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Bezerra de Menezes

Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da humanidade. - Allan Kardec

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PACIÊNCIA E CÓLERA

Jesus nos abençoe.

Fotomontagem - pílulas de paciênciaFilhos: Se vos encolerizais frequentemente, não sois cristãos. Olhai a estrada percorrida pelo Mestre e verificareis que, em inúmeras ocasiões, a sua paciência evitou muitos dissabores a todos os que o cercavam e vos envergonhareis de vos dizerdes seguidores de Jesus.

Jamais o Cristo procurou ver primeiro a si mesmo, como Filho de Deus, antes de ver o povo humilde, sofredor e necessitado de esclarecimento e amparo. Sua passagem por este planeta, em abnegado esforço, dada a excelsitude do seu Espirito, foi exemplo de paciência, tolerância, cordura e amor. Aconselhava indulgência, resignação e fé, como elementos do trabalho moral que fortalece a alma e a aproxima do Pai amoroso que, um dia, a virá buscar para o mundo da Verdade. A descrença nunca o assaltou, nunca ficou Ele em dúvida quanto à presença do Pai a seu lado. Mesmo quando as turbas ignorantes o insultavam, Jesus procurava sempre, na alma revoltada desses infelizes, a razão do ódio que extravasavam sobre a Sua pessoa. O silêncio que o Mestre guardou diante das autoridades tinha uma eloquência impressionante. Naqueles instantes dramáticos, Jesus mostrou-se despreocupado dos elevados postos terrenos que eles ocupavam, os quais nada valem para a situação difícil a que o mau uso do livre-arbítrio pode levar as criaturas divorciadas da razão e do sentido. Assim, a ignorância de Pilatos mereceu seu doce olhar de misericórdia e perdão, deplorando-lhe a covardia, mas compreendendo tratar-se de um espírito fraco, que falhava em graves provas reformatórias.

Irmãos: Se deixais que a cólera vos domine em face dos pequeninos nadas da vida cotidiana, é porque assimilais fluídos pesados e destruidores, que vos perturbam o Espírito e não raro afetam o vosso organismo. Relembrai sempre dos exemplos de Jesus. Amparai-vos sem cessar nas lições do Evangelho, a fim de poderdes cumprir os vossos deveres de espíritas cristãos. Dessa forma, dominareis a irritação, o mau-humor, a cólera e vos forrareis de paciência e tolerância. Distribuindo a paz em vosso redor, conseguireis que, ao penetrardes em qualquer ambiente, todos sejam beneficiados com a vossa presença. Se também fizerdes orações para os vossos irmãos de peregrinação terrena, quaisquer que eles sejam, mesmo que não compreendam o que Jesus nos pede - e Ele nos pede tão pouco! - estareis espalhando o amor que há de tornar este mundo, um dia, digno dos sacrifícios que Jesus por ele tem feito.

Paz e amor em Jesus.

Bezerra de Menezes

(Mensagem recebida pelo fundador e Orientador-Geral de nossa CASA, Azamor Serrão, e publicada em O Cristão Espírita No. 20, Ed. de outubro-novembro de 1968)

VÃO SIMULACRO?

Contagem regressiva para a XIV edição do Congresso Roustaing em andamento... faltam agora apenas 3 semanas! Estão todos convidados... para esquentar os motores para o evento, segue mais um artigo, dessa vez sobre a opinião de nosso Codificador sobre o Corpo Fluídico de Jesus. Boa leitura a todos e... até Volta Redonda!

ilustração de teletransporte “Se as condições de Jesus, durante a sua vida, fossem as dos seres fluídicos, ele não teria experimentado nem a dor, nem as necessidades do corpo. Supor que assim haja sido é tirar-lhe o mérito da vida de privações e de sofrimentos que escolhera, como exemplo de resignação. Se tudo nele fosse aparente, todos os atos de sua vida, a reiterada predição de sua morte, a cena dolorosa do Jardim das Oliveiras, sua prece a Deus para que lhe afastasse dos lábios o cálice de amarguras, sua paixão, sua agonia, tudo, até ao último brado, no momento de entregar o Espírito, não teria passado de vão simulacro, para enganar com relação à sua natureza e fazer crer num sacrifício ilusório de sua vida, numa comédia indigna de um homem simplesmente honesto, indigna, portanto, e com mais forte razão de um ser tão superior. Numa palavra: ele teria abusado da boa-fé dos seus contemporâneos e da posteridade. Tais as consequências lógicas desse sistema, consequências inadmissíveis, porque o rebaixariam moralmente, em vez de o elevarem. Jesus, pois, teve, como todo homem, um corpo carnal e um corpo fluídico, o que é atestado pelos fenômenos materiais e pelos fenômenos psíquicos que lhe assinalaram a existência”. – Allan Kardec (“A Gênese”, Cap. Os Milagres do Evangelho, item 66)

