emprestado ao Senhor é ter ele entregado o homem ao anjo poderoso, dizendo-lhe: resiste, quando não, será sua presa eterna!

Para atenuar essa verdadeira crueldade e desamor do Pai, os apologéticos socorrem-se à uma arguciosa evasiva, como a do instinto natural do bem.

Dizem que, embora a luta seja monstruosa pela desigualdade das forças dos dois contendores, Deus acode ao que lhe pede socorro de boa vontade.

A graça divina não é lei, é a causa para certos casos: o que compromete seriamente a justiça eterna, como compromete a onisciência, ou a onipotência, o fato dos anjos não saírem como Deus os quis, e de, rebelados, afrontarem eternamente a Deus!

Quem não vê, nesse conjunto de ideias, uma lenda imaginada pelo homem, em completo antagonismo com a razão e com as infinitas imperfeições?

E, se a tudo isso ajuntarmos a pobreza do plano da evolução humana, em si mesmo inexplicável, teremos a firme e santa convicção de que a Cosmogonia ensinada pela Igreja não tem a origem divina de sua Moral e de sua Teodiceia.

São três peças de um maquinismo, que não se podem ajustar, porque foram vazadas em moldes diferentes e por diferentes maquinistas.

Eu disse que o plano da evolução humana revela pobreza de engenho - e é, em si mesmo, inexplicável.

Foi o que resultou do exame de que vos estou dando notícias - e de que vou exibir os fundamentos.

"O homem é criado para esta vida, neste único mundo, e depois delas, é julgado definitivamente - e remetido para o céu ou para o inferno".

Precisarei demonstrar que isso está abaixo da concepção humana - e tanto que é uma afronta à sabedoria divina atribuir-lho?

Deus criou o espaço infinito, que povoam os astros sem-número; mas deixou tudo mergulhado no silêncio e nas sombras da morte - e concentrou toda a luz - todo o movimento - toda a vida, num dos mais insignificantes planetas do mais imperfeito sistema planetário!

Para que criou os astros, se apenas de um precisava?

Não direi mais nem uma palavra sobre a pobreza deste plano - e passarei a considerar o que ele tem de inexplicável.

"O homem é criado para um fim, pois que Deus nada fez sem alta razão de ser - e esse fim é necessário, deve ser satisfeito, porque a vontade do Eterno não pode ficar sem execução".

Pois bem. Não há em que não morra no ventre materno - logo depois de nascer, ou antes de entrar no exercício de suas faculdades, um sem-número de criaturas humanas.

Essas não preenchem o fim posto à humanidade.

Logo, ou o plano não é perfeito ou a vontade do Criador não é satisfeita.

Ou Deus não é onisciente ou não é onipotente.

Eis a que conduziu o estado da Cosmogonia da Igreja.

"Ela ensina mais: que o Senhor nos dá a vida, para fazermos, nela, por nossa liberdade, mérito ou demérito; de onde, depois dela, o prêmio ou o castigo eterno".

Pois bem. A existência do idiota, que é criado por Deus, como o inteligente desmorona todo esse edifício.

O idiota não tem consciência - nem razão, nem liberdade, nem mesmo o instinto natural do bem. Logo, não pode fazer mérito nem demérito.

O que veio, então, fazer na vida?

E o que há de ser dele depois da morte?

A Cosmogonia da Igreja não pode conciliar este fato com a sua lei, e muito menos com o sumo critério da verdade.

"Ele ensina, por fim, que o Senhor dá o prêmio ou castigo eternos, segundo fizemos boas ou más obras".

Quem não vê, por toda a parte e todos os dias, crianças que, antes de terem o uso da razão e da consciência, manifestam uma natureza boa, ou ruim, uma inteligência lúcida, ou quase impossível de receber cultivo?

***

3a. Parte

Essas disposições não são obra de sua vontade, pois que se manifestam antes da consciência e da razão, e vêm tão encarnadas com o espírito que muitas vezes a educação não pode modificá-las.

Como, então, Deus há de punir aquele a quem deu índole má, porque fez mal - e há de premiar ao que tem índole boa, porque faz bem?

