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Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da humanidade. - Allan Kardec

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MUSEU ROUSTAING - ARTIGOS:

VÃO SIMULACRO?

Nesse artigo, propomos uma reflexão sobre a opinião de nosso Codificador sobre o Corpo Fluídico de Jesus, expressa no volume "A Gênese". Esperamos que apreciem... boa leitura!

ilustração de teletransporte “Se as condições de Jesus, durante a sua vida, fossem as dos seres fluídicos, ele não teria experimentado nem a dor, nem as necessidades do corpo. Supor que assim haja sido é tirar-lhe o mérito da vida de privações e de sofrimentos que escolhera, como exemplo de resignação. Se tudo nele fosse aparente, todos os atos de sua vida, a reiterada predição de sua morte, a cena dolorosa do Jardim das Oliveiras, sua prece a Deus para que lhe afastasse dos lábios o cálice de amarguras, sua paixão, sua agonia, tudo, até ao último brado, no momento de entregar o Espírito, não teria passado de vão simulacro, para enganar com relação à sua natureza e fazer crer num sacrifício ilusório de sua vida, numa comédia indigna de um homem simplesmente honesto, indigna, portanto, e com mais forte razão de um ser tão superior. Numa palavra: ele teria abusado da boa-fé dos seus contemporâneos e da posteridade. Tais as consequências lógicas desse sistema, consequências inadmissíveis, porque o rebaixariam moralmente, em vez de o elevarem. Jesus, pois, teve, como todo homem, um corpo carnal e um corpo fluídico, o que é atestado pelos fenômenos materiais e pelos fenômenos psíquicos que lhe assinalaram a existência”. – Allan Kardec (“A Gênese”, Cap. Os Milagres do Evangelho, item 66)

Sempre alimentamos simpatia por aqueles que manifestam sua discordância à ideia do corpo fluídico na forma de uma “defesa” de Jesus, à semelhança do que vemos no texto acima, de Kardec, em “A Gênese”. Afinal, como desgostar, de qualquer maneira, de alguém que se coloca em defesa do Cristo? Por outro lado, é constrangedor, nessas oportunidades, perceber que o outro nos imagina acusando ao nosso Mestre Amado de algo indigno...

Deparamo-nos com esse gênero de objeção muitas vezes, ao longo dos anos, e terminamos por denominá-la como “a questão moral”. Os que a utilizam cultivam comumente uma espécie de “rejeição instantânea” à obra “Os Quatro Evangelhos” por entender que, se ela defende uma ideia tão negativa, em relação ao Cristo, não merece o seu tempo e atenção...

Quando surge, nas conversas sobre o corpo fluídico, a “questão moral” nos chega sempre numa espécie de silogismo, colocado mais ou menos nos seguintes termos:

“Se tivesse corpo fluídico ou aparente o sacrifício do Cristo seria uma mentira.
Um Espírito do nível de Jesus não mente.
Logo, Jesus não teve corpo fluídico”.

A frase do meio é tão forte, tão livre de contestação, que parece “emprestar” força às outras duas, chegando ao ponto de dar aos seus usuários a sensação de ter resolvido o dilema em definitivo. Trazem consigo, por isso, a “certeza” da impossibilidade de Jesus ter tido uma condição biológica diferente da nossa. É sempre muito difícil lidar com a “certeza” alheia, mas sabemos hoje que entre o preto e o branco existem muitos tons de cinza. Olhando o problema, com mais profundidade, talvez possamos descobrir nuances novos, não percebidos anteriormente... quem sabe?

Vamos primeiro dividir o problema. Analisando o silogismo acima chegamos a dois pontos centrais:

  1. A premissa de que se não há outros tipos de sofrimento, diferentes e talvez até maiores do que os que conhecemos;
  2. A ideia de que "aparência", no caso, necessariamente se traduza em mentira.

REFLEXÕES SOBRE O SOFRIMENTO DE CRISTO

raios luminososCom relação ao primeiro ponto observa-se de imediato um problema de expectativa, uma espécie de reducionismo, inconsciente e instintivo. Como conhecemos bem, em nosso mundo material, as dores e as necessidades físicas, estimamos que o Cristo as suporte, da mesma forma, a fim de fazer valer sua vinda, sua missão, seu sacrifício. O critério de validação é colocado a partir da nossa régua, da nossa referência, com base nas dores e necessidades que conhecemos, projetando para o outro a expectativa de que com ele se dê exatamente aquilo que ocorre conosco. O pensamento subjacente é esse: "se não for assim, não vale..."

Questionado, no entanto, exatamente sobre as dores do Cristo, nosso abençoado Emmanuel, o iluminado mentor de nosso Chico Xavier, nos esclarece que não se pode aplicar a um espírito puro como o de Cristo os nossos parâmetros, e que há dores de outros tipos, além das que conhecemos...

“De modo algum poderíamos fazer um estudo psicológico de Jesus, estabelecendo dados comparativos entre o Senhor e o homem”. (“O Consolador, Q.287)

E mais:

“Numerosos discípulos do Evangelho consideram que o sacrifício do Gólgota não teria sido completo sem o máximo de dor material para o Mestre Divino. Como conceituar essa suposição em face da intensidade do sofrimento moral que a cruz lhe terá oferecido?"

"A dor material é um fenômeno como os dos fogos de artifícios, em face dos legítimos valores espirituais. Homens do mundo, que morreram por uma ideia, muitas vezes não chegaram a experimentar a dor física, sentindo apenas a amargura da incompreensão do seu ideal. Imaginai, pois, o Cristo, que se sacrificou pela Humanidade inteira, e chegareis a contempla-Lo na imensidão da sua dor espiritual, augusta e indefinível para a nossa apreciação restrita e singela. [...] Examinados esses fatores, a dor material teria significação especial para que a obra cristã ficasse consagrada? A dor espiritual, grande demais para ser compreendida, não constitui o ponto essencial da sai perfeita renúncia pelos homens? Nesse particular, contudo, as criaturas humanas prosseguirão discutindo, como as crianças que somente admitem as realidades da vida de um adulto, quando se lhe fornece o conhecimento tomando por imagens o cabedal imediato dos seus brinquedos”.

Há então uma "dor espiritual" - além da DOR MORAL - "grande demais para ser compreendida" em nosso estágio atual, qual crianças discutindo temas de adultos...

Ora, é muito difícil para os que se encontram em estágio anterior entender e descrever a natureza e/ou a intensidade das sensações conhecidas pelos que seguem à frente na jornada, assim como de nosso plano compreender plenamente o que se passa no “mundo dos Espíritos”, por falta de referências e até de vocabulário.

A matéria não imagina o que seja a sensibilidade da planta. Esta, por sua vez, não faz ideia do que seja a dor enfrentada pelo animal. A fera conhece a dor física e a enfrenta dia a dia nos embates do caminho; mas pouco sabe da dor moral. O homem descobre em si uma essa dor nova, a dor que “vem de dentro” – a dor moral – mas só a preço de muitas lágrimas o coração mais rijo se sensibiliza.

Em cada nível, a dor que lhe é própria – simbolizados nos três gritos do Calvário - mas todos acreditam ser a sua sempre a maior e mais importante:

“Na Terra temos sempre a ilusão de que não há dor maior que a nossa”– diz acolhedora Laura a André Luiz, em Nosso Lar (Cap.19)

ilustração - visão do átomoA consciência dessa gradação é importante para o nosso aprendizado, porque ajuda-nos pelo menos a entrever, pelo pensamento, o que não é ainda possível “sentir” ou “viver” em razão de nossa baixa maturidade espiritual. Refletindo com mais calma sobre o tema, fica fácil compreender o erro em que incorreria o representante de cada nível se, generalizando, projetasse para os demais apenas a dor que lhe diz respeito.

Imagine-se os minerais, por exemplo, se pudessem, atribuindo a todos os seres da criação a sua insensibilidade. Ou, as plantas, questionando a existência de alguma sensação diferente da sua. Ou, ainda, os animais, diminuindo a importância das dores morais apenas porque seu coração não está preparado para senti-las na dimensão que as conhecemos...

Agora – perguntamos nós, depois do que vimos acima, sobre os Espíritos puros – não estaríamos caindo nesse mesmo erro, quando esperamos encontrar no Cristo apenas as nossas dores, dores físicas, corpóreas, tentando medir o Seu sacrifício no Calvário estritamente pelas nossas medidas, sem atinar para a distância evolutiva que nos distingue? Talvez aí esteja um primeiro ponto a considerarmos, sobre o “dilema” apresentado acima...

Em seu “Universo e Vida” (1978), o Espírito Áureo, através da psicografia do prezado Hernani Sant’Anna, traz novas referências sobre o assunto, explicando-nos a experiência vivida por um Espírito puro, como o Cristo, no esforço de corporificar-se entre nós, a fim de tornar-se visível e estabelecer um contato mais direto com a nossa realidade grosseira:

“Para apresentar-se visível e tangível na superfície da crosta terráquea,teve o Cristo Planetário de aceitar voluntariamente intraduzível tortura cósmica,indizível e imensa, ainda que quase de todo inabordável ao entendimento humano”.(Cap.7, 8a. Ed.FEB, pág. 56)

Áureo traz-nos detalhes desse processo:

“Primeiro, obrigou-se à necessidade de abdicar, por espaço de tempo que para nós seria longuíssimo, da sua normal ilimitação de Espírito Cósmico e ao seu trono no Sol, sede do Sistema, transferindo-se do centro estelar para a fotosfera, onde lhe foi possível o primeiro e doloroso mergulho na matéria, através do revestimento consciente do seu mentespírito com um tecido energético de fótons. Depois, teve de imergir no próprio bojo do planeta Terra, em cuja ionosfera utilizou vastos potenciais eletromagnéticos para transformar seu manto fotônico em leptons e em quarks formadores de mésons e de hárions, estruturando átomos ionizados.Finalmente, concluindo a dolorosíssima operação de tangibilidade, revestiu esse corpo iônico com delicadíssima túnica molecular, estruturada à base de ectoplasma, combinando com células vegetais, recolhidas principalmente (como já captou a intuição humana) de vinhedos e trigais”. (Cap. 7, 8ª.ed. FEB, págs. 56 e 57)

E prossegue:

“Embora nossas toscas palavras e rudes considerações não possam, de nenhum modo, dar a mais pálida ideia do imensurável sacrifício do Cristo Divino para materializar-se entre os homens, convém aqui refletirmos um pouco sobre o que sabe a experiência humana, no campo dos tormentos a que está exposta no mundo a sensibilidade apurada. [...] O que avulta de pronto à nossa assustada percepção é o superlativo massacre de sensibilidade que se evidencia no fato de um Ser, não apenas de super-requintada, mas de divina delicadeza sensorial, expor-se ao inferno de baixas, odientas e agressivas vibrações terrestres, para respirar e agir, por inexcedível amor, no clima superlativamente asfixiante de nossas humanas iniquidades. Em face do muito de sublime já escrito na vasta literatura espírita-cristã, sobre a dor moral, em suas variadíssimas expressões, não examinaremos aqui esse primordial e nobilíssimo aspecto do sacrifício messiânico, mas insistiremos em chamar a atenção para a terrível realidade psicofísica do maior de todos os dramas de dor, que foi a materialização crística neste mundo de trevas e maldade; dor real inimaginável, jamais sofrida, na Terra, por qualquer Ser vivente, nem antes nem depois do Filho de Maria”. (Cap. 7, 8a. Ed. FEB, pág. 57)

Seria essa “tortura cósmica” descrita por Áureo a “dor espiritual” a que se referiu Emmanuel? Uma dor “grande demais para ser compreendida”?, “indizível e imensa”, “ainda que quase de todo inabordável ao entendimento humano”, no dizer de Áureo? “Imensurável sacrifício”?