Sempre alimentamos simpatia por aqueles que manifestam sua discordância à ideia do corpo fluídico na forma de uma “defesa” de Jesus, à semelhança do que vemos no texto acima, de Kardec, em “A Gênese”. Afinal, como desgostar, de qualquer maneira, de alguém que se coloca em defesa do Cristo? Por outro lado, é constrangedor, nessas oportunidades, perceber que o outro nos imagina acusando ao nosso Mestre Amado de algo indigno...

Deparamo-nos com esse gênero de objeção muitas vezes, ao longo dos anos, e terminamos por denominá-la como “a questão moral”. Os que a utilizam cultivam comumente uma espécie de “rejeição instantânea” à obra “Os Quatro Evangelhos” por entender que, se ela defende uma ideia tão negativa, em relação ao Cristo, não merece o seu tempo e atenção...

Quando surge, nas conversas sobre o corpo fluídico, a “questão moral” nos chega sempre numa espécie de silogismo, colocado mais ou menos nos seguintes termos:

“Se tivesse corpo fluídico ou aparente o sacrifício do Cristo seria uma mentira.
Um Espírito do nível de Jesus não mente.
Logo, Jesus não teve corpo fluídico”.

A frase do meio é tão forte, tão livre de contestação, que parece “emprestar” força às outras duas, chegando ao ponto de dar aos seus usuários a sensação de ter resolvido o dilema em definitivo. Trazem consigo, por isso, a “certeza” da impossibilidade de Jesus ter tido uma condição biológica diferente da nossa. É sempre muito difícil lidar com a “certeza” alheia, mas sabemos hoje que entre o preto e o branco existem muitos tons de cinza. Olhando o problema, com mais profundidade, talvez possamos descobrir nuances novos, não percebidos anteriormente... quem sabe?

Vamos primeiro dividir o problema. Analisando o silogismo acima chegamos a dois pontos centrais:

  1. A premissa de que se não há outros tipos de sofrimento, diferentes e talvez até maiores do que os que conhecemos;
  2. A ideia de que "aparência", no caso, necessariamente se traduza em mentira.

REFLEXÕES SOBRE O SOFRIMENTO DE CRISTO

raios luminososCom relação ao primeiro ponto observa-se de imediato um problema de expectativa, uma espécie de reducionismo, inconsciente e instintivo. Como conhecemos bem, em nosso mundo material, as dores e as necessidades físicas, estimamos que o Cristo as suporte, da mesma forma, a fim de fazer valer sua vinda, sua missão, seu sacrifício. O critério de validação é colocado a partir da nossa régua, da nossa referência, com base nas dores e necessidades que conhecemos, projetando para o outro a expectativa de que com ele se dê exatamente aquilo que ocorre conosco. O pensamento subjacente é esse: "se não for assim, não vale..."

Questionado, no entanto, exatamente sobre as dores do Cristo, nosso abençoado Emmanuel, o iluminado mentor de nosso Chico Xavier, nos esclarece que não se pode aplicar a um espírito puro como o de Cristo os nossos parâmetros, e que há dores de outros tipos, além das que conhecemos...

“De modo algum poderíamos fazer um estudo psicológico de Jesus, estabelecendo dados comparativos entre o Senhor e o homem”. (“O Consolador, Q.287)

E mais:

“Numerosos discípulos do Evangelho consideram que o sacrifício do Gólgota não teria sido completo sem o máximo de dor material para o Mestre Divino. Como conceituar essa suposição em face da intensidade do sofrimento moral que a cruz lhe terá oferecido?"

