COISAS INVISÍVEIS
“ Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder como a sua divindade se estendem e claramente se veem pelas coisas que estão criadas.” – Paulo (Romanos 1:20)
O espetáculo da Criação Universal é a mais forte de todas as manifestações contra o materialismo negativista, filho da ignorância ou da insensatez.
São as coisas criadas que falam mais justamente da natureza invisível.
Onde a atividade que se desdobre sem base?
Toda forma inteligente nasceu de uma disposição inteligente.
O homem conhece apenas as causas de suas realizações transitórias, ignorando, contudo, os motivos complexos de cada ângulo do caminho. A paisagem exterior que lhe afeta o sensório é uma parte minúscula do acervo de criações divinas, que lhe sustentam o habitat, condicionado às suas possibilidades de aproveitamento. O olho humano não verá além do limite da sua capacidade de suportação. A criatura conviverá com os seres de que necessita no trabalho de elevação e receberá ambiente adequado aos seus imperativos de aperfeiçoamento e progresso, mas que ninguém resuma a expressão vital da esfera em que respira no que os dedos mortais são suscetíveis de apalpar.
Os objetos visíveis no campo de formas efêmeras constituem breve e transitória resultante das forças invisíveis no plano eterno.
Cumpre os deveres que te cabem e receberás os direitos que te esperam. Faze corretamente o que te pede o dia de hoje e não precisarás repetir a experiência amanhã.
( Pão Nosso – Emmanuel/Francisco Cândido Xavier)
UM SÓ REBANHO, UM SÓ PASTOR
Tenho ainda outras ovelhas, que não são deste redil; também a essas devo conduzir, e elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor.(JOÃO, 10:16)
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As palavras de Jesus, registradas unicamente no Evangelho segundo João, alimentam a esperança de que, no futuro, haja maior entendimento entre os habitantes do planeta. Na atualidade, já identificamos alguns ensaios relacionados à tentativa de maior entendimento entre os povos, que extrapolam as barreiras histórico-culturais construídas até então. [...] O esclarecimento de Jesus, como Messias da comunidade terráquea, tem uma abrangência muito mais ampla que, no tempo e no espaço, saberá superar todas as dificuldades que criam empecilhos à união fraternal entre os humanos.
Allan Kardec pondera a respeito:
[...] Jesus anuncia claramente que os homens um dia se unirão por uma crença única [...] A tarefa parece difícil, tendo-se em vista as diferenças que existem entre as religiões, os antagonismos que elas alimentam entre seus respectivos adeptos e a obstinação que manifestam em se acreditarem na posse exclusiva da verdade. [...].
[...] O acelerado desenvolvimento tecnológico vem rompendo as fronteiras geográficas e culturais, favorecendo a aproximação humana, como até então nunca acontecera. Os desafios existentes para a construção de pontes de entendimentos não são, a rigor, oriundos da Ciência e, sim, das interpretações religiosas, em geral mantidas por opiniões que refletem mais as políticas clericais do que a vivência, pura e simples, da Lei de Amor. Contudo, por força da Lei do Progresso os laços de fraternidade irão superar todas as dificuldades ao verdadeiro entendimento humano, como analisa o Codificador:
A fim de chegarem à unidade, as religiões terão que se encontrar num terreno neutro, se bem que comum a todas; para isso, todas terão que fazer concessões e sacrifícios maiores ou menores, conforme a multiplicidade de seus dogmas particulares.
[...] O nosso estudo tem como foco Jesus, o Pastor Divino, que cuida e apascenta a humanidade terrestre, segundo a vontade de Deus. O seu trabalho é encaminhar a Deus, ao aprisco divino, as ovelhas do seu rebanho – simbolicamente representadas como os habitantes, encarnados e desencarnados, da Terra. [...] Assim, o Messias de Deus não deve ser confundido como um simples guardador de ovelhas humanas, de um pregador ou dirigente de uma igreja. Ao contrário, como assevera Emmanuel:
Cristo é a linha central de nossas cogitações.
Ele é o Senhor único, depois de Deus, para os filhos da Terra, com direitos inalienáveis, porquanto é a nossa luz do primeiro dia evolutivo e adquiriu-nos para a redenção com os sacrifícios de seu amor. Somos servos d’Ele. Precisamos atender-lhe aos interesses sublimes, com humildade. [...].
Merece destaque a seguinte afirmativa de Jesus, assinalada no texto de João ora em estudo: “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: devo conduzi-las também; elas ouvirão minha voz [...]”.