Difícil dizer, exatamente pelas razões expostas. Estamos aqui lidando com o limite de nosso cognoscível, de nosso entendimento, um terreno todo nebuloso para a nossa insensibilidade, para a completa falta de referências sobre os planos mais altos da existência...

Em seu “Universo e Vida”, Áureo ainda destaca outro aspecto da questão – a hipersensibilidade dos corpos espirituais mais refinados, menos densos:

“À proporção que a densidade decresce, a sensibilidade se intensifica. No perispírito dos desencarnados, ela é muito maior do que no dos encarnados comuns, porque aqueles lidam com matéria mais rarefeita, mais plástica e, por isso, mais obediente às modelagens mentais”. [...] Teve [Jesus], portanto, sobradas razões para exclamar, como registrou o evangelista Marcos (9:19): “ó geração incrédula e perversa, até quando me fareis sofrer?” O sofrimento experimentado por Jesus, na preparação e no decurso de seu messianato, não teve, não tem e não terá similar, de qualquer ângulo que seja analisado, inclusive no que concerne à dor física, tal como a entendemos, em vista da sua inigualável sensibilidade orgânica. (Cap.7, 8a. ed. FEB, pág. 58)

Quadro de Caravaggio - Jesus e ToméSeria o corpo de Jesus, ao contrário do imaginado por Kardec, mais sensível à dor física, em razão da tessitura sutil do corpo espiritual criado para suporte de sua materialização? Ou, quem sabe, seria ele sensível ao ponto de sofrer na forma de dor os efeitos danosos das pestilenciais emanações mentais do psiquismo humano, durante sua estadia entre nós??? Abençoado Áureo! Abençoado Hernani!

Não temos as respostas, ainda, mas o maior mérito que encontramos na revelação de “Universo e Vida” é o fato de que ela reforça a hipótese de uma dor maior que aquela que conhecemos, para o Cristo, “quebrando” de vez, por assim dizer, a “esfinge” - o dilema “binário” proposto pelo Codificador: “ou dor física, ou mentira” - que se apresentava como insolúvel, desafiando as nossas capacidades e ao mesmo tempo nos dividindo em posições de pensamento antagônico. Com Áureo, descobre-se a possibilidade de um caminho completamente novo, e absolutamente em linha com o perfil moral e totalmente Superior do Cristo. Foi necessário que os anos se passassem para que os alertas de Emmanuel, combinados com a revelação de Áureo, nos remetessem a um quadro totalmente diverso.

O fato novo, nesta história, é essa “dor espiritual”, essa “tortura cósmica” do Espírito puro, ao ter de remontar um corpo espiritual, temporário, a fim de poder materializar-se entre nós. Um sacrifício imensamente mais doloroso do que qualquer sensação humana possa descrever. E esse esforço não é de poucas horas, mas de um tempo muito maior, necessário à preparação e execução de toda a Sua missão entre nós...

Nossa mente pequenina se satisfazia e cobrava de Jesus um sacrifício com “s” minúsculo. O Cristo nos ofereceu, silenciosamente, um outro, muito maior, com “S” maiúsculo, este sim muito mais proporcional à Sua dignidade, à Sua modéstia, à Sua abnegação sem limites pelos irmãos menores, todos nós que estamos sob Sua responsabilidade, como governador planetário. Vestiu uma “roupa de espinhos” durante trinta e três anos, enquanto nos preocupávamos com uma “coroa de espinhos” de apenas algumas horas... Um Sacrifício Silencioso, preservado por modéstia e só agora revelado, quase dois mil anos depois, provavelmente para nos ajudar exatamente a sair do dilema, a dar um passo à frente em nossa compreensão, descortinando horizontes novos, ainda não vistos, e sequer imaginados anteriormente. Um Sacrifício Santo, e tão mais santo exatamente pelo fato de ter-se ocultado, por ato de modéstia, por vivência plena e exemplar daquilo que nos traz o evangelho.

È com base em todas essas considerações que Áureo refuta enfáticamente a tese do "vão simulacro":

Completamente irreal e terrivelmente injusto é, pois, o argumento de embuste, largamente usado pelos que não compreendem a absoluta impossibilidade da encarnação comum de um Ser Crístico e só conseguem ver uma grosseira pantomima na capacidade de sofrer de um agênere. A verdade, como vemos, é bem outra, incomparavelmente bela, justa, santa, lógica e real; a realidade do sublime amor daquele que é, de fato, o Caminho, a Verdade e a Vida” – conclui Áureo. (Cap.7, 8a. ed. FEB, pág.60)

Um detalhe importante, que merece ser destacado, antes de terminarmos esse item, é o fato de “Universo e Vida” ter sido publicado pela FEB em 1978, quase cem anos depois da desencarnação de Roustaing, ocorrida a 02 de janeiro de 1879, como se sabe. Parece que a Espiritualidade Superior guardou essa revelação para um momento especial, trazendo assim a sua parte na celebração do centenário de desencarnação do tão incompreendido Apóstolo de Bordeaux...

Vejamos agora a questão da aparência...

APARÊNCIA É SEMPRE MENTIRA?

Será que, em algum momento de sua missão, Jesus se serviu não da mentira, mas da aparência, em nosso benefício? E, em se confirmando algum caso do gênero, como Ele teria feito, para combinar verdade e aparência, que a alguns parecem inconciliáveis?

Comecemos a análise desse item com um caso menor, mais próximo de nossa realidade, extraído da Coleção André Luiz - do volume “Libertação” - capítulo 4. André e seu companheiro de estudos, Elói, dirigem-se então à uma cidade em pleno Umbral, orientados pelo instrutor Gúbio, para uma missão especial: obter de Gregório, um dos líderes daquela comunidade trevosa, a autorização para uma tentativa de tratamento da jovem Margarida, uma de suas vítimas, ainda encarnada, e filha de Gúbio, em uma de suas existências. O texto começa com a descrição de uma paisagem em tudo triste, e “pesada”:

“Após a travessia de várias regiões, “em descida”, com escalas por diversos postos e instituições socorristas, penetramos vasto domínio de sombras. A claridade solar jazia diferençada. Fumo cinzento cobria o céu em toda a sua extensão. A volitação fácil se fizera impossível. A vegetação exibia aspecto sinistro e angustiado. As árvores não se vestiam de folhagem farta e os galhos, quase secos, davam a ideia de braços erguidos em súplicas dolorosas. Aves agoureiras, de grande tamanho, de uma espécie que poderá ser situada entre os corvideos, crocitavam em surdina, semelhando-se a pequenos monstros alados espiando presas ocultas. O que mais contristava, porém, não era o quadro desolador, mais ou menos semelhante a outros de meu conhecimento, e, sim, os apelos cortantes que provinham dos charcos. Gemidos tipicamente humanos eram pronunciados em todos os tons”.

Depois de breve pausa na jornada, Gúbio dá uma primeira orientação aos seus dois discípulos:

Nossas organizações perispiríticas, à maneira de escafandro estruturado em material absorvente, por ato deliberado de nossa vontade, não devem reagir contra as baixas vibrações deste plano. Estamos na posição de homens que, por amor, descessem a operar num imenso lago de lodo; para socorrer eficientemente os que se adaptaram a ele, são compelidos a cobrir-se com as substâncias do charco, sofrendo-lhes, com paciência e coragem, a influenciação deprimente. Atravessamos importantes limites vibratórios e cabe-nos entregar a forma exterior ao meio que nos recebe, a fim de sermos realmente úteis aos que nos propomos auxiliar. Finda a nossa transformação transitória, seremos vistos por qualquer dos habitantes desta região menos feliz”.

Seguindo a instrução recebida, André Luiz e Elói passam a inalar as substâncias espessas que pairavam ao redor, observando em seguida profundas transformações na aparência de seu corpo perispirítico:

“Reparei, confundido, que a voluntária integração com os elementos inferiores do plano nos desfigurava enormemente. Pouco a pouco, sentimo-nos pesados e tive a ideia de que fora, de improviso, religado, de novo, ao corpo de carne, porque, embora me sentisse dono da própria individualidade, me via revestido de matéria densa, como se fôsse obrigado a envergar inesperada armadura”.

Capa do volume Libertação, de André Luiz, psicografia de F.C.XavierInstantes depois da transformação, uma dúvida ética estremece aos dois colaboradores de Gúbio:

“— Mas, não será isto mentir? clamou Elói, quase refeito. Gúbio dividiu conosco um olhar de benevolência e explicou, bondoso: — Não te recordas do texto evangélico que recomenda não saiba a mão esquerda o que dá a direita? Este é o momento de ajudarmos sem alarde. O Senhor não é mentiroso quando nos estende invisíveis recursos de salvação, sem que lhe vejamos a presença. Nesta cidade sombria, trabalham inúmeros companheiros do bem nas condições em que nos achamos. Se erguermos bandeira provocante, nestes campos, nos quais noventa e cinco por cento das inteligências se encontram devotadas ao mal e à desarmonia, nosso programa será estraçalhado em alguns instantes”.

Gúbio e seus assistentes estavam literalmente “apagando a sua luz” e condensando a sua forma perispiritual, na medida do possível e necessário, a fim de serem percebidos sensoriamente pelos habitantes do local, ao ponto de poderem estabelecer contato, em benefício da missão desejada e da jovem Margarida...

Assumiram, por isso, uma “aparência” – palavra chave nesse caso – diferente da sua habitual, a fim de atingir ao fim colimado.

A reação dos dois assistentes foi rigorosamente igual à nossa, quando da associação feita entre aparência e mentira, no caso de possível ausência de dor física durante os episódios do Calvário do Cristo...

Será mentira ocultar ou omitir as próprias qualidades, quando o interlocutor não as possui, ou não se encontra apto a entendê-las? Ou, na hipótese acima, quando a revelação de toda a verdade prejudicará uma missão de socorro a quem se deseja beneficiar?

Voltemos ao caso do Cristo. Temos aí uma situação bem parecida com a do nosso Instrutor Gúbio e seus discípulos. Espírito Puro, já livre das encarnações materiais (Q.113, 168 e 226 de “O Livro dos Espíritos”), materializara-se para ofuscar suas luzes, a fim de tornar-se visível e assim poder cumprir plenamente a sua missão entre nós. Lembram-se da frase de Emmanuel, no volume Roteiro? “Jesus, apagando-se na manjedoura...” (Cap.38)

Deveria ele, no Calvário, chamar a atenção dos que o acompanhavam, para o caráter especial de sua corporiedade? Teria a humanidade de então a condição de compreender o que seja a condição de um Espírito dessa envergadura e suas qualidades, bem como o que é um perispírito, suas propriedades, e como ocorrera a sua materialização?