"A dor material é um fenômeno como os dos fogos de artifícios, em face dos legítimos valores espirituais. Homens do mundo, que morreram por uma ideia, muitas vezes não chegaram a experimentar a dor física, sentindo apenas a amargura da incompreensão do seu ideal. Imaginai, pois, o Cristo, que se sacrificou pela Humanidade inteira, e chegareis a contempla-Lo na imensidão da sua dor espiritual, augusta e indefinível para a nossa apreciação restrita e singela. [...] Examinados esses fatores, a dor material teria significação especial para que a obra cristã ficasse consagrada? A dor espiritual, grande demais para ser compreendida, não constitui o ponto essencial da sai perfeita renúncia pelos homens? Nesse particular, contudo, as criaturas humanas prosseguirão discutindo, como as crianças que somente admitem as realidades da vida de um adulto, quando se lhe fornece o conhecimento tomando por imagens o cabedal imediato dos seus brinquedos”.

Há então uma "dor espiritual" - além da DOR MORAL - "grande demais para ser compreendida" em nosso estágio atual, qual crianças discutindo temas de adultos...

Ora, é muito difícil para os que se encontram em estágio anterior entender e descrever a natureza e/ou a intensidade das sensações conhecidas pelos que seguem à frente na jornada, assim como de nosso plano compreender plenamente o que se passa no “mundo dos Espíritos”, por falta de referências e até de vocabulário.

A matéria não imagina o que seja a sensibilidade da planta. Esta, por sua vez, não faz ideia do que seja a dor enfrentada pelo animal. A fera conhece a dor física e a enfrenta dia a dia nos embates do caminho; mas pouco sabe da dor moral. O homem descobre em si uma essa dor nova, a dor que “vem de dentro” – a dor moral – mas só a preço de muitas lágrimas o coração mais rijo se sensibiliza.

Em cada nível, a dor que lhe é própria – simbolizados nos três gritos do Calvário - mas todos acreditam ser a sua sempre a maior e mais importante:

“Na Terra temos sempre a ilusão de que não há dor maior que a nossa”– diz acolhedora Laura a André Luiz, em Nosso Lar (Cap.19)

ilustração - visão do átomoA consciência dessa gradação é importante para o nosso aprendizado, porque ajuda-nos pelo menos a entrever, pelo pensamento, o que não é ainda possível “sentir” ou “viver” em razão de nossa baixa maturidade espiritual. Refletindo com mais calma sobre o tema, fica fácil compreender o erro em que incorreria o representante de cada nível se, generalizando, projetasse para os demais apenas a dor que lhe diz respeito.

Imagine-se os minerais, por exemplo, se pudessem, atribuindo a todos os seres da criação a sua insensibilidade. Ou, as plantas, questionando a existência de alguma sensação diferente da sua. Ou, ainda, os animais, diminuindo a importância das dores morais apenas porque seu coração não está preparado para senti-las na dimensão que as conhecemos...

Agora – perguntamos nós, depois do que vimos acima, sobre os Espíritos puros – não estaríamos caindo nesse mesmo erro, quando esperamos encontrar no Cristo apenas as nossas dores, dores físicas, corpóreas, tentando medir o Seu sacrifício no Calvário estritamente pelas nossas medidas, sem atinar para a distância evolutiva que nos distingue? Talvez aí esteja um primeiro ponto a considerarmos, sobre o “dilema” apresentado acima...

Em seu “Universo e Vida” (1978), o Espírito Áureo, através da psicografia do prezado Hernani Sant’Anna, traz novas referências sobre o assunto, explicando-nos a experiência vivida por um Espírito puro, como o Cristo, no esforço de corporificar-se entre nós, a fim de tornar-se visível e estabelecer um contato mais direto com a nossa realidade grosseira:

“Para apresentar-se visível e tangível na superfície da crosta terráquea,teve o Cristo Planetário de aceitar voluntariamente intraduzível tortura cósmica,indizível e imensa, ainda que quase de todo inabordável ao entendimento humano”.(Cap.7, 8a. Ed.FEB, pág. 56)

Áureo traz-nos detalhes desse processo:

“Primeiro, obrigou-se à necessidade de abdicar, por espaço de tempo que para nós seria longuíssimo, da sua normal ilimitação de Espírito Cósmico e ao seu trono no Sol, sede do Sistema, transferindo-se do centro estelar para a fotosfera, onde lhe foi possível o primeiro e doloroso mergulho na matéria, através do revestimento consciente do seu mentespírito com um tecido energético de fótons. Depois, teve de imergir no próprio bojo do planeta Terra, em cuja ionosfera utilizou vastos potenciais eletromagnéticos para transformar seu manto fotônico em leptons e em quarks formadores de mésons e de hárions, estruturando átomos ionizados.Finalmente, concluindo a dolorosíssima operação de tangibilidade, revestiu esse corpo iônico com delicadíssima túnica molecular, estruturada à base de ectoplasma, combinando com células vegetais, recolhidas principalmente (como já captou a intuição humana) de vinhedos e trigais”. (Cap. 7, 8ª.ed. FEB, págs. 56 e 57)