Como há de Ele, que deu naturezas opostas, em relação ao bem - que deu inteligências opostas, para o saber, que é alta condição de salvação, tomar a todos, indistintamente, contas iguais?

Acodem, ainda aqui, os apologéticos, sustentando: que Deus não toma contas iguais; mas que toma-as a cada um na medida do que lhe foi dado.

Não se vê nessa variadíssima disposição da força original uma imperfeição, que é crime de lesa-majestade divina atribuir-lhe?

Senhores. Meu exame foi muito além; mas eu não preciso, nem poderei dar-vos dele uma cópia completa; e por isso limito-me ao que vos tenho exposto perfunctoriamente.

***

Desse exame, precisarei dizê-lo? Resultou-me a dúvida sobre as verdades religiosas - dúvida que, por um processo psicológico natural, embora ilógico, arrastou-me ao ceticismo.

Bossuet atribui ao racionalismo as heresias contra a Igreja - e o reconheci por mim: que não somente essas como até o mais lastimoso dos erros humanos: o materialismo, são a consequência necessária de se trancarem as arcas da religião ao exame dos racionalistas.

A fé cega é tão contrária à natureza do homem que o revolta.

Eu quis substituí-la pela fé esclarecida e caí no estado de descrença.

A razão foi, em primeiro lugar, o crê ou morres da Igreja, e foi, em segundo lugar, a falta de elementos corretivos de certos princípios humanos que se inculcam como divinos.

O espírito esclarecido não pode aceitar o que se lhe dá por verdade - e não tendo além o que seja mesmo verdade; para manter-se na fé, descamba para a incredulidade e cai muita vez no materialismo.

Eu cheguei a esse estado, mas aquela divina Moral e a sublime Teodiceia, que me encantaram, chamavam-me dos abismos para onde me atirou a Cosmogonia romana.

Eu fiquei, senhores na dolorosa posição de Jouffroy(2) e podia repartir com ele "eu era um incrédulo e abominava a incredulidade".

Tanto é verdade que o crer é uma lei de nossa natureza, que a religiosidade é uma propensão invencível da humanidade e que, a religião é, ao mesmo tempo, uma necessidade e um dever do homem.

***

Talvez porque fui ter ao ceticismo, procurando conscienciosamente e de boa vontade a pura verdade, o Pai do Céu usou para comigo de sua misericórdia.

No meio do mais descuidoso cortejo de venturas domésticas, fui rápida e inesperadamente ferido no que mais caro me era ao coração.

E como, no dizer de Cosette (3), raras vezes se é incrédulo chorando junto a um túmulo, a dor arrancou à minha natureza um ato de fé espontâneo contra o qual não há ceticismo possível: - Meu Deus! Meu Deus!

Senti renascer em mim o desejo - a necessidade de crer.

Voltei aos livros sagrados e profanos que me pudessem ser fonte onde saciar a sede.

Lia-os com sofreguidão de quem procura, para além desta vida, uma estrela - uma luz, uma esperança.

Foi na permanência desse sentimento que um amigo ofereceu-me O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec.

Percorri as páginas dessa obra, que ensina uma nova Cosmogonia, e conheci pelo pórtico do majestoso edifício, a mão do Supremo Arquiteto, que traçou o da Moral e o da Teodiceia, que tanto me haviam arrebatado a alma.

Não é que eu encontrasse ali cousa diversa do que já havia lido no Evangelho, em que se funda exclusivamente a nova doutrina, mas é que ela me deu luz para ver o que nunca pude ver.

A Cosmogonia espírita deriva do Evangelho de Jesus Cristo, do mesmo modo como a Cosmogonia deriva da Igreja.

Como, então, perguntar-me-ão: tendo a mesma origem, divergem tanto, que enquanto uma ascende, a outra apaga a fé?

A resposta é simples. O Espiritismo apanha o espírito da doutrina de Jesus, enquanto a Igreja fica aferrada à letra do divino ensino.

O que é certo é que meu espírito ressurgiu das trevas do ceticismo por obra daquela leitura.