Mas, se não podiam entendê-la, se a revelação só perturbaria a Sua missão, porque então revelá-las? O silêncio sobre essas faculdades, a omissão do anúncio desses diferenciais evolutivos, não será antes um ato de modéstia, de humildade, antes que uma “mentira”? Ainda mais pelo fato dessa “redução” aparente custar-lhe esforço e mesmo sacrifício, conforme visto anteriormente!

Nesse caso, como em muitos outros, o Cristo optou pela “revelação parcial”, que não combina de nenhuma forma com “mentira”, posto que é apenas a verdade dita de forma genérica, sem explicações mais detalhadas, deixando para o futuro, para o Consolador Prometido, os esclarecimento que estivessem fora do alcance do entendimento de então... Jesus disse claramente que não era desse mundo (Jo.8:23). Que havia “descido do céu” (Jo.6:38). Que João era o maior “dos nascidos de mulher” (Mt.11:11). Que ninguém tinha o poder de tomar-lhe a vida, Ele sim, tinha o poder de tomá-la e retomá-la, poder esse que lhe fora concedido pelo Pai... (Jo.10:18)

Está certo que não foi além na explicação dessas sentenças, mas foi este o método utilizado por Ele em muitas outras circunstâncias:

Lembrou a Nicodemos a reencarnação (Jo.3:1-10), mas não prosseguiu na explanação sobre essa realidade biológica...

Falou das muitas moradas da Casa do Pai (Jo.14:2), mas não aprofundou estudos sobre a pluralidade dos mundos habitados...

Afirmou taxativamente não estarem mortos a filha de Jairo (Mt.9:24) e Lázaro (Jo.11:11), nos casos que por sua aparência foram registrados pela tradição como “ressurreições”, mas não discorreu ali sobre a catalepsia e seus efeitos, porque estaria antecipando em séculos a compreensão da ciência sobre um dos males humanos...

Deu sabor de vinho à água, em Caná (Jo.2:9), mas não revelou aos convivas os segredos do magnetismo...

Multiplicou pães e peixes (Mt.12 e Mt.15), mas não ensinou os segredos dos fenômenos de transporte...

Em nenhum desses casos houve mentira, como jamais poderia haver, partindo do Cristo, mas em todos eles a verdade foi graduada, lançada como semente adequada às condições do ambiente de então, a fim de frutificar em futuro distante, exatamente como fez e disse tê-lo feito em todas as parábolas!

Chama atenção no texto de André Luiz, lembrado acima, a reação do instrutor Gúbio à manifestação do Elói, questionando se não seria mentira ocultar a própria condição superior: “Gúbio dividiu conosco um olhar de benevolência e explicou, bondoso”.

O Senhor conhece as nossas limitações e bem sabe a maneira e o tempo certo para ajudar-nos a superá-las. Foi preciso que dois mil anos se passassem para que, só agora, pudéssemos refletir sobre essas questões a fim de poder olhá-las como quem tem “olhos de ver e ouvidos de ouvir”. Fomos esperados por todo esse tempo com toda benevolência e bondade, para não ferir consciências e não apressar, desnecessariamente, um aprendizado que como todo o resto, na criação, tem o seu tempo certo.

Aparição de Jesus entre os apóstolosPara finalizar, vejamos agora um caso parecido com o do Gúbio, mas desta vez tendo o próprio Cristo como personagem principal, onde a aparência foi usada com um fim benéfico, mas também sem faltar com a verdade. Referimo-nos especificamente ao capítulo 24 do Evangelho de Lucas, versículos 36 a 48, trazendo a descrição da materialização do Cristo entre os apóstolos, depois dos episódios do Calvário:

“V. 36. Quando ainda falavam desses fatos, Jesus se apresentou no meio deles e lhes disse: A paz seja convosco; sou eu; não temais. — 37. Eles, porém, espantados e perturbados, imaginaram estar vendo um Espírito. — 38. Disse-lhes então Jesus: Porque vos turbais e se levantam tantas dúvidas em vossos corações? — 39. Vede minhas mãos e meus pés e reconhecei que sou eu mesmo; apalpai- -me e lembrai-vos de que um Espírito não tem carne, nem ossos, como vedes que tenho. — 40. E, dizendo isso, lhes mostrou as mãos e os pés. — 41. Como, todavia, ainda não acreditassem, tantos eram neles a alegria e o espanto, Jesus lhes perguntou: Tendes aqui alguma coisa que se possa comer? — 42. Apresentaram-lhe um pedaço de peixe assado e um favo de mel. — 43. Ele comeu diante de todos e, pegando do que sobrara, lhes deu; — 44, dizendo: Lembrai-vos de que, quando ainda estava convosco, eu vos disse ser necessário se cumprisse tudo quanto de mim fora escrito na lei de Moisés, nas profecias e nos Salmos1. — 45. No mesmo instante lhes abriu o espírito, a fim de que compreendessem as Escrituras. — 46. E lhes disse: Assim é que, estando isso escrito, importava que o Cristo sofresse e ressuscitasse dentre os mortos ao terceiro dia; — 47, e que em seu nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. — 48. Ora, sois testemunhas destas coisas. — 49. Vou mandar-vos o dom de meu pai, que vos foi prometido; permanecei, entretanto, na cidade, até que sejais revestidos do poder do alto”.

Estamos revendo o relato de um episódio ocorrido depois do Calvário.Jesus se apresenta entre os seus discípulos, perfeitamente materializado e, apesar disso, se esforça para dar a eles a certeza de sua plena “ressurreição”.

Aponta-lhes as feridas em suas mãos e pés, para que as observem.

Oferece-lhes o torso para que verifiquem a consistência de sua carne e ossos.

E, para concluir, ainda lhes solicita comida, a fim de, comendo à sua frente, dar-lhes prova definitiva de sua materialidade que, para eles, significava “vida”. (E ainda há quem diga que Espírito materializado "não come"! - ou não FINGE comer...).

No entanto, estava ali plenamente materializado, hoje sabemos. Como conciliar, neste episódio, aparência e verdade? Também nesse caso, como sempre e em todos os exemplos já citados, Jesus diz a verdade, só não a explica ou detalha, pela impossibilidade de maiores explicações no momento.

Lucas nos conta que os apóstolos imaginaram a princípio estar diante de um “Espírito” (v.37). A palavra utilizada no original grego é “πνεύμα” (pneuma), que também pode traduzir-se como aparição, assombração, espectro, e fantasma. Jesus tenta demovê-los dessa impressão inicial, salientando, no versículo 39, com o uso da mesma palavra, que um fantasma ou assombração não teria a consistência e as características físicas que apresentava. Só não foi possível explicar-lhes, naquele momento, que estava materializado...

Observe-se que, nessa passagem, não foi só a aparência o fator determinante para que os apóstolos tivessem a convicção de sua ressurreição, mas também toda a Sua fala, os Seus gestos, o fato de pedir comida e ingerir o alimento à frente de todos, na mesma hora. Houve um “teatro” sim, tendo Jesus como personagem principal da cena!

A intenção do esforço hoje é clara. Sabe-se bem o efeito causado nos apóstolos, a partir desse episódio. A sobrevivência do Cristo, e seu “retorno dos mortos”, causou um efeito indescritiível e inesquecível, em todos eles. Dizem os especialistas que o movimento cristão começou ali. Que a sua fé atingiu patamares nunca d’antes alcançados. De repente, um grupo de discípulos assustados tornou-se um time de gigantes, preparando-lhes os corações para o Pentecostes, que viria mais tarde...

A lembrança dessa cena acompanhou e sustentou aos apóstolos em todos os seus martírios. Temperou-os por dentro, um a um. Seus exemplos de abnegação e coragem foram, a partir de então, de tal ordem, que sacudiram as massas, fortaleceram os simples e pequeninos do mundo, despertaram energias novas suficientes para fazer com que os cristãos primeiros suportassem três séculos de flagelações.

Teria ele podido dizer, então: “observem, isto não é uma vidência, é uma manifestação objetiva, estou aqui materializado, trata-se de uma ectoplasmia, e vim aqui apenas para provar que a vida continua, que o Espírito é imortal, e que estarei efetivamente convosco até a consumação dos séculos!”?

Seria compreendido? Provavelmente não...

Talvez não tenhamos, ainda, condições de entender bem as razões desse esforço do Cristo e os critérios para o uso benéfico e justo da aparência, em situações dessa natureza mas, por certo podemos agora dizer, e com convicção, que esse "simulacro" sublime de plena corporiedade, que sustentou durante séculos a fé dos cristãos primeiros na ideia da "ressurreição" - não foi indigno, porque nada mancha os atos do Cristo, e muito menos - em vão.

Que Jesus - Caminho, Verdade e Vida - ilumine para sempre o nosso entendimento e o nosso coração.

(Texto adaptado do capítulo homônimo - Vão Simulacro - do volume "Pão Vivo", edição CRBBM).

ESPÍRITOS ASSINAM ABAIXO-ASSINADO
EM FAVOR DO ESTUDO DE KARDEC E ROUSTAING

Capa da 2a Edição do livro Ponte Evangélica, de Jorge Damas Martins

"Em 1952, o Dr. Alcides de Castro, grande continuador de Bezerra de Menezes, no Regeneração, sentiu a necessidade de organizar um estatuto, pois a instituição agora marchava fora das dependências da FEB. Recorreu a Chico Xavier, a fim de obter uma orientação espiritual que viesse ao encontro do seu objetivo. Bezerra de Menezes, então, se manifestou afirmando que ditaria todo o estatuto, através da mediunidade segura, do então Presidente do Grupo, Dr. Alcides.

Preparou-se, assim, o nosso Alcides para a tarefa de tão grande responsabilidade. Quando terminou, levou o trabalho a Chico Xavier, através de quem obteve o reconhecimento da espiritualidade, quanto à autenticidade do estatuto, ditado por Bezerra de Menezes. Para sua surpresa, o próprio Bezerra de Menezes, através da pena missionária de Chico Xavier, subscreveu o estatuto, sendo acompanhado por outras entidades, amigas do Grupo, que, da mesma forma, se manifestaram participando da festa espiritual da independência do “Regeneração”.

O que os adversários da linha Kardec-Roustaing desconhecem, é que logo na primeira página do estatuto, Bezerra de Menezes (DESENCARNADO) recomenda o estudo obrigatório, interno e publicamente, da obra “Revelação da Revelação”, de J. B. Roustaing, como o leitor poderá observar nas cópias anexas (vide fotos abaixo).

Apesar de todo este material revelado através de Chico Xavier, a favor da obra Os Quatro Evangelhos, muitos ainda teimam em dizer ser Emmanuel contrário às verdades de Roustaing. Mas, ao contrário disso, Chico Xavier revelou, ao nosso amigo e respeitado conferencista Newton Boechat, que o seu mentor, Emmanuel, endossa totalmente a obra de Roustaing, como revelação segura da Espiritualidade Superior, que desenvolve a Terceira Revelação iniciada por Allan Kardec. Encontramos este fato narrado no artigo “Um Gosto e Quatro Vinténs” do jornalista Luciano dos Anjos, no Reformador (janeiro de 1970, pp. 9-11).

Como podemos observar, a mediunidade de Francisco Cândido Xavier colabora com provas irrepreensíveis sobre as múltiplas angulações de Os Quatro Evangelhos, apoiando inteiramente o programa tradicional Kardec-Roustaing, da Casa-Máter do Espiritismo no Brasil, a nossa FEB, acima de qualquer agressão ou malquerenças.