Possivelmente, à época em que tais palavras foram pronunciadas, “as ovelhas de outros rebanhos” abrangiam, em primeiro lugar, os povos gentílicos, nos quais a ideia de Deus único, Criador Supremo do Universo era, praticamente, inexistente. [...] Atualmente, o politeísmo não é tão expressivo, considerando-se o efetivo estabelecimento das revelações monoteístas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Contudo, o Cristo enfatiza que Ele atenderá, também, às ovelhas de outro redil, que ainda desconhecem os seus ensinamentos.
É possível que esse anúncio profético de Jesus seja estabelecido na era da regeneração, tão acalentada atualmente, em especial pelos espíritas. Nesse período, marcado pela união fraterna de povos e indivíduos, as divergências, religiosas ou não, serão amenizadas, e um maior entendimento ocorrerá entre as pessoas:
[...] Quando todos os homens estiverem convencidos de que Deus é o mesmo para todos; de que esse Deus, soberanamente justo e bom, nada pode querer de injusto; que o mal vem dos homens e não d’Ele, todos se considerarão filhos do mesmo Pai e se estenderão as mãos uns aos outros.
Com a vivência da verdadeira fraternidade na Terra, a profecia do Cristo será, então, cumprida integralmente: “[...] então haverá um só rebanho e um só pastor”. Nessa ocasião, uma geração nova, solidária e amiga, espiritualmente mais amadurecida, viverá no planeta que, unida, caminhará firmemente, a despeito dos obstáculos do caminho, para alcançar a plenitude espiritual. E as ideias espíritas florescerão por toda a parte:
A nova geração marchará, pois, para a realização de todas as ideias humanitárias compatíveis com o grau de adiantamento a que houver chegado. Avançando para o mesmo alvo e realizando seus objetivos, o Espiritismo se encontrará com ela no mesmo terreno. Os homens progressistas descobrirão, nas ideias espíritas, uma poderosa alavanca, e o Espiritismo achará, nos novos homens, espíritos inteiramente dispostos a acolhê-lo [...].
MARTA ANTUNES MOURA
(Trechos de artigo com mesmo título, publicado em Reformador, Agosto de 2021.)
A TIRA DE PAPEL
A sessão terminara.
Armindo pensava, enquanto as pessoas deixavam o salão. Ali viera pela primeira vez por insistência de amigos que lhe indicaram o Espiritismo como recurso para asserenar-lhe a angústia.
Ecoavam nele, ainda, as palavras do orador, moço a brandir verbo firme e brilhante:
– A fé em Deus traz a alegria de viver. É sol na alma. Tenhamos confiança e, sobretudo, ajudemos àqueles que não a possuem, confortando os desesperados. Ajudar a alguém é ajudar-nos. Servir é servir-nos.
E Armindo sismava:
– O pregador diz essas coisas, mas não creio que as faça. É muito moço ainda. Cheio de vida. Quero ver quando chegar na minha idade... Cinquenta e seis anos... Quanta decepção!... Quanta dor!...
E, meditando, não percebeu que quase todos os circunstantes já se haviam retirado, deixando-o quase só...
Armindo levanta-se e vê um montículo de papel sobre a mesa.
São pequenas tiras indicando os nomes de doentes que haviam recorrido às orações daquela noite no templo espírita.
Brota-lhe uma ideia de súbito.
Apanharia um nome e aplicaria os conselhos ouvidos. Consolaria a alguém necessitado, tentando melhorar a sua própria mente.
Colhe um pedacinho de papel e lê nele um nome de mulher, com o endereço respectivo.
– Amanhã é domingo – refletiu. – Visitarei essa pessoa pela manhã.
Realmente, às oito horas batia à porta de pequena casa a desmoronar-se, em um bairro distante.
Mocinha triste atende.
Armínio pergunta pela mulher indicada. E a jovem fala baixinho:
– Meu senhor, Conceição acaba de desencarnar. Entre, faça o favor.
Emocionado, Armínio vê junto a catre paupérrimo duas senhoras humildes compondo o corpo inerte de mulher moça, observadas por duas crianças de olhar agoniado.
Depois das saudações, uma das senhoras assinala, discreta:
– Era câncer. Descansou, coitada. Há três meses vinha sofrendo horrivelmente.
Armindo, consternado, escutou o esclarecimento.