***

Agora sim, exclamei possuído de indescritível satisfação. As três peças da máquina ajustam-se perfeitamente, mostrando que tiveram o mesmo fabricante - e que foram vazadas em moldes harmônicos!

Agora desapareceram todos os motivos de dúvidas, que me arrastaram ao ceticismo!

A Cosmogonia espírita exalta o Criador e a criatura humana.

A um porque lhe atribui uma obra excelsa, um plano impossível ao engenho humano.

A outra porque reconhece-lhe a autonomia, como deve ter o rei da criação, a obra-prima do Criador.

O Senhor cria todos os espíritos em igualdade de condições, inocentes e ignorantes.

O Senhor marca a todos o mesmo destino: a perfeição pelo saber e pela virtude, a que se liga o inefável gozo da eterna felicidade.

O Senhor dá a todos para subirem da inocência primitiva à suma virtude, e da ignorância nativa à suma sabedoria, exatamente os mesmos meios.

O Senhor dá a todos para desenvolverem esses meios a mesma liberdade, a ampla liberdade que os constitui senhores absolutos de seu destino.

Igualdade de condições em tudo e para todos.

Se uns se adiantam e outros ficam atrás, culpa é só deles, do modo porque usam de sua liberdade.

Em respeito a esse inestimável dom, o Senhor não marcou prazo para a longa excursão. Cada um toma o que quer.

Como, porém, há tíbios e transviados, o Pai dividiu o longo curso em estações, ou vidas corpóreas, depois das quais castiga-os com penas corretivas, à semelhança do pai terrestre que pune os filhos pelos erros e faltas que cometem, para chamá-los ao bom caminho.

Estas penas servem de correção e de estímulo.

Pluralidade de existências, pelos infinitos mundos que enchem o espaço e penas corretivas, eis o fecho do sublime edifício cosmogônico-espírita, em que o Criador se apresenta ao homem, como o pai amoroso e justo, sem preferências nem exceções.

***

CONCLUSÃO

E não há, nesse plano cosmogônico, tão superior ao engenho humano, quanto é o da Moral e o da Teodiceia, coisa sobrenatural, que nossa razão não possa abraçar.

Ao contrário, tudo nele é tão elevado e ao mesmo tempo tão simples, que não se sabe o que mais admirar: se a sua grandeza majestosa, se o modo como se torna transparente à nossa razão.

Marchamos para o nosso destino - para esse que a razão nos diz ser o único compatível com a bondade e o amor do Pai do céu, escolhendo o caminho - apressando ou demorando o passo, segundo nossa vontade - empregando sempre os meios que nos foram dados, com a mais perfeita liberdade.

Temos os olhos de ver e ouvidos de ouvir, para nos guiarmos por eles - e não para tê-los cerrados, marchando, como um rebanho, por onde e para onde nos queiram levar.

Chegamos ao Pai por nosso próprio esforço, e não por estranho impulso; o que lhe deve ser de sumo agrado.

Esta sublime doutrina tirou de cima de minha alma o pesadelo do sobrenatural e substituiu a fé passiva pela fé consciente.

Nenhuma religião tem este caráter superior - e, portanto, ela assinala a superioridade do Cristianismo espírita.

O blasfemo princípio: de ser o ensino divino dado exclusivamente à um filho, com preterição de outros, dissipa-se à luz da Cosmogonia espírita, que ensina, de perfeito acordo com a razão, e na medida de sua capacidade para suportá-la: sem que fique um só dos espíritos criados privados dela.

Se numa existência, uns tantos, por seu atraso, não poderão recebê-la, tê-lo-ão em ulteriores existências.

Assim, o selvagem americano voltará à Terra em melhores condições de progresso; e então encarnará entre gente que lhe dê o ensino do Cristo.

Não há, pois, essa partilha desigual: do simples instinto do bem a uns e do amplo ensino do céu a outros.

As fantasias da criação de um homem único e da criação dos anjos, com que se representa a Deus, imperfeito e fraco, são substituídas pela criação única de espíritos, que, em suas diversas fases, representam o que hoje se chama: o homem - o anjo - e o demônio.