E prossegue:

“Embora nossas toscas palavras e rudes considerações não possam, de nenhum modo, dar a mais pálida ideia do imensurável sacrifício do Cristo Divino para materializar-se entre os homens, convém aqui refletirmos um pouco sobre o que sabe a experiência humana, no campo dos tormentos a que está exposta no mundo a sensibilidade apurada. [...] O que avulta de pronto à nossa assustada percepção é o superlativo massacre de sensibilidade que se evidencia no fato de um Ser, não apenas de super-requintada, mas de divina delicadeza sensorial, expor-se ao inferno de baixas, odientas e agressivas vibrações terrestres, para respirar e agir, por inexcedível amor, no clima superlativamente asfixiante de nossas humanas iniquidades. Em face do muito de sublime já escrito na vasta literatura espírita-cristã, sobre a dor moral, em suas variadíssimas expressões, não examinaremos aqui esse primordial e nobilíssimo aspecto do sacrifício messiânico, mas insistiremos em chamar a atenção para a terrível realidade psicofísica do maior de todos os dramas de dor, que foi a materialização crística neste mundo de trevas e maldade; dor real inimaginável, jamais sofrida, na Terra, por qualquer Ser vivente, nem antes nem depois do Filho de Maria”. (Cap. 7, 8a. Ed. FEB, pág. 57)

Seria essa “tortura cósmica” descrita por Áureo a “dor espiritual” a que se referiu Emmanuel? Uma dor “grande demais para ser compreendida”?, “indizível e imensa”, “ainda que quase de todo inabordável ao entendimento humano”, no dizer de Áureo? “Imensurável sacrifício”?

Difícil dizer, exatamente pelas razões expostas. Estamos aqui lidando com o limite de nosso cognoscível, de nosso entendimento, um terreno todo nebuloso para a nossa insensibilidade, para a completa falta de referências sobre os planos mais altos da existência...

Em seu “Universo e Vida”, Áureo ainda destaca outro aspecto da questão – a hipersensibilidade dos corpos espirituais mais refinados, menos densos:

“À proporção que a densidade decresce, a sensibilidade se intensifica. No perispírito dos desencarnados, ela é muito maior do que no dos encarnados comuns, porque aqueles lidam com matéria mais rarefeita, mais plástica e, por isso, mais obediente às modelagens mentais”. [...] Teve [Jesus], portanto, sobradas razões para exclamar, como registrou o evangelista Marcos (9:19): “ó geração incrédula e perversa, até quando me fareis sofrer?” O sofrimento experimentado por Jesus, na preparação e no decurso de seu messianato, não teve, não tem e não terá similar, de qualquer ângulo que seja analisado, inclusive no que concerne à dor física, tal como a entendemos, em vista da sua inigualável sensibilidade orgânica. (Cap.7, 8a. ed. FEB, pág. 58)

Quadro de Caravaggio - Jesus e ToméSeria o corpo de Jesus, ao contrário do imaginado por Kardec, mais sensível à dor física, em razão da tessitura sutil do corpo espiritual criado para suporte de sua materialização? Ou, quem sabe, seria ele sensível ao ponto de sofrer na forma de dor os efeitos danosos das pestilenciais emanações mentais do psiquismo humano, durante sua estadia entre nós??? Abençoado Áureo! Abençoado Hernani!

Não temos as respostas, ainda, mas o maior mérito que encontramos na revelação de “Universo e Vida” é o fato de que ela reforça a hipótese de uma dor maior que aquela que conhecemos, para o Cristo, “quebrando” de vez, por assim dizer, a “esfinge” - o dilema “binário” proposto pelo Codificador: “ou dor física, ou mentira” - que se apresentava como insolúvel, desafiando as nossas capacidades e ao mesmo tempo nos dividindo em posições de pensamento antagônico. Com Áureo, descobre-se a possibilidade de um caminho completamente novo, e absolutamente em linha com o perfil moral e totalmente Superior do Cristo. Foi necessário que os anos se passassem para que os alertas de Emmanuel, combinados com a revelação de Áureo, nos remetessem a um quadro totalmente diverso.