Nisso um homem penetra no quarto penumbroso.
– É o marido da morta e pai dos meninos – esclarece a senhora, falando de novo.
Armindo dirige-se para ele, fazendo menção de cumprimentá-lo, e, extremamente surpreendido, reconhece nele o orador da noite precedente, de olhos molhados, mas de fisionomia tranquila.
(Almas em Desfile – Hilário Silva/Waldo Vieira e Francisco Cândido Xavier)
OS EVANGELHOS EXPLICADOS
Origem e Evolução do Espírito
(Mateus, 1: 1 a 17 - Lucas, 3: 23 a 38 - continuação)
Sob a direção e a vigilância dos Espíritos prepostos, o Espírito em formação efetua assim, sempre numa progressão contínua, o seu desenvolvimento com relação à matéria que o envolve e chega a adquirir a consciência de ser.
Preparado para a vida ativa, exterior, para a vida de relação, passa ele ao reino animal.
Torna-se então princípio inteligente de uma inteligência relativa, a que chamais — instinto; de uma inteligência relativa às necessidades físicas, à conservação, a tudo o que a vida material exige, dispondo de vontade e de faculdades, mas limitadas àquelas necessidades, àquela conservação, à vida material, à função que lhe é atribuída, à utilidade que deve ter, ao fim a que é destinado em a natureza, sob os pontos de vista da conservação, da reprodução e da destruição, na medida em que haja de concorrer para a vida e para a harmonia universais.
Sempre em estado de formação, pois que não possui ainda livre-arbítrio, inteligência independente capaz de raciocínio, consciência de suas faculdades e de seus atos, o Espírito, sem sair do reino animal, seguindo sempre uma marcha progressiva contínua e de acordo com os progressos realizados e com a necessidade dos progressos a realizar, passa por todas as fases de existência, sucessivas e necessárias ao seu desenvolvimento e por meio das quais chega às formas e espécies intermediárias, que participam do animal e do homem. Passa depois por essas espécies intermediárias, que, pouco a pouco, insensivelmente, o aproximam cada vez mais do reino humano, porquanto, se é certo que o Espírito sustenta a matéria, não menos certo é que a matéria lhe auxilia o desenvolvimento.
(Fonte: "Os Quatro Evangelhos", org. de Jean Baptiste Roustaing, psicografia de Émilie Collignon, Ed. Ibbis, Brasília, 2022. Tomo I, Item 56, parágrafos 33 a 36)
ESTUDOS FILOSÓFICOS:
A maior e melhor série de artigos
da literatura espírita brasileira está de volta!
Artigo CDXXXV - Gazeta de Notícias, 12-04-1896
Releve o Apóstolo a nossa impertinência de querermos à fina força curá-lo da demomania.
Já lhe demos as experiências do sábio e virtuoso Almignana, sobre as manifestações por médiuns sonambúlicos. Passaremos, agora, às que o ilustre padre doutor fez sobre as que se dão pelas mesas giratórias e falantes. Ouçamo-lo:
“Tenho feito grande número de experiências com as mesas, em companhia de leigos piedosos e de eclesiásticos, pessoas devotas e circunspectas e até de um venerável bispo, e sempre com a maior seriedade.
“Querendo saber, no interesse da religião e das nossas almas, se com efeito era o demônio que comunicava movimento e linguagem às mesas, empregamos, à exceção do exorcismo, todos os meios que a doutrina católica nos oferece para expulsar o demônio – e não podemos alcançar resultado algum naquele sentido.
“De fato, nem a prece, nem os sagrados nomes de Deus e de Jesus, nem o sinal da cruz feito sobre a mesa, nem o crucifixo, nem o rosário, nem os Evangelhos, nem a Imitação de Jesus Cristo, postos em cima da mesa, nem a água benta, puderam obstar que girassem, batessem e respondessem às nossas perguntas.
“Pelo contrário, temos visto muitas vezes a mesa inclinar-se diante da imagem do crucificado.
“Acrescento mais: n’uma experiência que fiz com o mencionado bispo, foi este quem fez o sinal da cruz sobre o velador, sem que, apesar disso, interrompesse o movelzinho seus movimentos. Em seguida perguntou S. Ex. Revd. ao velador se amava a cruz, e, como este respondesse pela afirmativa, não foi sem grande surpresa que S. Ex. Revd. viu inclinar-se o velador diante de sua cruz pastoral e falar-lhe da vida futura com ortodoxia.