Anjo é o espírito humano purificado e elevado ao seu maior grau de perfeição.

Demônio é o mesmo espírito, enquanto se acha atrasado e afeiçoado ao mal.

A morte precoce das crianças deixa de ser uma falha no plano da criação ou uma volição frustrada do Criador, desde que o espírito, perdendo, por obra de uma lei natural, o instrumento corpóreo destinado a seu progresso, não fica privado de tomar outro, para realizar esse progresso.

A condição do idiota, na terra, fica perfeitamente explicada: desde que a vida aqui é de expiação. O idiotismo é um de seus modos.

As inclinações boas ou más e as inteligências lúcidas e rudes, dão a medida do adiantamento ou do atraso dos espíritos que as manifestam.

Os espíritos surgem aqui no grau de progresso em que acabaram a última existência, salvo quando têm podido progredir no espaço, ou quando vêm cumprir sentença de expiação.

É assim que o idiota pode ter um espírito, que tenha sido um vulto de grandíssimo saber e que foi condenado a representar um papel ignominioso e humilhante.

***

Em vista do que suscintamente vos tenho exposto sobre a impressão que produziu em minha alma o exame da Cosmogonia da Igreja, e a leitura da Cosmogonia espírita, parece-me dispensável dizer-vos que à dúvida, à descrença, ao ceticismo, substituiu a fé ardente: não essa que não sabe por que crê, puro fanatismo, mas a fé esclarecida pela perfeita compreensão do que fui, do que sou, do que hei de ser.

A Cosmogonia espírita deu-me os elementos corretivos das falhas que notei na da Igreja, e, pois, minha fé, além de esclarecida e consciente, é completa.

Convencido da verdade espírita, que tenho sujeitado ao mais sério exame, e até à experiência, venho em obediência ao preceito do Cristo confessá-lo em público, para que me possa Ele reconhecer em seu reino.

Confesso, pois, a fé cristã segundo o Espiritismo, dando graças a Deus, por ter abalado minhas entranhas, como Moisés abalou a dura rocha, fazendo brotar dela a pura linfa de minhas crenças religiosas.

E acrescentarei que só pude compreender e admirar as excelsas belezas e as incomparáveis grandezas da doutrina do Cristo quando as estudei à luz do Espiritismo.

Aí tendes, meus senhores, a explicação da coragem de que dou prova afrontando o juízo dos que, sem estudo sério de tão superior assunto, atribuem-se, entretanto, o direito de escarnecer dos que se deram a esse trabalho, qualificando-os de loucos ou possessos.

Agora reconhecereis que tive razão de lhes dizer que venho dos antípodas do Espiritismo e de minha exposição verificareis: se houve no meu êxodo a coluna de luz e de nuvens e o maná do céu.

O exórdio foi além da medida que lhe é própria, em vosso prejuízo e dano de minhas forças. Peço perdão desta falta.

Para não rescindir nela seria preciso dar-vos um discurso proporcional, e a tal castigo não quero sujeitar-vos.

Ficai, pois, com o exórdio só, e dar-vos-eis o discurso noutra ocasião.

(Transcrito do volume "Os Bezerra de Menezes e o Espiritismo", de Jorge Damas Martins, Ed. Novo Ser, Cap. 26, com a reprodução integral do texto original, publicado na revista O Reformador, da Federação Espírita Brasileira, em 1886, devidamente revisto e atualizado)

(1) Dr. Bezerra faz aqui referência à expressão latina "felix qui potuit rerum cognoscere causas", que, segundo o Dicionário Priberan, se traduz por "feliz aquele que pôde perscrutar as causas das coisas".

(2) Théodore Simon Jouffroy (06/07/1796-04-02-1842) foi um filósofo francês. Filho de um preceptor, recebeu educação muito religiosa, mas desde a juventude foi influenciado pela leitura de Rousseau e Voltaire. Mais tarde, na Escola Normal, atravessoou uma crise espiritual da qual deixou um relato. - Fonte: Wikipédia

(3) Dr. Bezerra provavelmente faz menção, aqui, à Euphrasie Fauchelevent, mais conhecida como Cosette, uma das personagens principais do romance Os Miseráveis de Victor Hugo. Cosette é apresentada como uma pobre criança amplamente maltratada pelo casal que a acolhe a pedido de Fantine, sua mãe.