O fato novo, nesta história, é essa “dor espiritual”, essa “tortura cósmica” do Espírito puro, ao ter de remontar um corpo espiritual, temporário, a fim de poder materializar-se entre nós. Um sacrifício imensamente mais doloroso do que qualquer sensação humana possa descrever. E esse esforço não é de poucas horas, mas de um tempo muito maior, necessário à preparação e execução de toda a Sua missão entre nós...

Nossa mente pequenina se satisfazia e cobrava de Jesus um sacrifício com “s” minúsculo. O Cristo nos ofereceu, silenciosamente, um outro, muito maior, com “S” maiúsculo, este sim muito mais proporcional à Sua dignidade, à Sua modéstia, à Sua abnegação sem limites pelos irmãos menores, todos nós que estamos sob Sua responsabilidade, como governador planetário. Vestiu uma “roupa de espinhos” durante trinta e três anos, enquanto nos preocupávamos com uma “coroa de espinhos” de apenas algumas horas... Um Sacrifício Silencioso, preservado por modéstia e só agora revelado, quase dois mil anos depois, provavelmente para nos ajudar exatamente a sair do dilema, a dar um passo à frente em nossa compreensão, descortinando horizontes novos, ainda não vistos, e sequer imaginados anteriormente. Um Sacrifício Santo, e tão mais santo exatamente pelo fato de ter-se ocultado, por ato de modéstia, por vivência plena e exemplar daquilo que nos traz o evangelho.

È com base em todas essas considerações que Áureo refuta enfáticamente a tese do "vão simulacro":

Completamente irreal e terrivelmente injusto é, pois, o argumento de embuste, largamente usado pelos que não compreendem a absoluta impossibilidade da encarnação comum de um Ser Crístico e só conseguem ver uma grosseira pantomima na capacidade de sofrer de um agênere. A verdade, como vemos, é bem outra, incomparavelmente bela, justa, santa, lógica e real; a realidade do sublime amor daquele que é, de fato, o Caminho, a Verdade e a Vida” – conclui Áureo. (Cap.7, 8a. ed. FEB, pág.60)

Um detalhe importante, que merece ser destacado, antes de terminarmos esse item, é o fato de “Universo e Vida” ter sido publicado pela FEB em 1978, quase cem anos depois da desencarnação de Roustaing, ocorrida a 02 de janeiro de 1879, como se sabe. Parece que a Espiritualidade Superior guardou essa revelação para um momento especial, trazendo assim a sua parte na celebração do centenário de desencarnação do tão incompreendido Apóstolo de Bordeaux...

Vejamos agora a questão da aparência...

APARÊNCIA É SEMPRE MENTIRA?

Será que, em algum momento de sua missão, Jesus se serviu não da mentira, mas da aparência, em nosso benefício? E, em se confirmando algum caso do gênero, como Ele teria feito, para combinar verdade e aparência, que a alguns parecem inconciliáveis?

Comecemos a análise desse item com um caso menor, mais próximo de nossa realidade, extraído da Coleção André Luiz - do volume “Libertação” - capítulo 4. André e seu companheiro de estudos, Elói, dirigem-se então à uma cidade em pleno Umbral, orientados pelo instrutor Gúbio, para uma missão especial: obter de Gregório, um dos líderes daquela comunidade trevosa, a autorização para uma tentativa de tratamento da jovem Margarida, uma de suas vítimas, ainda encarnada, e filha de Gúbio, em uma de suas existências. O texto começa com a descrição de uma paisagem em tudo triste, e “pesada”:

“Após a travessia de várias regiões, “em descida”, com escalas por diversos postos e instituições socorristas, penetramos vasto domínio de sombras. A claridade solar jazia diferençada. Fumo cinzento cobria o céu em toda a sua extensão. A volitação fácil se fizera impossível. A vegetação exibia aspecto sinistro e angustiado. As árvores não se vestiam de folhagem farta e os galhos, quase secos, davam a ideia de braços erguidos em súplicas dolorosas. Aves agoureiras, de grande tamanho, de uma espécie que poderá ser situada entre os corvideos, crocitavam em surdina, semelhando-se a pequenos monstros alados espiando presas ocultas. O que mais contristava, porém, não era o quadro desolador, mais ou menos semelhante a outros de meu conhecimento, e, sim, os apelos cortantes que provinham dos charcos. Gemidos tipicamente humanos eram pronunciados em todos os tons”.