Chico Xavier, portanto, se compromissa a não ocultar a luz, colocando-a no velador, para que todos a vejam, ao contrário dos que, já vendo a luz, alimentam ideias farisaicas, tentando inutilmente empanar o brilho das claridades que jorram do Alto.

Terminamos este capítulo recorrendo, como não poderia deixar de ser, mais uma vez, a Emmanuel, no Prefácio de A Vida de Jesus:

“Bem me consolo eu, afirmando que grande coisa já representa a nossa certeza de que o Senhor (Jesus) é a luz do mundo e a misericórdia para todos os corações.”."

(Fonte: "Ponte Evangélica", de Jorge Damas Martins, Ed. CRBBM, Cap.1)

CONFIRA ABAIXO OS DOCUMENTOS:

Primeira Página do Estatuto do Regeneração aprovado mediunicamente pelo Dr. Bezerra de MenezesReprodução da primeira página do Estatuto aprovado mediunicamente pelo Dr. Bezerra de Menezes, em 1952, pelas mãos de Chico Xavier. Destaque para a referência à obra Os Quatro Evangelhos, de J. B. Roustaing, ao final do Artigo 1o.(Clique na figura)







Primeira Página do Estatuto do Regeneração aprovado mediunicamente pelo Dr. Bezerra de MenezesReprodução da última página do Estatuto aprovado mediunicamente pelo Dr. Bezerra de Menezes, em 1952, pelas mãos de Chico Xavier. Destaque para a assinatura de Dr. Bezerra, em perfeita correspondência com à sua quando encarnado. (Clique na figura)







Primeira Página do Estatuto do Regeneração aprovado mediunicamente pelo Dr. Bezerra de MenezesSubscreveram também o mesmo documento Espíritos como Ignácio Bittencourt (Mentor espiritual do Departamento Mediúnico da CRBBM), Frederico Figner, Casemiro Cunha, André Luiz, Emmanuel, Coronel Rosemberg, Antônio Lima, Carmem Cinira, Djanira, João de Deus, Amaral Ornellas, Victor Hugo, e Auta de Souza, entre outros. Os originais do estatuto, com todas essas assinaturas e mais as mensagens de alto teor espiritual, que esses Espíritos ditaram, na ocasião, se encontram nos arquivos do “Regeneração”. Trata-se do primeiro “abaixo-assinado” mediúnico da história do espiritismo, de que se tem notícia, em favor do binômio Kardec-Roustaing.(Clique na figura)








DR. BEZERRA DE MENEZES E
A OBRA DE ROUSTAING

Capa da edição original de Os Quatro Evangelhos, de Roustaing, em 1866A pouco mais de um mês para a XIV edição do Congresso Roustaing, que será promovido esse ano pela Associação Espírita Estudantes da Verdade, na progressiva e acolhedora cidade de Volta Redonda, no interior aqui do Estado do Rio de Janeiro. Para ajudar a "aquecer os corações", em relação ao evento, lembramos de transcrever a palestra do nosso prezado irmão Almir Gomes de Souza, feita em nossa sede, em 2004, tratando especialmente desse tema: a posição de nosso Patrono em relação à obra de Roustaing. Ela é um sucesso, até hoje, na internet, reproduzida pelo Blog dos Livros. Segue abaixo na forma de "vale a pena ver de novo"...

Meus irmãos!

Coube-me a honra de, por deferência de nossos irmãos Azamôr Filho e Júlio Damasceno, prestar minha modesta contribuição nas comemorações pelos 200 anos de nascimento de J.B.Roustaing, promovidas pela nossa Casa de Recuperação e Benefícios Bezerra der Menezes.

Ao convidar-me o Júlio pediu-me para escolher o tema. Inicialmente relutei em aceitar mas diante da quase “intimação”, concordei, e então me pus a meditar. Que tema abordar? Veio-me então a inspiração para falar sobre a posição de nosso patrono Bezerra de Menezes com relação à obra de Roustaing. Assim, parti para a pesquisa e logo percebi que precisava de ajuda, pois não tinha em mente onde encontrar material para a pesquisa. De saída fui levado a procurar o nosso jornal “O Cristão Espírita”, por acaso, no armário do CEIM. Lá encontrei, no jornal de outubro de 1965, no 3º número publicado, referências sobre o tema extraídas do Reformador de 1947.

Outro problema: onde encontrar aquele Reformador? Fui à FEB e deparei-me com a Biblioteca fechada, em obras. Desci para a livraria e com quem me deparo? Com o Júlio, que fora comprar novos exemplares de Os Quatro Evangelhos.

Falo-lhe da minha aflição e lembro de pedir-lhe o telefone do Damas, pois o ele saberia me informar sobre as fontes. É o que faço e o mesmo me aconselha a não pesquisar no Reformador e me dá o caminho das pedras: seus livros já publicados. Ao procurar o material na minha casa, verifiquei que tinha quase todos os livros: História de Roustaing, Jesus não é Deus, Ponte Evangélica, A Bandeira do Espiritismo - e encontrei um livro que D. Armanda, nossa saudosa companheira, me dera e que eu não vira na estante, do Luciano dos Anjos - Os Adeptos de Roustaing, editado em 1993, que trás um inventário bastante completo sobre as ações e o pensamento do Dr Bezerra sobre esta obra. Além destas, fui buscar subsídios na obra Uma Carta de Bezerra de Menezes, sobre as conceituações filosóficas de nosso patrono e também na obra rara Estudos Filosóficos, que contém, em 3 volumes, parte substancial dos artigos publicados pelo Dr. Bezerra no jornal “O País”, no fim do século XIX.

Muito bem, vamos ao que compilei para trazer aos irmãos nesta noite.

Primeiro vamos ver a atuação do Dr. Bezerra na divulgação da Obra de Roustaing.

Publicação de Os Quatro Evangelhos de Roustaing nas páginas de O Reformador - 1898Todos conhecemos a biografia de nosso patrono. Sabemos que ele recebeu do anjo Ismael a missão de consolidar a Doutrina Espírita no solo brasileiro e promover a união dos espíritas em torno da Bandeira do Evangelho do Cristo na terra do Cruzeiro, espírito elevado que já era, denominado Longinus por Ismael, como registrado na obra de Humberto de Campos “Brasil, Oração do Mundo, Pátria do Evangelho”.

Ele leu pela 1ª vez o Livro dos Espíritos em 1875. Em 1886 fez sua profissão de fé espírita no salão da Guarda Velha diante de mais de 1500 pessoas (2.000, segundo alguns autores), dirigiu a FEB em 1889, foi vice-presidente entre 1890 e 1892 e novamente presidente entre 1895 e 1900, desencarnando em 11 de abril daquele ano.

Atuando nos diferentes grupos espíritas que se formaram e se fundiram naquele período tumultuado da consolidação da FEB, fundada em janeiro de 1884, o Dr. Bezerra foi um combatente ardoroso dos ideais espíritas e seu divulgador para o grande público, através da imprensa, nos artigos dos jornais “O País” e “Jornal do Brasil”.

A obra “Os Quatro Evangelhos” psicografada por Mme. Collignon, organizada e publicada por J.B.Roustaing em 1866, teve sua primeira tradução e impressão na língua portuguesa efetuada pelo Marechal Ewerton Quadros, posteriormente primeiro presidente da FEB, em 1883.

Bezerra afirma tê-la estudado por 14 anos e então, como Presidente da FEB, inicia sua publicação no Reformador, Órgão Oficial da FEB, em 15 de janeiro de 1898. Esta informação está registrada no Reformador de fevereiro de 1947, pág 43.

Ao assumir a presidência da FEB em 1889, Bezerra incorpora o “Grupo Ismael” à Casa Mater do Espiritismo no Brasil. Ele fazia parte deste Grupo, que estudava a obra de Roustaing na companhia de vultos eminentes do movimento espírita da época, como Antnio Luiz Sayão, Bittencourt Sampaio, Frederico Junior, Augusto Elias da Silva entre outros.

Ao assumir a Presidência da FEB pela segunda vez, em 1895, por solicitação expressa de Santo Agostinho, seu Guia espiritual, com plenos poderes para organizar o núcleo da doutrina espírita no Brasil, o Dr. Bezerra inclui, imediatamente, os “Quatro Evangelhos” nos estatutos da Casa de Ismael, formalizando o que já se praticava.

Uma nota: Em 1902, Leopoldo Cirne, pressionado pelos “científicos” tira “Os Quatro Evangelhos” do estatuto da FEB, embora seu estudo tenha continuado normalmente, sendo o mesmo reincorporado definitivamente aos estatutos em 1917, sob a orientação do então Presidente Aristides Spínola.

No dia 18 de Fevereiro de 1891 o Dr. Bezerra fundou o Grupo Espírita Regeneração, com o objetivo da “prática da caridade cristã e a propaganda da Doutrina Espírita, dentro dos moldes da legítima fraternidade e da máxima tolerância...”. Sua idéia inicial era de que este Grupo se corporificasse dentro da FEB, onde fora fundado, para que ,mais tarde, se constituísse estatutariamente e marchasse independente.

Desde suas primeiras reuniões à frente da FEB o Dr. Bezerra instituiu o estudo baseado “nos ensinamentos do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, nas instruções da Codificação de Allan Kardec, na Revelação da Revelação, de J.B. Roustaing” (J. Damas Martins , Ponte Evangélica - cap I, pág 36).

Vejamos agora sua atuação já como espírito:

Capa da 1a. edição brasileira de Os Quatro Evangelhos, de Roustaing, FEB - 1909Em 1952, o Grupo Regeneração publica seu novo estatuto, redigido pelo Dr. Alcides Neves Ribeiro de Castro, no qual consta, na 1ª página, um Artigo determinando que a casa tem por linha de trabalho doutrinário o binômio Kardec-Roustaing.

Este estatuto foi levado pelo Dr. Alcides ao Chico Xavier que, mediunizado, assinou imediatamente: Adolfo Bezerra de Menezes. Na obra Ponte Evangélica, do Jorge Damas, consta o fac-símile das páginas 1 e 17 deste estatuto, com a assinatura do Dr Bezerra, cuja análise grafológica por perito judicial confirmou ser autêntica, ou seja igual, à do Dr Bezerra quando encarnado.

Em 03 de junho de 1961, sob a orientação do Dr. Bezerra teve inicio a concretização do ideal do nosso patrono de reunir outros de seus antigos adversários nos primórdios do Cristianismo, na Roma do fim do século V, em outra célula de trabalho: nascia a Casa de Recuperação e Benefícios Bezerra de Menezes, sob a direção de nosso Irmão Azamôr Serrão.

Em 02 de dezembro de 1963 realizou-se a 1ª Assembléia Geral Extraordinária, para aprovação do seu primeiro estatuto, elaborado sob a orientação direta do Dr. Bezerra, o qual traz no seu Art. 2º - “A sociedade.... será regida por este estatuto ... tem por fim: item II - estudar a Doutrina codificada por Allan Kardec, a obra publicada por Jean -Baptiste Roustaing intitulada “Espiritismo Cristão ou Revelação da Revelação” e outras subsidiárias e complementares da Revelação, de modo a tornar compreensível, em toda a sua pureza, o Evangelho de Jesus”.