O SALÃO DA GUARDA VELHA E
A HISTÓRIA DO ESPIRITISMO NO BRASIL

Uma das datas históricas do Espiritismo no Brasil é certamente a de 16 de agosto de 1886(1), quando o patrono de nossa CASA, Bezerra de Menezes, no auge de sua notoriedade pública - seja como o reconhecido "Médico dos Pobres", seja como político, empresário de prestígio ou ainda como um dos grandes personagens da cidade, à época - empresta à então novel Doutrina Espírita todo o seu prestígio, declarando publicamente sua adesão ao Espiritismo em palestra solene, com cerca de 2 mil pessoas presentes, no "Salão da Guarda Velha", conforme os registros da imprensa de então. Fez assim o Kardec Brasileiro a sua "entrée" pública em nosso movimento, sacudindo, literalmente, o Rio de Janeiro e as tradições de seu tempo...

Interessante observar que seus grandes biógrafos - a começar pelo prezado amigo de nossa CASA, Jorge Damas Martins, como também os estudiosos e atentos confrades Canuto de Abreu, Sylvio Brito Soares, Luciano Klein e Eduardo Carvalho Monteiro, entre outros - passaram sempre por esse episódio sem qualquer referência especial ao local propriamente dito - ao Salão da Guarda Velha - a tal ponto que ficamos curiosos em saber mais sobre o mesmo, pelo visto com grande capacidade, posto que comportou cerca de 2 mil pessoas naquele evento.

Foto de Augusto Malta, de 1928, da Fachada do antigo Teatro Imperial Pedro II, Centro do Rio de Janeiro, Século XIX"Quem procura acha... " - diz o ditado popular.

Procurando saber mais sobre este espaço encontramos algumas informações interessantes, que compartilhamos abaixo com os demais curiosos igualmente de plantão... Para adicionar "tempero", ao assunto, encontramos duas versões conflitantes...

Um primeiro estudo ao qual tivemos acesso (2) estabelece uma relação entre o Salão objeto de nosso interesse - o da Guarda Velha - e um importante teatro do centro do Rio do Século XIX. Vejamos:

"Merece mesmo destaque a Nova Fábrica de Cerveja Nacional, inaugurada em 1864, na Rua da Guarda Velha (atual 13 de Maio), de propriedade de Bartholomeu Correa da Silva, um importante empresário do entretenimento no Rio de Janeiro do século XIX. Ele adquiriu, em 1854, o Circo Olympico, que existia desde os anos 1830. Suas iniciativas à frente do negócio o tornaram uma valorizada opção de diversão da cidade". [...] O Circo Olympico tinha uma sede permanente na Rua da Guarda Velha, no mesmo terreno onde Bartholomeu instalaria, em 1871, o Teatro Pedro II, futuro Teatro Lírico (1890), um dos mais importantes da capital na ocasião. A fábrica de cerveja foi instalada na propriedade em frente; no terreno contíguo foram instalados os jardins, integrando um polo de entretenimentos".

Segundo os autores desse estudo a fábrica de cervejas teria sido demolida em 1884, junto com o salão, transcrevendo, para defender essa tese, uma crônica da época: "Já a picareta destruiu o belo salão da Guarda-Velha que tanto serviu para obras de caridade, festas, quermesses, bailes, concertos, exposições, quase sempre gratuitamente, porque seu dono, o Sr. Machado, tinha prazer em concorrer com o seu auxílio a todas essas manifestações festivas, sempre dirigidas por distintos cavalheiros, tanto nacionais como estrangeiros" (REVISTA ILUSTRADA, 1884, p. 3).