Depois de breve pausa na jornada, Gúbio dá uma primeira orientação aos seus dois discípulos:

Nossas organizações perispiríticas, à maneira de escafandro estruturado em material absorvente, por ato deliberado de nossa vontade, não devem reagir contra as baixas vibrações deste plano. Estamos na posição de homens que, por amor, descessem a operar num imenso lago de lodo; para socorrer eficientemente os que se adaptaram a ele, são compelidos a cobrir-se com as substâncias do charco, sofrendo-lhes, com paciência e coragem, a influenciação deprimente. Atravessamos importantes limites vibratórios e cabe-nos entregar a forma exterior ao meio que nos recebe, a fim de sermos realmente úteis aos que nos propomos auxiliar. Finda a nossa transformação transitória, seremos vistos por qualquer dos habitantes desta região menos feliz”.

Seguindo a instrução recebida, André Luiz e Elói passam a inalar as substâncias espessas que pairavam ao redor, observando em seguida profundas transformações na aparência de seu corpo perispirítico:

“Reparei, confundido, que a voluntária integração com os elementos inferiores do plano nos desfigurava enormemente. Pouco a pouco, sentimo-nos pesados e tive a ideia de que fora, de improviso, religado, de novo, ao corpo de carne, porque, embora me sentisse dono da própria individualidade, me via revestido de matéria densa, como se fôsse obrigado a envergar inesperada armadura”.

Capa do volume Libertação, de André Luiz, psicografia de F.C.XavierInstantes depois da transformação, uma dúvida ética estremece aos dois colaboradores de Gúbio:

“— Mas, não será isto mentir? clamou Elói, quase refeito. Gúbio dividiu conosco um olhar de benevolência e explicou, bondoso: — Não te recordas do texto evangélico que recomenda não saiba a mão esquerda o que dá a direita? Este é o momento de ajudarmos sem alarde. O Senhor não é mentiroso quando nos estende invisíveis recursos de salvação, sem que lhe vejamos a presença. Nesta cidade sombria, trabalham inúmeros companheiros do bem nas condições em que nos achamos. Se erguermos bandeira provocante, nestes campos, nos quais noventa e cinco por cento das inteligências se encontram devotadas ao mal e à desarmonia, nosso programa será estraçalhado em alguns instantes”.

Gúbio e seus assistentes estavam literalmente “apagando a sua luz” e condensando a sua forma perispiritual, na medida do possível e necessário, a fim de serem percebidos sensoriamente pelos habitantes do local, ao ponto de poderem estabelecer contato, em benefício da missão desejada e da jovem Margarida...

Assumiram, por isso, uma “aparência” – palavra chave nesse caso – diferente da sua habitual, a fim de atingir ao fim colimado.

A reação dos dois assistentes foi rigorosamente igual à nossa, quando da associação feita entre aparência e mentira, no caso de possível ausência de dor física durante os episódios do Calvário do Cristo...

Será mentira ocultar ou omitir as próprias qualidades, quando o interlocutor não as possui, ou não se encontra apto a entendê-las? Ou, na hipótese acima, quando a revelação de toda a verdade prejudicará uma missão de socorro a quem se deseja beneficiar?

Voltemos ao caso do Cristo. Temos aí uma situação bem parecida com a do nosso Instrutor Gúbio e seus discípulos. Espírito Puro, já livre das encarnações materiais (Q.113, 168 e 226 de “O Livro dos Espíritos”), materializara-se para ofuscar suas luzes, a fim de tornar-se visível e assim poder cumprir plenamente a sua missão entre nós. Lembram-se da frase de Emmanuel, no volume Roteiro? “Jesus, apagando-se na manjedoura...” (Cap.38)

Deveria ele, no Calvário, chamar a atenção dos que o acompanhavam, para o caráter especial de sua corporiedade? Teria a humanidade de então a condição de compreender o que seja a condição de um Espírito dessa envergadura e suas qualidades, bem como o que é um perispírito, suas propriedades, e como ocorrera a sua materialização?

Mas, se não podiam entendê-la, se a revelação só perturbaria a Sua missão, porque então revelá-las? O silêncio sobre essas faculdades, a omissão do anúncio desses diferenciais evolutivos, não será antes um ato de modéstia, de humildade, antes que uma “mentira”? Ainda mais pelo fato dessa “redução” aparente custar-lhe esforço e mesmo sacrifício, conforme visto anteriormente!