Em 14 de setembro 1974 foi fundado em Goiânia o Grupo Espírita Regeneração, também com o mesmo propósito espiritual, inspirado no estatuto de 1952, do Grupo Regeneração do Rio de Janeiro. Todo o processo de criação deste Grupo foi orientado pela espiritualidade, conforme está registrado na Obra do Jorge Damas “O 13º Apóstolo”, páginas 194 /195.

Bom, este é um resumo das ações concretas do dr. Bezerra, como encarnado e já como espírito, visando a divulgação da obra de Roustaing.

Mas o que ele escreveu a respeito de Roustaing e de sua obra, principalmente sobre seu ponto mais polêmico – a questão do Corpo Fluídico de Jesus?

Vejamos também o que Dr. Bezerra de Menezes escreveu sobre Roustaing:

Capa da 2a. edição brasileira de Os Quatro Evangelhos, de Roustaing, FEB - 1918“Mas o homem, como já foi dito, não cessa de desenvolver a sua faculdade compreensiva e, pois, os princípios fundamentais da revelação espírita, compreendidos nas obras fundamentais de Alllan Kardec, tendem constantemente a se alargar em extensão e compreensão, como ele mesmo veio alargar os princípios fundamentais do ensino ou revelação messiânica – e como este veio alargar os da revelação mosaica.

A Allan Kardec sobrevivem outros missionários da verdade eterna que, sem destruir a obra feita, porque esta é firmada na lei e a lei é imutável, darão mais luz para mais largo conhecimento das faces mais obscuras daquela verdade.

Eis aí que já apareceu Roustaing, o mais moderno missionário da lei, que em muitos pontos vai além de Allan Kardec, porque é inspirado como este , mas teve por missão dizer o que este não podia, em razão do atraso da Humanidade.

Não divergem no que é essencial , mas sim nos modos de compreender a verdade, porque esta, sendo absoluta, nos aparece sob mil fases relativas - relativas ao nosso grau de adiantamento intelectual e moral, que um não pode dispensar o outro, como as asas de um pássaro não se podem dispensar, para que o fim de ele se elevar às alturas.

Roustaing confirma o que ensina Allan Kardec, porem adianta mais que este, pela razão que já foi exposta acima. É, pois, um livro precioso e sagrado o de Roustaing...” Max (Bezerra de Menezes)”.

Fonte: “Gazeta de Notícias – 22 de abril de 1897 in : Ponte Evangélica – Jorge Damas - 1984 , contracapa”.

Bezerra de Menezes, espírito, manifestou-se também sobre a obra em diversas ocasiões, como relaciona Luciano dos Anjos na sua obra “Os Adeptos de Roustaing”, de 1993:

  • Capa da 3a. edição brasileira de Os Quatro Evangelhos, de Roustaing, FEB - 1920No Prefácio do livro “Corporeidade Carneforme de Jesus” de Henrique Orsínio, S. Paulo, 1937 págs. III a V. O prefácio, assinado também pelos espíritos Bittencourt Sampaio e Batuíra, é integralmente em defesa de Roustaing, segundo palavras de Luciano dos Anjos, é de 12 de julho de 1937.

  • Na mensagem ditada no Grupo Ismael em reunião de 13.8.1941, quando os participantes encerravam mais uma vez o estudo completo da obra de Roustaing – (ver Trabalhos do Grupo Ismael, de Guilhon Ribeiro , edição da FEB de 1942, vol II pág 29 e 31 e 232 a 234). Um trecho da mensagem diz:
    “Aqui estão presentes os velhos companheiros: o José, o João, o Richard, o Bittencourt, os Sayão, a Isabel, o Matos, o Cardoso, o Frederico, o Ulysses, o Fonseca e tantos outros (...). Coube-me, pois, a mim a missão de trazer-vos estas palavras de animação, quando encerrais mais um ciclo do vosso estudo, com aproveitamento (...). Recebei a expressão dos meus sentimentos para convosco e daqueles que me delegaram o encargo de vos falar neste momento. Lembrai-vos sempre de que todos eles estão convosco, partilhando da vossa obra. Nenhum desertou”.(Médium : João Celani, médium excelente do Grupo Ismael, a partir de 1939 até 1943, quando teve que se afastar, desencarnado em 1957.)

  • Na Mensagem de agradecimento a Roustaing, psicografada por José Salomão Mizrahy, na reunião do grupo Ismael, de 26 de novembro de 1978, e publicada no Reformador de fevereiro de 1979, pág 14, assinada também por Bittencourt Sampaio e Antônio Luiz Sayão. Vejamos o que eles nos disseram:

    Capa da 4a. edição brasileira de Os Quatro Evangelhos, de Roustaing, FEB - 1942"NOSSA HOMENAGEM

    Ao nobre missionário de Bordéus, que, num esforço hercúleo e louvável, compilou as revelações que os Evangelistas e Moisés ditaram à distinta Senhora Collignon.

    A par da exegese de textos e versículos dos Evangelhos, preenchendo claros de forma até hoje insuperada; de esclarecimentos e interpretações de passagens antes incompreensíveis e absurdas, por força da letra;das necessidades imperiosas da atualização do conhecimento das realidades que as escrituras sintetizam, reconhecemos, quando são decorridos 112 anos da publicação da obra complementar do consolador Prometido, que teses e sínteses, conceitos re elucubrações com respeito às revelações superiores aguardam, no tempo e no espaço, mais amadurecimento e iluminação interiores, para que sejam entendidos em espírito e verdade.

    Não só pelo corpo de carne aparente com o qual o Senhor manifestou-se em sua gloriosa epopéia terrena; nem pela evolução em outros planos do espaço sideral, desvelando a não compulsoriedade das encarnações e reencarnações; tampouco pelos elevados conceitos da evolução, dos reinos inferiores da Natureza até ao instante alentador do despertar da razão e da consciência individual e imortal, em cujo imo o livre-arbitrio desabrocha por imperioso processo de aperfeiçoamento, mas sobretudo pela garantia da preservação das lições evangélicas que do Cristo Jesus recebemos – homenageamos o preclaro Dr. Jean-Baptiste Roustaing, tanto quanto reverenciamos seus pares, que, ao lado do Codificador, deram início à Era do espírito, preparando os germens do ciclo regenerativo que aguarda a comunidade terrena.

    Recordamo-nos de Denis e Delanne, de Flammarion e Aksakof, de Bozzano e Lombroso, de Geley e Crookes; contudo, nesta oportunidade, rendemos a nossa humilde e sincera homenagem ao Gigante da “revelação da Revelação”. Ao lado de Kardec, foi ele o intimorato e destemido guardião das Verdades Evangélicas. Se Allan Kardec exaltou a Moral Cristã como base de renovação e aperfeiçoamento espiritual, em “ O Evangelho segundo o Espiritismo”, Jean-Baptiste Roustaing, à semelhança dele, trouxe ao mundo as esquecidas e desprezadas revelações do Nascimento do Senhor, incompreendidas por muitos, ata as do advento da Ressurreição, igualmente incompreendidas por tantos, ainda.

    Glória, pois, ao Mensageiro da Fé. Abençoada seja a obra que suas mãos e seu coração veicularam. Nosso louvor e gratidão a ele, onde e como se encontra.

    BEZERRA, BITTENCOURT e SAYÃO, pela Falange de ISMAEL".

  • Na mensagem do Dr. Bezerra intitulada “No Dia do Livro Espírita”, recebida pela médium Maria Cecília Paiva, na sessão pública da FEB de abril de 1955, publicada no “Reformador” de abril de 1972, pág. 82, transcrita parcialmente abaixo:

    “Kardec e Roustaing volvem do passado como missionários do senhor! O primeiro edificando o corpo básico da altíssima Revelação; o segundo aprimorando-o nos contextos reveladores da excelsa Verdade. Está a humanidade de posse do inesgotável tesouro da misericórdia divina. Tem o homem em suas mãos o roteiro luminoso da paz”.

  • Respondendo a um leitor que o consulta sobre a possibilidade de adotar em seu Grupo espírita as duas obras de Antonio Luiz Sayão, Dr. Bezerra, sob o pseudônimo Max, assim responde na Gazeta de Notícias, em artigo de terça-feira, 23 de março de 1897, página 2:

    Capa da 5a. edição brasileira de Os Quatro Evangelhos, de Roustaing, FEB - 1954“...mas o autor, não possuindo, como homem, a vantagem que faz sobressair o trabalho de Kardec, de clareza e concisão, torna-o bem pouco acessível às inteligências de certo grau para baixo”.

    Seria obra de mérito valor dar à sua exposição de princípios relevantíssimos a concisão e a clareza que sobram no mestre e que lhe faltam bem sensivelmente.

    Foi esta, no fundo, a obra de Sayão.

    Em ligeiros traços resumiu, sem lesar, longas exposições – e em linguagem didática clareou e pos ao alcance de todas as inteligências o que era obscuro à maior parte.

    O livro de Sayão é um resumo de Roustaing, com as vantagens de Allan Kardec.

    È portanto correto e adiantado, sob o ponto de vista doutrinário – e é claro e conciso sob o ponto de vista do método.

    Por outra: contém as idéias de Roustaing e o método incomparável de Allan Kardec.

    Quem compreender a progressividade da revelação não pode recusar preito a Roustaing – e quem quiser colher, em Roustaing, os frutos preciosos de sua inspiração, muito lucrará estudando o livro (os livros) de Sayão. [...] Neles encontrareis o que há de mais adiantado em espiritismo, colhido na seara bendita, com a alma cheia de amor, humildade e fé, as virtudes que enastram a coroa do discípulo de Jesus, voltado à obra do Mestre Divino, com o coração cheio de energias e de caridade evangélica.”(Jesus não é Deus – Jorge Damas – Apêndice III, pág. 107).

As obras de Sayão a que se refere o Dr. Bezerra são: Trabalhos Espíritas, de 1893 e Elucidações Evangélicas à Luz da Doutrina Espírita, de 1897.

E com relação à parte filosófica?

Em Estudos Filosóficos, 1ª edição FEB, vol. III, pág 353, transcrito da obra Os Adeptos de Roustaing, do Luciano dos Anjos, temos:

Capa da 6a. edição brasileira de Os Quatro Evangelhos, de Roustaing, FEB - 1971“Jesus teve com efeito um corpo como o nosso pela forma; mas não pela natureza; teve um corpo fluídico, como tomam os anjos (espíritos puros) quando descem a nosso mundo.

É assim que a virgem não deixou de sê-lo depois do parto, sem necessidade de um milagre, coisa que Deus não pode fazer.

Se Jesus não teve corpo material para sofrer, teve os sofrimentos mais cruciantes do espírito.

E quem nos diz que seu corpo fluídico não se prestava tanto, e porventura mais do que o corpo carnal, à transmissão das sensações materiais?

O que é fora de questão é que repugna à razão o fato de um espírito divino tomar a carne dos pecadores , e que a concepção espírita de ser fluídico o corpo de Jesus, não somente fala à razão e remove aquela repugnância invencível, como ainda explica , de acordo com as leis naturais, todos os fenômenos da vida do Redentor, e principalmente sua concepção no ventre puríssimo de Maria santíssima e seu nascimento, sem que a MÃE deixasse de ser Virgem.