Essa última parte sabemos que não confere, porque a palestra de Dr. Bezerra foi em 1886, dois anos mais tarde, portanto, e foi feita no Salão. Talvez a demolição da fábrica tenha sido em 1884 e a do Teatro mais tarde...

Na segunda fonte que identificamos, sobre esse tema, há diversas informações sobre o "Teatro Pedro II".

O site do CTAC - Centro Técnico de Artes Cênicas, aqui do Rio de Janeiro, traz um importante levantamento histórico sobre os teatros de nossa cidade, e nos conta que o antigo Teatro Pedro II - segundo eles fundado em 1851 - se situava na Rua da Guarda Velha (atual Treze de Maio) número 10. Nas citações de "O Reformador", desse espaço, nunca localizamos referência ao número do endereço, o que agora, felizmente, sabemos. Informa ainda o CTAC que por decreto do imperador, em 1875, o espaço foi renomeado como Teatro Imperial Pedro II, assim permanecendo até 1890, quando, com o advento da República, passou a se chamar Teatro Lírico, até sua demolição, em 1934.

Encontramos na mesma fonte um pouco de sua descrição, e tão boa que até é possível imaginar o nosso Bezerra, em seu palco, falando magistralmente para uma plateia atenta:

Planta do interior do antigo Teatro Imperial Pedro II, Centro do Rio de Janeiro, Século XIX"Sabe-se que o Lyrico era um teatro grande [...] com dois pavimentos. Na frente, havia uma porta central com 4 bandeiras no térreo, e no pavimento superior, em cima dessa porta, um conjunto de 5 janelas francesas, em arco, com sacadas de ferro batido. De ambos os lados dessas janelas, uma sacada aberta seguida de duas janelas francesas de cada lado. Na fachada lateral, havia no 1o. pavimento 5 janelas francesas com sacadas de ferro batido".

No seu interior, "a sala principal era toda pintada de branco e ouro e descrevia a forma de uma ferradura. Em torno das cadeiras, encostada à plateia, corria uma espécie de estrado, fechando uma balaustrada para o lado da sala de espetáculos, à qual ficava superior... entalhavam-se no mesmo arco da boca de cena, precedido de uma sala de repouso mais 6 camarotes. A Tribuna Imperial erguia-se sobre a porta principal da entrada, rematando na altura do teto e ocupando a largura de 4 camarotes.

E ainda:

"As cadeiras eram de jacarandá e tinham como característica especial seu encosto de três recortes, sendo que na tabela central havia uma placa de esmalte preto e branco com a letra e o número da poltrona. O assento era de palhinha e os pés de cachimbo (características dos móveis em uso pelos anos de 1860). O camarote imperial era montado em grande luxo".

Localizamos também detalhes sobre sua capacidade, e através deles é possível realmente imaginá-lo lotado, com todos os olhos voltados para a figura serena e nobre do nosso Médico dos Pobres...: "contava o teatro com 1400 cadeiras de platéia" e "diversas ordens de camarotes: 42 camarotes de 1a. com 5 cadeiras; 42 camarotes de 2a. com 5 cadeiras; 2 camarotes de 3a. com 5 cadeiras; 252 galerias, 168 fauteuils de varandas (cadeiras de braços), além da Tribuna Imperial. Isto dava um total de 2500 lugares".

O Teatro Imperial Pedro II era particular, e sua propriedade se manteve com seu primeiro dono, Bartolomeu Correa da Silva até 1913, quando foi adquirido pela família Celestino Silva. Segundo estudiosos de sua história(3), seu teatro "não sobressaiu apenas por ser luxuoso ou por seu projeto acústico, mas por ser o único teatro a apresentar óperas com artistas italianos e franceses" [...] "considerado o maior teatro do Brasil" [...] "seu palco era vastíssimo e todo maquinado, para espetáculos liricos e dramáticos, mágicas, companhias equestres e grandes bailes de carnaval".

Quem poderá nos esclarecer com relação às contradições acima? Com a palavra, os historiadores!