Nesse caso, como em muitos outros, o Cristo optou pela “revelação parcial”, que não combina de nenhuma forma com “mentira”, posto que é apenas a verdade dita de forma genérica, sem explicações mais detalhadas, deixando para o futuro, para o Consolador Prometido, os esclarecimento que estivessem fora do alcance do entendimento de então... Jesus disse claramente que não era desse mundo (Jo.8:23). Que havia “descido do céu” (Jo.6:38). Que João era o maior “dos nascidos de mulher” (Mt.11:11). Que ninguém tinha o poder de tomar-lhe a vida, Ele sim, tinha o poder de tomá-la e retomá-la, poder esse que lhe fora concedido pelo Pai... (Jo.10:18)

Está certo que não foi além na explicação dessas sentenças, mas foi este o método utilizado por Ele em muitas outras circunstâncias:

Lembrou a Nicodemos a reencarnação (Jo.3:1-10), mas não prosseguiu na explanação sobre essa realidade biológica...

Falou das muitas moradas da Casa do Pai (Jo.14:2), mas não aprofundou estudos sobre a pluralidade dos mundos habitados...

Afirmou taxativamente não estarem mortos a filha de Jairo (Mt.9:24) e Lázaro (Jo.11:11), nos casos que por sua aparência foram registrados pela tradição como “ressurreições”, mas não discorreu ali sobre a catalepsia e seus efeitos, porque estaria antecipando em séculos a compreensão da ciência sobre um dos males humanos...

Deu sabor de vinho à água, em Caná (Jo.2:9), mas não revelou aos convivas os segredos do magnetismo...

Multiplicou pães e peixes (Mt.12 e Mt.15), mas não ensinou os segredos dos fenômenos de transporte...

Em nenhum desses casos houve mentira, como jamais poderia haver, partindo do Cristo, mas em todos eles a verdade foi graduada, lançada como semente adequada às condições do ambiente de então, a fim de frutificar em futuro distante, exatamente como fez e disse tê-lo feito em todas as parábolas!

Chama atenção no texto de André Luiz, lembrado acima, a reação do instrutor Gúbio à manifestação do Elói, questionando se não seria mentira ocultar a própria condição superior: “Gúbio dividiu conosco um olhar de benevolência e explicou, bondoso”.

O Senhor conhece as nossas limitações e bem sabe a maneira e o tempo certo para ajudar-nos a superá-las. Foi preciso que dois mil anos se passassem para que, só agora, pudéssemos refletir sobre essas questões a fim de poder olhá-las como quem tem “olhos de ver e ouvidos de ouvir”. Fomos esperados por todo esse tempo com toda benevolência e bondade, para não ferir consciências e não apressar, desnecessariamente, um aprendizado que como todo o resto, na criação, tem o seu tempo certo.

Aparição de Jesus entre os apóstolosPara finalizar, vejamos agora um caso parecido com o do Gúbio, mas desta vez tendo o próprio Cristo como personagem principal, onde a aparência foi usada com um fim benéfico, mas também sem faltar com a verdade. Referimo-nos especificamente ao capítulo 24 do Evangelho de Lucas, versículos 36 a 48, trazendo a descrição da materialização do Cristo entre os apóstolos, depois dos episódios do Calvário:

“V. 36. Quando ainda falavam desses fatos, Jesus se apresentou no meio deles e lhes disse: A paz seja convosco; sou eu; não temais. — 37. Eles, porém, espantados e perturbados, imaginaram estar vendo um Espírito. — 38. Disse-lhes então Jesus: Porque vos turbais e se levantam tantas dúvidas em vossos corações? — 39. Vede minhas mãos e meus pés e reconhecei que sou eu mesmo; apalpai- -me e lembrai-vos de que um Espírito não tem carne, nem ossos, como vedes que tenho. — 40. E, dizendo isso, lhes mostrou as mãos e os pés. — 41. Como, todavia, ainda não acreditassem, tantos eram neles a alegria e o espanto, Jesus lhes perguntou: Tendes aqui alguma coisa que se possa comer? — 42. Apresentaram-lhe um pedaço de peixe assado e um favo de mel. — 43. Ele comeu diante de todos e, pegando do que sobrara, lhes deu; — 44, dizendo: Lembrai-vos de que, quando ainda estava convosco, eu vos disse ser necessário se cumprisse tudo quanto de mim fora escrito na lei de Moisés, nas profecias e nos Salmos1. — 45. No mesmo instante lhes abriu o espírito, a fim de que compreendessem as Escrituras. — 46. E lhes disse: Assim é que, estando isso escrito, importava que o Cristo sofresse e ressuscitasse dentre os mortos ao terceiro dia; — 47, e que em seu nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. — 48. Ora, sois testemunhas destas coisas. — 49. Vou mandar-vos o dom de meu pai, que vos foi prometido; permanecei, entretanto, na cidade, até que sejais revestidos do poder do alto”.