O que é fora de questão é que S.Paulo consagra a doutrina espírita neste ponto, quando diz : que há corpos celestes e corpos terrestres.

Que serão os corpos celestes senão os fluídicos?”

Nesta mesma obra, às págs. 449 a 454, lemos:

“O Espiritismo reforça, pelos ensinos dos altos Espíritos, as provas da imaculada conceição".

O Espiritismo considera Maria um altíssimo espírito, que veio à Terra em missão especial de servir de sacrário ao puro amor do Pai.

O Espiritismo não vê, nesse fato fenomenal, verdadeiro milagre para os que ainda não conhecem a lei, nada que pudesse atingir a pureza virginal da mãe do Redentor do mundo , quer antes , quer depois do parto.

Impossível, no primeiro caso, porque Jesus, o Deus na Terra, espírito que só tem acima de si o Pai , não podia vir atafulhar-se na carne impura da humanidade terrestre, como qualquer lapuz.

O corpo de Jesus, compatível com a virgindade de Maria e dispensando a geração, segundo a carne e a mitologia, foi delineado segundo leis eternas e não por uma exceção”.

Ainda, enquanto encarnado, escreveu o Dr. Bezerra, na obra “A Loucura sob Novo Prisma”:

Capa da mais recente edição brasileira de Os Quatro Evangelhos, de Roustaing, FEB - 1995“Por esta lei, um espírito que habitou em mundos superiores à Terra , não poderá descer a nos com seu perispírito natural, incompatível com o meio terrestre.

Também, se um espírito terrestre pudesse subir a um mundo superior, enquanto seu grau de progresso não o livra da Terra, não suportaria a superioridade daquele meio, com seu perispírito grosseiro.

Mas, o fato dá-se: da passagem de Espírito por mundos que não são da ordem do seu, como no-lo provam a vinda, entre nos, dos anjos ou puros Espíritos, habitantes das regiões etéreas, e a do Cristo, o puro dos puros; logo, há de haver lei que harmonize o princípio acima estabelecido com os fatos aqui indicados.

Terá o espírito o poder de modificar seu perispírito, de modo a constitui-lo em condições de tolerar vários meios em que precise manter-se, ou de tornar seu perispírito harmônico com esses meios?

Ensinam elevados espíritos que a vontade é força irresistível, de que se servem eles para jogar com os fluídos, combinando-os de modo a obterem as precisas condições perispirituais para aquele fim”.

Ainda, em Palavras do Infinito, como Max, pág 15:

“Ora, Jesus, sendo um espírito tão elevado, não podia de forma alguma tomar uma matéria, cuja composição nascesse de vermes... Deus concedeu-lhe a graça de escolher sua Mãe e seu Pai adotivos.”

Para concluir:

“Se a revelação é progressiva, na razão do desenvolvimento da nossa perfectibilidade, conclui-se daí rigorosamente que, enquanto a humanidade não tiver tocado ao apogeu da sua perfectibilidade, a revelação não pode ter chegado ao seu elevado grau de luz”. – Uma Carta de Bezerra de Menezes – pagina 64, item Razão de Ser do Espiritismo.

Que possamos analisar com respeito e sem idéias preconcebidas o que nosso patrono nos legou de seu conhecimento e entendimento sobre esta obra para melhor compreendermos o Cristo e sua sagrada Missão junto a nós.

Paz em Jesus

REVELAÇÃO DA REVELAÇÃO:
HISTÓRIA DE UMA EXPRESSÃO

(Texto transcrito / adaptado da obra “Jean Baptiste Roustaing, Apóstolo do Espiritismo”, de Jorge Damas Martins e Stenio Monteiro de Barros)

Os Espíritos do Senhor que, segundo a promessa do Cristo aos seus apóstolos bem-amados, se espalharam sobre a Terra, a fim de trazer a seus irmãos essa Revelação da Revelação há tanto tempo esperada, quererão também, disso temos a íntima convicção, ajudar-nos em nossa difícil tarefa. – AUGUSTE BEZ, por ocasião do lançamento do jornal espírita L’Union Spirite Bordelaise, - Junho de 1865

Joseph de MaîstreEncanta ver, no texto em destaque acima, a expressão Revelação da Revelação, tão questionada pelos que não compreenderam, ainda, o papel da obra de Roustaing como coadjuvante e complementar da Codificação Kardequiana.

Aqui, tudo fica claro: O editorial é de junho de 1865, cerca de dez meses antes do lançamento de Os quatro Evangelhos ou Revelação da Revelação, em 5 de abril de 1866. Então, não há dúvida, o texto diz que os Espíritos do Senhor, como o Cristo anunciou, se espalham na Terra, a fim de trazer a seus irmãos o Espiritismo ou essa Revelação da Revelação. A primeira palavra Revelação está como sinônimo de Espiritismo, e a segunda, é sinônimo de Cristianismo. Assim se pode ler: o Espiritismo é a revelação posterior da Revelação anterior de Cristo.

Ao utilizá-la, portanto, os Espíritos autores de “Os Quatro Evangelhos” serviram-se de expressão corrente e, com ela, referiam-se ao ESPIRITISMO CRISTÃO em geral, como TERCEIRA REVELAÇÃO, como obra COLETIVA das VIRTUDES DO CÉU, e não específica e exclusivamente à obra coordenada e publicada por Roustaing, como que a defini-la como uma revelação distinta e muito menos concorrente da Codificada por Kardec, como muitas vezes equivocadamente se interpretou.

Conhecer um pouco mais sobre a história dessa expressão reforça o entendimento acima apresentado. Ela foi bastante estudada por P.-G. Leymarie, o fiel discípulo e continuador de Allan Kardec. Lemarie diz que ela se origina de Joseph de Maîstre, no seu Soirées de St-Pétersbourg, publicado em 1821. Escreve Leymarie:

Sim, Joseph de Maîstre, em 1821, anunciou uma revelação da revelação pelo espírito, uma nova e divina involução [descida] sobre nossa Terra e cada um estará saturado dessa bondade suprema; o que chegará, dizia ele, será inacreditável, até para os crentes, de tal modo sua manifestação será evidente e tomará desenvolvimentos declarados impossíveis por todas as faculdades (Revue Spirite, novembro de 1897, p. 648).

Um ponto da profecia de Maîstre não convence P.-G. Leymarie; é quando ele fala que esta revelação da revelação, esta nova efusão do espírito profético, será reunida numa única cabeça de um homem de gênio:

A aparição desse homem não poderia estar longe; talvez mesmo já exista...(p. 650).

Leymarie não concorda com esta figura pessoal, e, baseado no profeta Joel, ensina:

Não haverá dessa vez um único Messias, mas um número grande de encarregados de diversas funções, disse Joel, enquanto que de Maîstre esquece o fato e pretende que um único homem de gênio pode modificar tudo, o que é uma asserção arriscada (p. 650).

Esta revelação profetizada por de J. Maîstre é o espiritismo, a terceira efusão após a primeira dos profetas judeus, e a segunda do Cristo. E esta terceira manifestação é conduzida por uma coletividade espiritual, como bem alerta Kardec:

“O Espiritismo ... não é uma doutrina individual, nem de concepção humana; ninguém pode dizer-se seu criador. É fruto do ensino coletivo dos Espíritos, ensino que preside o Espírito de Verdade” (A gênese, cap. XVII, item 40).

Leymarie, então, faz uma citação que confirma não só que ele pensava assim, mas também J. B. Roustaing e seus discípulos eram partidários da mesma ideia:

J. de Maîstre foi o profeta disso. J. B. Roustaing em seus quatro evangelhos é partidário da revelação da revelação, do mesmo modo seus discípulos Jean Guérin e o barão du Boscq (p. 648).

Kardec conhecia bem as profecias de J. Maîstre, pois escreve um longo artigo na Revista Espírita (RE, abril de 1867, pp. 148-158) sobre elas e, muito interessado, evoca o precursor do espiritismo, Joseph de Maîstre, na Sociedade de Paris, em 22 de maio de 1867. Antes, porém, da mensagem espiritual, ele cita alguns pensamentos deste homem de um mérito incontestável como escritor, e que é tido em grande estima no meio religioso (p. 155). Vamos grifar apenas alguns destes pensamentos:

Não há mais religião na Terra: o gênero humano não pode ficar neste estado. Oráculos terríveis, aliás, anunciam que os tempos são chegados (p. 148).

A nação francesa deveria ser o grande instrumento da maior das revelações (p. 149).

Deus fala uma primeira vez no Monte Sinai e esta revelação foi concentrada, por motivos que ignoramos, nos estreitos limites de um só povo e de um só país. Após quinze séculos, uma segunda revelação se dirigiu a todos os homens sem distinção, e é a que desfrutamos ... Contemplai .... e vereis ... como mais ou menos próxima uma terceira explosão da onipotente bondade em favor do gênero humano (pp. 153-154).

E não digais que tudo está dito, que tudo está revelado e que não nos é permitido esperar nada de novo. Sem dúvida, nada nos falta para a salvação. Mas, do lado dos conhecimentos divinos, falta-nos muito (p. 154).

Ainda uma vez não censureis as pessoas que disto se ocupam e que veem na revelação as mesmas razões para prever uma REVELAÇÃO DA REVELAÇÃO” (p. 154, [caixa alta dos autores, no original francês a expressão se enconta destacada em itálico por Kardec: une révélation de la révélation [Revue spirite, p. 106])

Pergunto-vos: disso resulta que Deus se interdita toda manifestação nova e não lhe é mais permitido ensinar-nos nada além do que sabemos? Força é confessar que seria um estranho argumento (p. 155).

Evocado J. de Maîstre por Kardec, através do médium Sr. Armand Théodore Desliens (secretário pessoal do Codificador e uma das testemunhas na certidão de seu óbito), ele confirma suas profecias e ensina a abrangência da revelação da revelação (expressão colocada em itálico por Kardec), por todo mundo:

O espírito profético abrasa o mundo inteiro com seus eflúvios regeneradores. – na Europa, como na América, na Ásia, em toda a parte, entre católicos como entre os muçulmanos, em todos os países, em todos os climas, em todas as seitas religiosas ... A aspiração a novos conhecimentos está no ar que se respira, no livro que se escreve, no quadro que se pinta; a ideia se imprime no mármore do estatuário como na pena do historiador, e aquele que muito se admirasse de ser colocado entre os espíritas é um instrumento do Todo-Poderoso para a edificação do Espiritismo (pp. 157-158).

Lembro ao amigo leitor que J. B. Roustaing também evocou Joseph de Maîstre em 1861, seis anos antes de Allan Kardec, em Bordeaux, e enviou, através do Sr. Sabò, a mensagem para o Codificador (RE, junho de 1861, p. 254). Roustaing fez um pequeno comentário desta mensagem de Maîstre e de outras recebidas. Kardec gostou do que leu, e comentou:

Vê-se que, embora iniciado recentemente, o Sr. Roustaing passou a mestre em assunto de apreciação ... pelas citações que o autor desta carta faz dos pensamentos contidos nas comunicações que ele recebeu, prova de que não se limitou a admirá-las como belos trechos literários, bons para conservar num álbum; mas as estuda, medita e tira proveito (p. 258).

Salve o Espiritismo Cristão! Salve a Revelação da Revelação!