(1) Em seu volume "Os Bezerra de Menezes e o Espiritismo", ed. Novo Ser, Cap. 26,o escritor e conferencista Jorge Damas Martins narra com vivos detalhes os episódios do entorno desse evento e levanta uma hipótese que nos parece muito provável - a de que a palestra transcorreu, na verdade, no dia 17 daquele mês de agosto, e não no próprio dia 16, como originalmente previsto, devido ao nascimento, no dia 16, de uma das filhas do Dr. Bezerra - Hilda ou Hildinha.

(2) "NOVAS DINÂMICAS DE LAZER: AS FÁBRICAS DE CERVEJA NO RIO DE JANEIRO DO SÉCULO XIX 1856-1884), de Victor Andrade Melo e Thaina Schwan Karls. Artigo publicado na Revista Movimento, da UFRGS - Porto Alegre, v. 24, n. 1., p. 147-160, jan./mar. de 2018.

(3) "FESTAS CHILENAS: sociabilidade e política no Rio de Janeiro no Ocaso do Império Históricos e Jornalísticos", de Jurandir Malerba, Cláudia Beatriz Heynemann e Maria do Carmo Teixeira Rainho (Orgs.). Ed. EDIPUCRS, 2014, pág. 86

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UMA MATERIALIZAÇÃO DE BEZERRA DE MENEZES

Retrato de Carlos MirabelliNessa mesma reunião, minutos após a constatação do caso anterior, o médium (Carlos Mirabelli) caiu novamente em transe, teve alguns espasmos violentos, debateu-se e foi logo seguro. Sobre a mesa havia uma campainha de mão. Essa campainha oscilou, produzindo um tinido, chamando a atenção dos assistentes e, em seguida, levitou, pairou no ar, e, agitada por força invisível, começou a tocar. Com o tinir da campainha, o médium despertou e, olhando em direção à mesa, disse aos presentes estar vendo um vulto de um homem idoso, de barbas brancas, aspecto nobre, vestido com uma túnica branca e contornado por resplendente halo de luz azul celeste, entremeado de nuvens brancas, alvíssimas, e todo contornado por rutilantes focos dourados. A campainha, sempre no ar, continuava a tinir com um som agudo. De repente, com susto geral, ouviu-se um forte estrondo, como um bater de botas sobre o assoalho de madeira. Surgiu, perto da mesa, a figura de um ancião, como o descrito pelo médium, que empunhava a campainha, tocando-a, ainda, por uns instantes. No mesmo momento, os Srs. Cel. Joaquim Soares e Dr. Otávio Moreira Cavalcanti declararam estar ali presente o Dr. Bezerra de Menezes, conhecidíssimo clínico, de saudosa memória, que foi, em vida, conhecido como o "médico dos pobres" e post-mortem como o "Kardec brasileiro", "Unificador do Espiritismo no Brasil" e, também, "Apóstolo do Espiritismo no Brasil", tamanha foi a importância de seu trabalho na beneficência e no movimento espírita brasileiro.

O recém-chegado, com maneiras afabilíssimas, modos de um perfeito cavalheiro, dirigiu-se aos presentes, falou-lhes de sua pessoa e confirmou ser o próprio Bezerra. A sua linguagem, tão elevada quanto distinta, impressionou a todos. O ampliador de sons acusou a sua voz. Muitas chapas fotográficas foram batidas e os Drs. Asunción e Archimedes Mendonça, após estas preliminares, dirigiram-se ao Mentor Espiritual e fizeram-lhe um exame completo, o qual durou quinze minutos, findos os quais, em voz alta, declararam aos presentes tratar-se efetivamente de uma pessoa normal, cuja constituição anatômica e funções orgânicas eram perfeitas. E o próprio visitante espiritual, com evidente intuito de melhor frisar a sua presença, apertou a mão de todos os presentes, apesar do retraimento de alguns. O Espírito estava descalço. Falou novamente, anunciando a sua partida e logo pendeu, em plano vertical, até ficar flutuando no ar, de face voltada para o chão, qual um dirigível, e, então, começou a desaparecer, a partir de suas pernas e ventre. Restavam só o busto e os braços flutuando no ar, quando o Dr. Archimedes Mendonça exclamou:

- Mas isto é demais!