“Se, depois do que acabo de expor, fosse necessário raciocinar de conformidade com a pneumatologia do Sr. de Mirville, eis qual devia ser o raciocínio:
“A doutrina católica, no tocante às obsessões diabólicas, dá à prece, aos santos nomes de Deus e de Jesus, ao sinal da cruz, à água benta, aos exorcismos, a virtude de expulsar os demônios dos possessos. Ora, a prece, os nomes sagrados de Deus e de Jesus, o signal da cruz etc., não têm conseguido expulsar o demônio dos sonâmbulos, nem das mesas que, na opinião do Sr. de Mirville, são verdadeiros possessos; logo, a doutrina católica, quando confere à prece, aos santos nomes de Deus e de Jesus etc. a virtude de expulsar o demônio, está em erro – logo a Escritura, os SS. PP. e a Igreja, autoridades em que se firma a doutrina católica acerca das obsessões e da maneira de livrar os possessos do demônio, estão em erro.
“Mas qual será o verdadeiro católico que sustente semelhante linguagem?
“Não faltará quem objete que, se os meios que a doutrina católica oferece, para expulsar o demônio, nem sempre surtem efeito, é isso devido à falta de fé dos que os empregam.
“A esses responderei que os pagãos não primavam por sua fé e, no entanto, Orígenes diz que o nome de Deus proferido por eles expulsa os demônios.
“Há um grande número de pessoas, entre as quais eclesiásticos e leigos que não se arredam dos sacramentos, que comigo fizeram experiências; oraram e invocaram os santos nomes de Deus e de Jesus, etc. Seria razoável admitir que no meio delas não houvesse uma ao menos que tivesse tanta fé como um pagão? Não posso crer.
“Pois que! o amável bispo, que comigo fez experiências e que durante quarenta anos sacrificou-se pela propaganda da verdade, em remotas paragens, não teria tanta fé como um pagão, para expulsar o demônio com o nome de Deus? Afirmá-lo seria insultar a obra santa da propagação da fé, na pessoa de um dos melhores apóstolos”.
Ainda isto não é tudo.
“S. João nos ensina a conhecer se um Espírito é ou não de Deus.
“Meus muito amados, diz na Ep. 1a., cap. IX, eis como conhecereis quando um Espírito é de Deus: todo o Espírito que confessa que Jesus veio em carne é de Deus, e todo o que não confessa, não é de Deus.
“Instruído por S. João e desejando conhecer a natureza dos Espíritos ou forças que atuam na rotação e na linguagem das mesas, servi-me também do meio indicado.
“Com este fim, estando minha mesinha em movimento, dirigi-lhe a seguinte pergunta:
– Confessais que Jesus veio em carne?
– Sim, respondeu.
“A mesma resposta à pergunta feita por diversas vezes.
“Depois destas experiências, poderei conscientemente crer na intervenção do demônio nas mesas giratórias e falantes, sem reconhecer como errôneo o ensino de S. João?”
Graças a Deus é um padre, assistido por um bispo, ambos venerandos e ambos firmados nas Escrituras, nos SS. PP. e na Igreja e em S. João, quem varre do campo do Espiritismo a influência do demônio, rival de Deus, segundo a Igreja.
Ou tudo o que ensinam estes luzeiros da verdade, para expulsar o demônio, é pura e prova da falsidade – ou o tal demônio tem poder para desbaratar as hostes divinas – ou as comunicações espíritas, pelos médiuns e pelas mesas não são obra de tremebunda potência.
Isto é tão rigoroso como dizer-se: – não há efeito sem causa.
Escolha, pois, o Apóstolo, entre as três hipóteses, a que lhe parecer mais racional e mais conforme com o critério da verdade absoluta.
Ou é falso o ensino sagrado – ou Satanás pode mais do que os que agem em nome do Senhor – ou as comunicações espíritas não são as coisas do demônio!
E notem bem os padres do Apóstolo: não são possessos que fizeram as experiências, de que resulta o claro dilema: foram padres – virtuosos ministros do altar do Deus Vivo.
E notem mais que nem o Arcebispo de Paris nem o Santo Padre condenaram as experiências e dedicações do respeitável abade Almignana.
Deus se compadeça dos pobres cegos d’alma.
Max.
Reproduzido conforme texto original. Confira na edição da Gazeta de Notícias de 12-04-1896 Hemeroteca da Biblioteca Nacional.
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