KARDEC E ROUSTAING,
CONCORDÂNCIA UNIVERSAL

“Até nova ordem não daremos às suas teorias nem aprovação, nem desaprovação, deixando ao tempo o cuidado de as sancionar ou as contraditar. Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais dos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas, e que, em todo o caso, necessitam da sanção do controle universal, e, até mais ampla confirmação, não poderiam ser consideradas como partes integrantes da Doutrina Espírita”. (Allan Kardec, sobre a obra “Os Quatro Evangelhos” de Roustaing - RE, Junho de 1866, pág.258 da Ed. FEB)

Há algumas “lendas urbanas” que curiosamente se propagam na sociedade e adquirem às vezes o status de “verdades estabelecidas” sem que ninguém saiba exatamente como surgiram ou o porquê de sua existência.

O fenômeno é universal, não respeita fronteiras e independe de idioma, cultura, gênero ou religião. Simplesmente acontece.

Fulano disse, Beltrano acreditou, Sicrano “compartilhou” e... pronto!, muitos outros deram fé sem parar para refletir, apurar e avaliar se realmente procede ou não o que foi dito, acreditado e compartilhado. A propagação de boatos e fofocas e a promoção das pseudocelebridades talvez sejam os melhores exemplos dessas ocorrências, e elas podem ocorrer tanto para o bem, quanto para o mal. Por esse meio “fabrica-se” heróis, mas também destroi-se reputações, muitas vezes de pessoas e instituições sérias, com muita rapidez.

Aliás, nesse sentido, as advertências do apóstolo Tiago, em sua epístola, a propósito dos perigos da “língua” nos parecem de uma atualidade impressionante... imaginem o que ele diria se ao seu tempo já houvesse a internet:

“Mas nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode refrear; está cheia de peçonha mortal. Com ela bendizemos a Deus e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus”.(Tiago 3:8-9)

Em nosso meio, no movimento espírita, temos também as nossas “lendas urbanas”.

Uma delas é a de que a obra de Jean-Baptiste Roustaing e Émilie Collignon, “Os Quatro Evangelhos”, e em especial a revelação do Corpo Fluídico de Jesus não teriam recebido a sansão do “Controle Universal(1), e que portanto não seriam parte integrante da Doutrina Espírita, conforme o proposto por Kardec no texto reproduzido na epígrafe acima.

A trajetória dessa história é em tudo impressionante e muito instrutiva para aqueles que se interessam em observar como as ideias “correm” e adquirem “vida própria”... Da reserva inicial do Codificador sobre o assunto, e da sua posterior manifestação aparentemente contrária à ideia do Corpo Fluídico, em “A Gênese”, avançou-se aos poucos para a condenação, mais tarde para a segregação da obra e, finalmente, até para a difamação livre e aberta de seus autores humanos e mesmo daqueles que ousassem defendê-los...

A “boa notícia” nestes casos é que, como a base é frágil, eles também caem por si mesmos ao primeiro vento, como um castelo de cartas. “Palavras o vento leva”, diz o ditado popular, e o que se aprende, ao final desses episódios, é que a Verdade sabe se impor por si mesma quando o seu tempo é chegado, sem depender para isso dos favores humanos...

A pergunta que fazemos nessas oportunidades é sempre a mesma, talvez como fruto da nossa formação em jornalismo: Alguém já apurou? Já se parou para verificar, de fato, se há ou não citações de diferentes e relevantes médiuns, de épocas e lugares distintos, sobre o corpo fluídico, por exemplo? Na dúvida, procuramos deixar de lado as opiniões dos homens, muitas vezes controversas, para nos concentrar na pesquisa.

Não demorou muito para descobrirmos que elas existem.

O fato – independentemente do que se diga ou da opinião de quem quer que seja – é que há farta literatura mediúnica em favor da obra “Os Quatro Evangelhos”, e inclusive sobre o corpo fluídico. São mensagens e obras variadas, em bom número e de excelente qualidade, moral e doutrinária. De bons médiuns. De Espíritos relevantes.

Por que não são, então, conhecidas? Não sabemos dizer.

Algumas encontramos em prateleiras empoeiradas, em obras que pelo seu valor não mereciam olvido. Outras estão em textos de fácil acesso, mas parece que foram simplesmente ignoradas, talvez porque ao deparar-se com elas, em numerosos volumes, não estivéssemos com a atenção voltada ao tema. Ou ainda - quem poderá saber? - fosse necessário mesmo que o tempo apenas passasse, para que nós todos crescêssemos espiritualmente, e amadurecêssemos o suficiente para ter “olhos de ver”.

O mais curioso, nesse caso, é justamente a circunstância de não trazermos novidade... O que se propõe, aqui, é uma leitura mais cuidadosa, mais atenta. Vamos iluminar pedras preciosas e translúcidas em meio a uma sala escura, para observar vagarosamente os raios de luz atravessando a sua transparência, admirando passo a passo os seus variados matizes de cor...

Não temos pressa, mas calma. A Verdade fala por si mesma, em muitos casos, mas é preciso um estado de espírito de certa quietude para poder ouvi-la, clara, em nossos próprios corações...

Para facilitar o acesso a essas citações, nós as reunimos, as principais. Elas podem ser vistas no capítulo homônimo a esse artigo – CONCORDÂNCIA UNIVERSAL (constante no volume PÃO VIVO, publicado pela nossa Casa) ou acessando o nosso blog, DE VOLTA AO CRISTIANISMO DO CRISTO, publicado em 2013, mas que traz aproximadamente 50 destas “pérolas” maravilhosas, mas esquecidas, de nossa literatura espírita.

Àqueles que têm interesse sobre o tema, uma boa leitura!

Muita paz.

(1)“Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares”. – Introd. de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, item II.


EURÍPEDES BARSANULFO E GABRIEL,
O ARAUTO DA ANUNCIAÇÃO

Na semana passada destacamos aqui a preciosidade desta obra mediúnica psicografada por Eurípedes Barsanulfo, o nosso Apóstolo de Sacramento - "Eurípedes Barsanulfo, Médium de Jesus" - com preciosíssimas mensagens de algumas das "Virtudes dos Céus", Espíritos Superiores, em sua maioria participantes da Revelação Crística, que vieram também manifestar a sua presença e participar do advento do Consolador prometido por Jesus, o Espírito da Verdade, a Terceira Revelação: Os Evangelistas, Isabel, Zacarias, João Batista, José, Maria... então todos lá. Na oportunidade, para salientar o valor dessa obra e das mensagens que traz, publicamos a primeira mensagem de Maria contida em suas páginas. Hoje damos sequência a esse esforço, publicando desta vez pequeno trecho das palavras de Gabriel, o "Anjo" ou "Espírito" que fez o papel de arauto da anunciação, do encontro entre o Céu e a Terra que se concluiu com a histórica e belíssima sentença de Maria: "Faça-se em mim conforme a vontade do Senhor". Não vamos nos alongar em nossos comentários, a mensagem fala por si. Importante é poder testemunhar o fato de que as três revelações "se falam", e que a Revelação Espírita confirma e esclarece em todos os pontos as passagens relacionadas à presença de Jesus na Terra, entre as quais, claro, o episódio da anunciação e da encarnação especial empreendida pelo Espírito Crístico para poder se fazer presente, visível e tangível entre nós. Vamos ao texto, pois:

A paz bendita do Senhor seja o rubi mais caro que, engastado, brilha em vossos Espíritos.

Oh! Quando, há milhares de anos recebi ordens para descer a uma pobre cabana, ordens de Deus, todo poderoso, sim, há milhares de anos que desci nesta cabana para assim pedir: salve, oh! donzela, oh! Espírito eleito do Senhor!

Salve, Maria.

A cheia de graça! Bem aventurada és tu porque de teu ventre nascerá o Redentor que conduzirá ao reino do Senhor a humanidade pela palavra, pelos atos, pelas virtudes e pelos ensinamentos. Quando a mulher, humilde e fervorosa, recebe a minha anunciação, Ela se cora e tomada de um doce enleio por não saber como é que Ela se constituiria a mãe de Jesus. Sim, Maria, sobre vós virá a sobra do Espírito Santo e o vosso ventre dele recebendo os puríssimos fluidos que devem constituir o corpo do divino Nazareno. Vós, Maria, sereis destarte aquela que há de gozar primeiro da presença do Salvador neste mundo.

No ímpeto de toda humildade, Maria recorda-se de que por Deus viera à Terra mandada ao desempenho da sublime missão de ser mãe de Jesus. E então, Maria, de joelhos, como estava, volvendo os olhos ao céu, declara: "faça-se em mim a vontade do Senhor".

Realizado estava o pacto, feita estava a aliança da humanidade terrena com seu Deus, chegado foi, no relógio da eternidade, o momento em que Maria, em êxtase sublime, recebe nos braços o farol iluminador da humanidade terrena - Jesus.

Correm os tempos e ei-Lo, com o verbo divino, convidando a humanidade a se redimir.

Jesus, o Senhor Divino, sai a pregar à Humanidade!

Capa do livro Eurípedes Barsanulfo, O Médium de JesusJesus prega a Caridade!

Jesus! Jesus, ei-Lo entre o povo, ei-Lo entre a humanidade dizendo: "Deixar vir a mim as criancinhas porque delas é o Reino dos Céus"; "Bem aventurados os que choram porque serão consolados; Bem aventurados os humildes porque verão a Deus". Eis Jesus, ensinando, curando os paralíticos. Eis Jesus entregando à humanidade a chave da caridade que tem por fim abrir as portas dos mundos que povoam o universo!

Eis Jesus dizendo à humanidade que, para a salvação de seus Espíritos, esta tinha de trilhar seus passos por caminhos de crueis sacrifícios e declarar peremptoriamente: homens, amai-vos uns aos outros. Eu vos dou ensinamento único capaz de vos constituir filhos de Deus e tornar-vos puros. Sim, meus irmãos, entregai-vos à prática do bem, à prática da caridade e tereis salvo e redimido a vossa alma.

Ah! Jesus, então, em troca do amorável sentimento da fraternidade e do amor recebe o sentimento da perseguição e do ódio e da vingança!

Ei-lo que escala o gólgota para ensinar à humanidade ver-se submissa à vontade de Deus.

Eis Jesus que saindo ao mundo dissse que mandaria o Consolador para revelar outros ensinamentos, para receber os que a humanidade não se achava preparada!

Este Consolador, este Espírito da Verdade, na Terra está desde o dia em que o Divino Senhor reergueu para, de novo, tornar ao seio de seus discípulos e de seu apóstolos[...] ide e pregai [...]!

(Mensagem recebida a 09-05-1908,às páginas 167-169 da ed. citada).

A EVOLUÇÃO E A ESPIRITUALIZAÇÃO DO SEXO E DAS FORMAS DE REPRODUÇÃO

Esse é um tema pouco estudado / comentado em nosso meio, e no entanto é fundamental para plena compreensão do processo evolutivo e progressiva evolução das formas. Se os mundos se fluidizam e os corpos se sutilizam, ao longo do carreiro evolutivo, é natural e necessário que os modos de reprodução acompanhem esse mesmo processo, deixando para trás a animalidade e adaptando-se a regimes superiores de espiritualidade. Encontramos a respeito, na edição de Fevereiro de 1864, da Revista Espírita, interessante artigo (e raro) sobre o tema, que transcrevemos abaixo.