Precipitando-se, agarrou-se àquela metade de corpo humano, porém, ao fazer isso, deu um grito agudo e caiu desmaiado, como se tivesse levado um choque elétrico. A forma espiritual materializada, que pairava no ar, desapareceu instantaneamente. O Dr. Archimedes, ao ser socorrido, voltou a si e relatou que apertou entre os dedos uma massa flácida e esponjosa e recebeu um choque fortíssimo. O médium estava abaladíssimo e foi desalgemado. A comissão reexaminou o ambiente, percorrendo as portas fechadas e lacradas, encontrando todos os sinetes intactos.

(Episódio narrado no volume "Mirabelli, um Médium Extraordinário", de L. Palhano Jr. ed. CELD, Cap. VI, págs. 73-74)

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BEZERRA DE MENEZES E ANTÔNIO LUIZ SAYÃO TESTEMUNHAM O FENÔMENO DE ESCRITA DIRETA

Foto do médium Henry SladeQuando o famoso médium norte-americano Henry Slade esteve no Rio de Janeiro, em 20 de Junho de 1888, uma Comissão da Federação Espírita Brasileira dirigiu- se certo dia ao local onde ele se hospedara.

Eis, a seguir, o relato do que aconteceu nessa visita, feito por Bezerra de Menezes nas páginas do Reformador de 15 de Março de 1889:

«Seria uma hora da tarde, quando eu, o Dr. Saião, o médium Nascimento e o professor Alexandre nos apresentamos na casa de pensão, morro da Glória, onde se achava Slade hospedado.Acolhidos amavelmente, ficaram na sala de recepção.

Nascimento e Alexandre, levando-nos a mim e a Saião para uma saleta, onde havia uma mesa, sobre a qual estavam duas ardósias.

Deu uma a Saião e outra a mim, para que as examinássemos e limpássemos, o que foi feito com o maior cuidado, e, sem que mais permitíssemos que Slade nelas tocasse, demos princípio ao trabalho.

A saleta tinha uma janela aberta para fora, de modo que a luz do dia lhe dava a mais completa claridade.

Slade mandou Saião depor sua ardósia sobre a mesa, pôs sobre ela uma insignüicante porção de lápis, e disse-me que assentasse a minha ardósia sobre a outra, de modo que a partícula de lápis ficou entre as duas.

Feito isto, mandou-me tomar as duas pedras com a mão direita, de modo a tê-Ias unidas, e levou minha mão com as pedras. à altura do meu ombro esquerdo, onde as apoiei. Slade colocou suas duas mãos sobre a mesa, e com as duas de Saião e a minha esquerda livre formou a cadeia magnética.

Começamos a ouvir estalidos na mesa, e em menos de dois minutos ouvimos, entre as pedras, bem sensivelmente, o cricri do lápis.

Assim que cessou o ruído, eu abri as pedras, e encontrei, na face interna de uma, duas comunicações, separadas por um traço de lápis.

A primeira, assinada por L. de Mond, estava escrita em francês, e dizia: «Un homme sage est QIU dessus de toutes les injures qu´on peut lui dire. La grande response qu´on doit faire aux outrages c´est la moderation et la patiense.

Parece que o Espírito escolheu um conceito adequado às minhas condições.

A segunda, escrita em inglês, continha estas palavras:

«YeS, mty friend, flhe above i8 quite tTtuzf aU men iooulâ act to tbe above it would be much. better for all. l'om. Dr. Daois .»

Por minha honra afirmo que este fato estupendo passou-se como o refiro, e o pode confirmar o ilustre Dr. Saião.

Não tendo as pedras, que limpámos, saído de minhas mãos, e tendo eu ouvido claramente o ruído do lápis sobre o meu ombro, tenho certeza de que nenhum dos três presentes foi autor daquelas notáveis comunicações.

(a) Dr. BEZERRA DE MENEZES."

pelo «GRUPO ISMAEL»

("Grandes Espíritas do Brasil", de Zêus Wantuil, 2a. Ed. FEB, págs. 145 e 146)

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