Estamos revendo o relato de um episódio ocorrido depois do Calvário.Jesus se apresenta entre os seus discípulos, perfeitamente materializado e, apesar disso, se esforça para dar a eles a certeza de sua plena “ressurreição”.

Aponta-lhes as feridas em suas mãos e pés, para que as observem.

Oferece-lhes o torso para que verifiquem a consistência de sua carne e ossos.

E, para concluir, ainda lhes solicita comida, a fim de, comendo à sua frente, dar-lhes prova definitiva de sua materialidade que, para eles, significava “vida”. (E ainda há quem diga que Espírito materializado "não come"! - ou não FINGE comer...).

No entanto, estava ali plenamente materializado, hoje sabemos. Como conciliar, neste episódio, aparência e verdade? Também nesse caso, como sempre e em todos os exemplos já citados, Jesus diz a verdade, só não a explica ou detalha, pela impossibilidade de maiores explicações no momento.

Lucas nos conta que os apóstolos imaginaram a princípio estar diante de um “Espírito” (v.37). A palavra utilizada no original grego é “πνεύμα” (pneuma), que também pode traduzir-se como aparição, assombração, espectro, e fantasma. Jesus tenta demovê-los dessa impressão inicial, salientando, no versículo 39, com o uso da mesma palavra, que um fantasma ou assombração não teria a consistência e as características físicas que apresentava. Só não foi possível explicar-lhes, naquele momento, que estava materializado...

Observe-se que, nessa passagem, não foi só a aparência o fator determinante para que os apóstolos tivessem a convicção de sua ressurreição, mas também toda a Sua fala, os Seus gestos, o fato de pedir comida e ingerir o alimento à frente de todos, na mesma hora. Houve um “teatro” sim, tendo Jesus como personagem principal da cena!

A intenção do esforço hoje é clara. Sabe-se bem o efeito causado nos apóstolos, a partir desse episódio. A sobrevivência do Cristo, e seu “retorno dos mortos”, causou um efeito indescritiível e inesquecível, em todos eles. Dizem os especialistas que o movimento cristão começou ali. Que a sua fé atingiu patamares nunca d’antes alcançados. De repente, um grupo de discípulos assustados tornou-se um time de gigantes, preparando-lhes os corações para o Pentecostes, que viria mais tarde...

A lembrança dessa cena acompanhou e sustentou aos apóstolos em todos os seus martírios. Temperou-os por dentro, um a um. Seus exemplos de abnegação e coragem foram, a partir de então, de tal ordem, que sacudiram as massas, fortaleceram os simples e pequeninos do mundo, despertaram energias novas suficientes para fazer com que os cristãos primeiros suportassem três séculos de flagelações.

Teria ele podido dizer, então: “observem, isto não é uma vidência, é uma manifestação objetiva, estou aqui materializado, trata-se de uma ectoplasmia, e vim aqui apenas para provar que a vida continua, que o Espírito é imortal, e que estarei efetivamente convosco até a consumação dos séculos!”?

Seria compreendido? Provavelmente não...

Talvez não tenhamos, ainda, condições de entender bem as razões desse esforço do Cristo e os critérios para o uso benéfico e justo da aparência, em situações dessa natureza mas, por certo podemos agora dizer, e com convicção, que esse "simulacro" sublime de plena corporiedade, que sustentou durante séculos a fé dos cristãos primeiros na ideia da "ressurreição" - não foi indigno, porque nada mancha os atos do Cristo, e muito menos - em vão.

Que Jesus - Caminho, Verdade e Vida - ilumine para sempre o nosso entendimento e o nosso coração.

(Texto adaptado do capítulo homônimo - Vão Simulacro - do volume "Pão Vivo", edição CRBBM).