Até aqui a reencarnação tem sido admitida de maneira muito prolongada; não se pensou que esse prolongamento da corporeidade, embora cada vez menos material, acarretava necessidades que deviam atrasar o progresso do Espírito. Com efeito, admitindo a persistência da geração nos mundos superiores, se atribuem ao Espírito encarnado necessidades corporais, dão-lhe deveres e ocupações ainda materiais, que o sujeitam e detêm o impulso dos estudos espirituais. Qual a necessidade desses entraves? Não pode o Espírito gozar das alegrias do amor sem sofrer as enfermidades corporais? Mesmo na Terra, esse sentimento existe por si mesmo, independente da parte material do nosso ser; por mais raros que sejam, há exemplos suficientes para provar que deve ser sentido, de modo mais geral, entre os seres mais espiritualizados.

A reencarnação proporciona a união dos corpos; o amor puro, apenas a união das almas. Os Espíritos se unem segundo afeições iniciadas em mundos inferiores, e trabalham juntos por seu progresso espiritual. Têm uma organização fluídica totalmente diferente da que era conseqüência de seu aparelho corporal, e seus trabalhos se exercem sobre os fluidos, e não sobre os objetos materiais. Vão a esferas que, também, realizaram seu período material e cujo trabalho humano ensejou a desmaterialização, esferas que, chegadas ao apogeu de seu aperfeiçoamento, também passaram por uma transformação superior que as torna apropriadas a experimentar outras modificações, mas num sentido inteiramente fluídico.

Agora compreendeis a imensa força do fluido, força que mal podeis constatar, mas que não vedes nem apalpais. Num estado menos pesado ao em que estais, tereis outros meios de ver, tocar, trabalhar esse fluido, que é o grande agente da vida universal. Por que, então, o Espírito ainda teria necessidade de um corpo para um trabalho que está fora das apreciações corporais? Dir-me-eis que esse corpo estará em relação com os novos trabalhos que o Espírito deverá realizar; mas, levando-se em conta que esses trabalhos serão completamente fluídicos e espirituais nas esferas superiores, por que lhe dar o embaraço das necessidades corporais, uma vez que a reencarnação determina sempre, como já disse, geração e alimentação, isto é, necessidades da matéria a satisfazer e, em contrapartida, entraves para o Espírito? Compreendei que o Espírito deve ser livre em seu vôo para o infinito; compreendei que, tendo saído das fraldas da matéria, aspira, como a criança, a marchar e a correr sem ser detido pelo zelo materno, e que essas primeiras necessidades da primeira educação da criança são supérfluas para a criança crescida, e insuportáveis para o adolescente. Não desejeis, pois, ficar na infância; olhai-vos como alunos que fazem os últimos estudos escolares e se dispõem a entrar no mundo, a nele ter a sua posição e a começar trabalhos de outro gênero, que seus estudos preliminares terão facilitado.

O Espiritismo é a alavanca que, de um salto, erguerá ao estado espiritual todo encarnado que, querendo bem compreendêlo e o pôr em prática, se empenhará em dominar a matéria, a tornar-se seu senhor, a aniquilá-la; todo Espírito de boa vontade pode pôr-se em condição de passar, ao deixar este mundo, para um estado espiritual sem retorno terrestre. Falta-lhe apenas fé ou vontade ativa. O Espiritismo a oferece a todos os que o quiserem compreender em seu sentido moralizador.

Um Espírito protetor do médium (Revista Espírita Fev/1864, Ed. FEB, págs.81 e 82)

O CENTENÁRIO DE "OS QUATRO EVANGELHOS"

Capa da Edição Original de Os Quatro EvangelhosNão, por favor não se assustem os prezados leitores e visitantes de nosso site, esta matéria não está equivocada e sabemos bem que a magistral obra "Os Quatro Evangelhos", de Roustaing, foi publicada em 1866, e por isso celebramos em 2016 os seus 150 anos... ocorre que recentemente achamos esse texto notável, publicado em "O Cristão Espírita", em sua edição de abril/maio 1966, durante as comemorações do centenário dessa obra tão bem definida por Bezerra de Menezes como "sagrada", e decidimos resgatá-lo e republicá-lo. Não temos com precisão a definição de sua autoria, mas provavelmente deve ser ou do então redator-chefe de nosso jornal, nosso prezado Indalício Mendes, ou do valoroso e igualmente admirado Ivo de Magalhães, grande estudioso da revelação recebida por Emílie Collignon. Como saudade não tem idade... esperamos que apreciem!

"O ESPIRITISMO vê passar agora o primeiro centenário da extraordinária obra "Os Quatro Evangelho" - Espiritismo Cristão ou Revelação da Revelação - recebida pela médium Emílie Collignon, cujas excelentes faculdades justificaram inteiramente a sua escolha pelo Alto. Não temos dados para fixar o dia e o mês do lançamento do primeiro volume dessa notável obra.(1)

As revelações começaram a ser recebida» mediunicamente em dezembro de 1861, terminando em maio de 1865, perfazendo um total de três volumes, aparecidos em 1866.

Guillon Ribeiro escreve à página 43 da edição de 1920 o seguinte: "Em 1866 [Roustaing] publicou os três volumes dos QUATRO EVANGELHOS e ofereceu um exemplar a Allan Kardec que, na sua REVISTA, em junho de 1867, apreciou a obra", etc.(2)

É curioso assinalar a "coincidência": Assim como coube a Kardec coordenar (e codificar) as obras fundamentais do Espiritismo, coube igualmente a Roustaing coordenar 'Os Quatro Evantelhos", desenvolvendo também estafante trabalho. Se Allan Kardec teve do "Espírito da Verdade" a incumbência de sua gloriosa e fecunda tarefa, supreendido, quando menos o esperava, pela honra e responsabilidade do comentimento, Jean Baptiste Roustain, do mesmo modo, foi supreendido pelo Espírito do Apóstolo Pedro, em 30 de junho de 1861, à realização do importante trabalho, o que constituiu inesperada revelação para ele e para a médium Emílie Collignon. Fora ele visitar essa senhora, a quem não conhecia, a fim de apreciar um grande quadro mediunicamente desenhado, representando um aspecto dos mundos que povoam o espaço. Oito dias depois, voltou, por dever de cortesia, para agradecer à Mme. Colligon o acolhimento distinto que lhe havia dispensado. Quando se preparava para sair, a médium sentiu a agitação fluídica indicadora da presença de um Espírito desejoso de manifestar-se. Tudo começou com a mensagem recebida de Mateus, Marcos, Lucas e João, assistidos pelos Apóstolos.(3)

Como cristãos espiritas, rogamos ao Pai que abençoe o Espirito de J. B. Roustaing e de quantos contribuíram para doar à humanidade essa obra magnífica, que "alem de ser obra de estudos e meditação metódica dos Evangelhos, será sempre também indispensável obra de consulta, não só para os que já lhe hajam perlustrado às páginas, como ainda para os que, sem o terem feito, busquem no momento elucidar qualquer das grandes questões que o Espiritismo veio por em foco" (Guillon Ribeiro, tradutor, no prefácio da 4a. edição).

Outro vulto eminente do Espiritismo brasileiro, Manoel Quintão, assim se referiu, em O CRISTO DE DEUS (ed. FEB) a "Os Quatrro Evangelhos": "estudar o Espiritismo não é limitar-se a Kardec, nem limitar-se a Roustaing, nem particularizar com qualquer outro, porque o caráter do Espiritismo está na imanência de suas fontes, que asseguram sempre conhecimentos sempre progressivos para amplitudes infinitas". Guillon Ribeiro disse que essa obra, "em tempo não muito distante, se tornará para os espíritas todos, uma fonte onde todos irão constantemente beber, desde que do seio deles desapareça o nefasto personalismo que ainda os traz desunidos, desde que os liguem o pensamento e o desejo únicos de servirem a Jesus, exemplificando o amor e a fraternidade, demonstrando ao mundo que todos são um com o Mestre Divino como Ele é um com o Pai" ("Jesus - nem Deus, nem homem").

Anúncio do laçnamento de Os Quatro EvangelhosO grande mestre Kardec, na "Revue Spirite", de 1861, págs. 167 a 172, teve palavras justas acerca dos pontos de vista de Roustaing: "Os princípios que aí são altamente expressos (na carta que lhe escrevera Roustaing), por um homem cuja posição o coloca entre os mais esclarecidos, darão que pensar aos que, supondo possuirem o privilégio da razão, classificam todos os adeptos do Espiritismo como imbecis. Vê-se que Roustaing, apesar de recentemente iniciado, se tornou mestre em matéria de apreciação; é que ele tem séria e profundamente estudado, o que lhe permitiu apreender rapidamente todas as consequências da importante questão do Espiritismo, e que, ao contrário de muitos, ele não ficou na superfície. Infelizmente, nem todos têm, como ele, (Roustaing) a coragem de dar a sua opinião, e é isso que alimenta os adversários (citação feita em "Elos Doutrinários", de Ismael Gomes Braga, págs. 13 e 14).

Este último autor, no livro citado, acrescenta: "A autoridade indiscutível de Kardec reconhecia, pois, na médium e no compilador de "Os Quatro Evangelhos", criaturas superiores, capazes; e hoje, diante da aprovação geral por parte dos Espíritos,nós, espíritas conscienciosos, que seguimos o conselho do Codificador, lendo e consultando a Roustaing, temos o dever de aproximar as obras dos dois Missionários e não nos orientarmos por processos dissolventes, como fazem os confrades de outros países, onde até hoje combatem a Codificação Kardequiana por não aceitarem ao que chamam de "dogma da reencarnação" (pág.14).

Nesta oportunidade de real contentamento espiritual, unamo-nos em torno de Kardec e Roustaing, estudando-lhes as obras e preparando nosso espírito para a mais alta e profunda compreensão dos Evangelhos e da Doutrina Espírita, ou, melhor dizendo, do Cristianismo puro, em espírito e verdade, porque Espiritismo e Cristianismo são uma só doutrina, uma só ideia, um só corpo e uma só alma, com um único objetivo: a felicidade da criatura humana nos dois planos em que se divide a vida, o espiritual e o material. Ambos preparam o homem e a mulher para a vida de hoje na Terra e para a vida de amanhã, na Espiritualidade. Ambos mostram a relação íntima entre o Passado, o Presente e o Futuro, pelos lindes do Carma, através da Justiça Divina representada na reencarnação."

(1) - A intuição de Azamor, Indalício e Ivo foi certeira! Publicam a homenagem ao centenário de "Os Quatro Evangelhos" na edição de Abr/Maio de 1966 e, anos mais tarde, a pesquisa coordenada pelos nossos irmãos Jorge Damas Martins e Stenio Monteiro de Barros conseguiu recuperar o anúncio de lançamento da obra - confirmando como suas datas de lançamento exatamente a 05 de abril (1o e 2o. volumes) e 05 de maio de 1866 (3o. volume). Vide figura acima, à direita. Quem desejar mais informações a respeito favor consultar "Jean Baptiste Roustaing, Apóstolo do Espiritismo", em nossa Biblioteca virtual.

(2) Aqui houve um erro material, o correto é junho de 1862.

(3) Há também mais detalhes sobre essa visita e sobre a natureza e autoria desse quadro mediúnica na obra acima referida, vale consultar...